por Milly Lacombe

Ou sobre o gesto oposto de oferecer ração a moradores de rua

Numa sociedade que nos define pelo poder de compra, e que, movida pelo lucro, estimula o individualismo, privilégio é uma coisa complicada, porque ele tende a fazer com que acreditemos que os sucessos que obtemos na vida são frutos de nossos esforços e de nossos méritos. Esse mesmo arranjo social nos conduz a acreditar que aqueles e aquelas que fracassam não têm talento necessário para chegar lá, e que nós, os privilegiados, não temos nada a ver com isso.

Pensar assim é apenas mais uma ilusão, entre as muitas que experimentamos, porque nossos sucessos e nossas conquistas são o resultado acumulado do meio em que nascemos, do acesso que tivemos à educação e a heranças, e das oportunidades de trabalho que surgiram justamente dessas vantagens. Aqueles que vivem uma vida miserável não escolheram viver assim porque, naturalmente, ninguém escolhe uma vida miserável, muito menos morar nas ruas. São apenas vítimas de um sistema cruel, materialista e desumano.

Mas essas são verdades que não nos visitam automaticamente quando estamos rompendo de um lado para o outro e temos que passar sobre o corpo caído na esquina, ou, cheios e cheias de medo, evitar o pedinte parado na calçada vestindo um farrapo e cheirando um cheiro que não associamos a humanos. Nessa hora apenas olhamos para o outro lado, evitamos pensar ou sentir, até porque as contas não vão se pagar sozinhas e é preciso ter pressa. Só que não dá mais para que seja assim porque o sistema está ruindo de dentro para fora.

No Rio de Janeiro, a população de rua triplicou nos últimos três anos. São agora quase 15 mil moradores de rua, e os abrigos não comportam sequer 20% desse número. Para entender que não se trata de um fenômeno nacional, mas sim da falência de um sistema econômico, em Nova York a população de rua era de 31 mil pessoas quando Michael Bloomberg, o empresário-prefeito a quem João Doria adora se comparar, assumiu o comando da cidade em 2002. Quando ele saiu, em 2014, deixou Nova York com 51 mil sem-teto; e hoje esse número bateu os 60 mil.

Mas nem precisaríamos de estatísticas para perceber todas essas coisas: basta andar pela cidade, ou por qualquer metrópole do Brasil (e do mundo) para notar como a população obrigada a viver sem um teto cresceu.

Há, entretanto, heróis anônimos entre a gente, pessoas que vencem medos e preconceitos para tentar mudar a realidade ao redor. O chef David Hertz é uma dessas pessoas, e foi ele quem me presenteou com uma das noites mais significativas da minha vida, uma na qual trabalhei como garçonete, servindo um jantar sofisticado a 92 moradores de rua na Lapa, Rio de Janeiro.

David tem uma cozinha experimental no centro do bairro dentro da qual treina chefs, alunos vindos das comunidades cariocas. Mas à noite o espaço de David ganha novo ritmo funcionando como restaurante para sem-tetos.

Só que não um restaurante qualquer. Trata-se de um restaurante que serve jantar estrelado a moradores de rua, e um ambiente pensado e idealizado por Vik Muniz. Todas as noites, de segunda a sexta, são oferecidos três pratos: entrada, prato principal e sobremesa, sempre preparados pelos alunos e residentes do projeto de David, o Gastromotiva.

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As refeições são preparadas com ingredientes doados por diversos parceiros e fornecedores (frutas, legumes e vegetais que não foram comprados nas prateleiras dos supermercados e carnes e enlatados que estejam perto da data de expirar), e transformados em pratos que você e eu comeríamos com prazer, e pelos quais pagaríamos caro em restaurantes estrelados do Brasil e do mundo.

Fui voluntária para servir um desses jantares aos moradores de rua.

