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NO FÓRUM SÓ ALGEMADO

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Terça-feira passada fui ao Fórum na Praça João Mendes. Desde 83 quando terminei a faculdade de Direito, conto nos dedos as vezes em que passei por aquele edifício.
É que me parece claro (não é preciso ser sensitivo para perceber) que este é um dos poucos lugares da cidade onde 90% das pessoas vão ou permanecem contra a vontade. Claro que alguns eminentes magistrados, membros do ministério público, causídicos e até escreventes podem me contestar, garantido que exercem com prazer a honrosa função de guarda do estado de direito.
Nenhum argumento, por mais defensável que seja, é mais forte que as centenas de olhares tristes, sem brilho, que caminham pelos corredores circulares do prédio. Burocracia, lentidão, desencontros, separações, litígios, indenizações, inventários, espólios, despejos. Esta é a matéria prima que alimenta o dia-a-dia dos milhares de cidadãos que esfregam as solas dos sapatos na superfície de granito liso do piso. Computadores ainda disputam espaço com máquinas de escrever e, principalmente, com pilhas de pastas de papel costuradas com barbante. A antítese do moderno. O horror de Bill Gates.
Um ou outro vaso com folhagens ou samambaias tentam quebrar o clima de ‘no future’ do ambiente. Só o que conseguem é reverter à imagem do presídio onde detentos pintam janelas com pôr do sol e montanhas nas paredes das celas, ou cultivam batatas em copos d’água para ver crescer as folhagens e manter um fio de ligação com a vida.
Nos elevadores, porém, assim como nas salas de audiência, ouve-se um discurso empolgado, onde cada penca de palavras difíceis parece valer um ponto. Já que não somos felizes, que sejamos ao menos confundidos com Rui Barbosa ou, na pior das hipóteses, com Gofredo da Silva Telles. É o chamado arrazoado forense, o discurso data venia que contamina a parte rica do Brasil.
Vossa Excelência é ladrão, disse o deputado ao cidadão supostamente envolvido com bingos e contravenções diversas. Essas formas mais nítidas de hipocrisia disfarçada só não são piores e mais cruéis que a das autoridades em ciências médicas. O doente que aguarda em desespero silencioso o veredito do especialista e ouve frases como: ‘Seu caso não é crítico mas não é dos mais fáceis’, ou ‘o paciente apresenta quadro que inspira cuidados’.
Nossa formação católica apostólica romana deve ter culpa neste cartório. Não e raro encontrar pessoas que, por força da profissão ou do estilo de vida, interagem com frequência com americanos e outros povos saxões. O estilo direto do discurso sempre choca nossos conterrâneos.
Por mais questionáveis que possam ser seus valores, é muito difícil negar que os americanos, em geral, expressam-se bem. De maneira muito linear e direta. Quase sempre com clareza e sem floreios.
O próprio idioma, mais simples, facilita a tarefa. Nem todos os bons pensadores expressam-se bem, mas quase sempre quem fala claro pensa claro. Quem ordena bem as palavras, tem as idéias ordenadas.
O que incomoda não é a erudição ou o falar difícil. A hipocrisia que vive encrustrada em suas frestas é que faz o mundo um pouco menos interessante.

PALAVRAS-CHAVE
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