Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Eduardo Fernandes faz um dos sites pessoais (www.eduf.com.br) mais divertidos do planeta. Não contente, foi ao Ibirapuera de madrugada, ficar pelado com outros mil e tantos cidadãos. Esta é a segunda parte do seu relato:
Carandiru de playboy
Posamos em pé e depois deitados no asfalto. Éramos cerca de 1.100 corpos largados como num filme sobre campo de concentração ou massacres em presídios. Claro que a experiência de Tunico é completamente diferente dessas. Mas olhe o resultado das fotos: impossível não associa-lo às imagens do massacre do Carandiru. Comandos em ação
Foi pensar nisso e apareceram três helicópteros, que se aproximavam cada vez mais. Já estava esperando um Chuck Norris, um Rambo descer atirando: ‘Pronto! O FMI resolveu apelar.’ Mas era algo mais trivial: três emissoras de tevê nos filmavam. Vistos de cima, formávamos uma espécie de tapete cheio de pelancas.
Bovinos
Alguém no megafone pediu para nos levantarmos e seguirmos para a marquise do Ibirapuera. Só então reparei na paisagem de celulites, barrigas estratosféricas e falos encolhidos e tortos (sejamos freudianos). Era o anti-Fashion Week. Nosso passo era cadenciado e bovino. Nos escondíamos da imprensa andando entre a multidão. Quanto maior o grupo, mais protegidos nos sentíamos. Nossas peronites e espinhas na bunda se tornaram insuportavelmente coletivas, massificadas. Totalmente diferentes dos nus da Renascença, que eram individuais, tinham no máximo três ou quatro personagens. Admitiam até cenário. Para Tunico, nós éramos o cenário.
Entulho humano
Debaixo da marquise, deveríamos nos deixar cair, como se estivéssemos sem forças. Horror, horror, horror: ficamos literalmente amontoados, como entulho, e com as costas no chão frio. Minha cabeça ficou do lado da bunda mais peluda do universo. Deveria ser transgênica ou mutante, nunca humana. Quase vomitei. Senti uma cabeça de homem pousar no meu braço esquerdo. Não houve tempo nem para o neocórtex processar a informação, reagi instintivamente: ‘Tira essa jaca daí que eu não sou publicitário.’ O sujeito deve ter se espantado com a minha educação texana, pois simplesmente sumiu.
Acupuntura grátis
Levantamos novamente e fomos fazer a última foto, em frente do Obelisco, o maior símbolo fálico de São Paulo. Nada mais adequado para estimular traumas, já que nossos pênis estavam em modo econômico, encolhidos por causa do frio. Era o eterno retorno: lá estávamos, nus como nossos ancestrais, de frente para Pedro Álvares Cabral. Só que desta vez não o gajo, mas a avenida. Cheia de ônibus e, claro, de curiosos. A esta hora, eu já estava completamente nambiquara e não me irritaria nem com Lévi-Strauss. Assim, com a leveza de um Barishnikov, eu e mais 1.100 pessoas deitamos na grama molhada e tiramos mais fotos. Graças às formigas, me senti numa espécie de sessão de acupuntura. Nada mais relaxante após uma semana de trabalho.
O dedo de IbrahimTentei relaxar e olhar em volta. E eis que faço a descoberta da minha vida: Ibrahim Nobre. Sim: o tribuno – o povo paulista (1932/1972). É uma estátua que sempre esteve ali, no Ibirapuera, e eu nunca havia notado. Ela tem um espectral dedo em riste apontado para cima. E demora alguns minutos até percebermos que o tal dedo é o indicador e não o médio. Quem olha de longe há sempre de imaginar a ofensa heróica e retumbante que o povo paulista lhe dirige, por meio do seu representante Ibrahim. Puro terrorismo poético.
Corrida de cavalos
8h20. Novamente as palmas. Nossa ‘experiência artística’ havia terminado. Passamos a algo mais seminal: correr até os nossos pertences, nos vestir e torcer para que não tivessem nos roubado nada. Afinal, quem pode confiar em sujeitos que se dispõem a tirar a roupa na frente de mais de mil desconhecidos?
Fim de feira
Reabilitado e reintegrado à sociedade, fui conferir onde estava Tunico. Não havia como se aproximar do fotógrafo. Estava cercado de jornalistas, de curiosos e do público, que se inscrevia para mais fotos. Eis um artista que se comunica com as massas. Haveria uma coletiva logo em seguida, mas resolvi ir embora. Precisava dormir e limpar a grama que… Esqueça. O importante é que Spencer Tunick havia inserido um pouco de emoção na vida daqueles bancários, secretárias e professores. Foi aí que uma frase de Nietzsche me veio, obsessiva, à mente: ‘Se ainda há prazer com a sociedade e com as artes, é o prazer que arranjam para si os escravos exaustos de trabalho. Maldita grama.’
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