Eram seis e meia de uma terça-feira de setembro quando as portas do refeitório foram abertas e os sem-teto começaram a entrar. David tinha explicado que seria importante que os recebêssemos na porta para que eles se sentissem acolhidos logo de cara. Disse ter aprendido na Índia que receber um convidado ou uma convidada em sua casa é permitir que o divino em você entre em contato com o divino nele ou nela. Na hora me lembrei de um ditado hebraico: “Nunca deixe de acolher estranhos porque ao fazer isso muitos já entretiveram anjos sem sequer saber”.

Éramos sete voluntários para servir 92 pessoas, todos apreensivos com o que aconteceria, mas em poucos minutos em descobriria que nada poderia ter me preparado para o que viria.

Ao receber na porta uma senhora que devia ter uns 70 anos e andava com dificuldade comecei a chorar. Seria ridículo servir o jantar aos prantos, e tentar justificar dizendo a eles que sou canceriana não os comoveria, imaginei. Então engoli o choro, tossi um pouco, e conduzi a senhora ao seu lugar. Ela me olhou profundamente e, sorrindo, agradeceu o agradecimento mais sincero que já recebi.

Foi quando entendi plenamente a grandeza do que acontecia ali: estava servindo as pessoas cujos corpos eu pulo pelas calçadas da vida. Estava olhando em seus olhos, dando a mão a eles e a elas, oferecendo pratos de comida quente preparada com amor. E o tímido “obrigado” que cada um deles me dizia me fazia entender o tamanho que aquela noite teria em minha vida. Não é um desafio reconhecer a divindade naqueles que amamos, o difícil é enxergar o divino em estranhos, especialmente quando somos ensinados a temê-los.

David pediu que nunca deixássemos os copos dos convidados e das convidadas vazios, e enquanto eles e elas mastigavam eu ia passando com uma jarra d’água para encher cada copo. Todas as vezes eu recebia um agradecimento, um sorriso, um aperto de mão ou tudo isso junto. E todas as vezes eu tinha vontade de chorar de emoção e de amor.

Fragmentos de diálogos eu ia pegando enquanto passava. “Não coloca mais sal não, amigo. Sal faz mal. Aumenta o colesterol”, um dizia ao outro. “Esse bolinho tá ótimo”, disse um rapaz de cabelo raspado ao colega ao lado. “Não é bolinho isso, merrmão. Isso chama petit gateau, se liga.”

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O ato de servir, de se fazer disponível a outro ser humano, é extremamente poderoso. Sabemos disso porque servimos aqueles que amamos de diferentes formas, mas raramente servimos estranhos, muito menos sem ser por dinheiro, e muitíssimo menos estranhos que moram nas ruas.

O fato de estarem sendo alimentados com um jantar estrelado estava enchendo aqueles homens e mulheres de dignidade. Eles não estavam ali se alimentando de restos, ou de um bandejão, ou de caldos sem gosto, ou de “produto granulado” ou de ração criada por prefeito marqueteiro. Eles estavam sendo servidos da comida que um restaurante fino serviria, em um ambiente sofisticado, claro, limpo e dentro do qual eles têm livre acesso aos banheiros. E o gesto empresta a eles e elas humanidade, decência, amor.

Ao final, David agradece a presença deles e delas “em sua casa”, diz que eles são bem-vindos e bem-vindas, que foi um prazer servi-los e servil-as. E eles e elas, emocionados, aplaudem.

É de fato impossível não chorar, e eu fiz o melhor que pude, guardando todas as lágrimas para o momento em que, sozinha, me deitei na cama quente e limpa do hotel lembrando que naquela mesma hora as pessoas para as quais servi o jantar estavam andando pela cidade à procura de uma ponte sobre a qual pudessem pernoitar.

No dia 24 de novembro David Hertz estará no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, para receber um Trip Transformadores. Na plateia, provavelmente chorando, vou levantar e aplaudir, agradecendo telepaticamente a ele por ter me presenteado com uma das noites mais bonitas da minha vida.

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Créditos

Imagem principal: Gabo Morales / TRËMA

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