Logo Trip

Ninguém é perfeito

Em tempo real

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

As muitas mensagens que recebi por conta da coluna de terça passada dão a dimensão de como palpita o assunto Silvio Santos e de toda a chacoalhada, para o mal e para o bem, que tem conseguido produzir no cenário mediático da nossa terra.

Sim, porque, apesar de tudo o que procurei expor na semana passada, como em qualquer assunto sobre o qual se arrisque uma análise, é possível ver mais de um lado.

Na minha opinião, há uma contribuição especial, ainda que involuntária, dada por Abravanel ao conjunto de produtos de que dispomos na mídia. De forma intuitiva e graças ao seu histórico de camelô e vendedor, de seus tempos de locutor da balsa Rio-Niterói e, principalmente, de algumas décadas em programas de auditório transmitidos ao vivo pela TV, S.S., sem saber, estava treinando de forma intensiva para a chegada da era da informação.

Como dizem os teóricos e pensadores da comunicação, o fenômeno mais importante — produto da explosão de tecnologia a que estamos expostos nos últimos anos — é o tempo real.

As novas máquinas e computadores nos meteram na era da informação, uma época em que não há mais tempo para gravar em videotape, limpar, refazer, editar, jogar efeitos especiais… fazer pesquisas qualitativas e quantitativas. Enquanto isso, nosso interlocutor já foi embora… Está brincando de outra coisa. Acessou um site mais rápido, foi para os canais a cabo, emitir mensagens pelo celular, pegou um avião da Gol para Floripa por 99 reais…

A Globo, por sua vez, não se preparou para isso. Estava investindo em estúdios fantásticos no meio da mata atlântica, de onde imaginava produzir programas planejados, retocados, dirigidos e redirigidos, com cenários que reproduziriam maremotos e fantasia, que levariam os espectadores para viagens inebriantes que lhe garantiriam as audiências eternamente gordas.

VAI ASSIM MESMO

Enquanto isso, S.S. viajava a Miami, corria feiras de entretenimento, copiava, em videocassetes de hotéis, fórmulas toscas que lhe pareciam viáveis, voltava para a Vila Guilherme, alugava sofás da Tok & Stok, ligava as câmeras e punha no ar, do jeito que desse…

Talvez tenha comprado na livraria de um dos aeroportos de Miami, o livro em que Bill Gates explicava ao mundo que, na era da informação, não era possível aperfeiçoar os softwares da Microsoft até a exaustão, como se fazia antes. Agora, era preciso lançar no mercado os programas nas versões beta, antes destinadas aos testes por especialistas que, só depois de avaliar cada milímetro, davam seu OK. para o lançamento em larga escala. Agora, disse Gates, o mundo seria beta. Como os homens e a civilização, os produtos e máquinas teriam que nascer conscientes de sua condição imperfeita. Sabedores de que é tudo um processo evolutivo. E que nunca termina. Nunca fica pronto.

Enquanto a Globo preparava cenários, selecionava entre milhares de candidatos a celebridades perfeitas, treinava técnicos, produzia figurinos, penteava cabelos e preparava esquemas milionários de edição de dezenas de câmeras em segundos, S.S. alugou a casa do vizinho, chamou gente que estava no mercado dando sopa, figurinhas manjadas do segundo escalão artístico nacional (há um primeiro?), meteu meia dúzia de câmeras atrás dos espelhos de cada cômodo e parou o país para torcer por Bárbara Paz e Supla, uma versão canhestra e do avesso da dama e o vagabundo.

Mais do que tudo, de novo sem saber e, pior, sem querer, Santos, prestou um bom serviço à comunidade com sua concessão federal. Mostrou que, por mais que agentes, assessores, promoters e que tais se esmerem, atrás de Tiazinhas, Feiticeiras, Núbias, Frotas, Xis e Nanas, há gente. Acordando descabelada e inchada, falando besteira, chorando à toa, cheias de inseguranças, morrendo de medo e de tesão por estar vivo.

Quantas meninas cegas de admiração pela perfeição das formas da Feiticeira não depararam com a realidade através desse programa? Quantos candidatos a Ba boa não repensaram suas opções? Interessante observar que os vencedores escolhidos pelo público são os que melhor conseguiram domar seus instintos animais e que deixaram vir à tona suas fragilidades, resistindo menos a elas.

MOVIMENTO DOS SEM-BAFO

Enquanto isso, a Globo insiste em fabricar clones, gente de plástico que não tem bafo, não se despenteia, para quem o mundo é uma eterna matéria de Caras. Joga (e perde aos poucos) todas as suas fichas no mundo da fantasia, em que todos os casais seriam William Bonner & Fátima Bernardes, num cenário de propaganda de Margarina, alimentando trigêmeos sorridentes e rosados. Seus poucos especialistas em tempo real, como Faustão, lentamente são apagados e transformados em repetidores de bordões e criaturas infelizes com o que fazem.

Quem sabe alguém lhes transmite um e-mail com a crise de risos que acometeu Lilian Wittefibe recém-liberta da fábrica, durante uma transmissão do noticiário que apresenta na internet. Quem viu teve uma experiência inesquecível sobre o que é a era do tempo real. A mesma, diga-se, que não permite mais à Enron ou a Maluf que escondam suas mazelas por muito tempo como podiam fazer antes.

Para quem sentir, no artigo acima, uma homenagem, ainda que remota, ao uso que Silvio Santos faz de sua concessão federal, peço que leia a coluna da semana passada. Uma não existe sem a outra.

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

LEIA TAMBÉM