por Lia Hama
Trip #228

Num período em que ’gente de cor’ era barrada nas piscinas e nos bailes do país, um grupo funda o Aristocrata Clube

Quinta-feira à noite. Na sala de um edifício comercial do bairro da Liberdade, região central de São Paulo, um grupo de amigos se reúne em torno de uma mesa com salgadinhos e refrigerantes. Na pauta do encontro, o resgate das memórias de uma época gloriosa, que há muito tempo ficou para trás. São os remanescentes do Aristocrata, um clube fundado nos anos 60 pela elite negra paulistana. No seu auge, na década de 70, a associação contava com 3.600 sócios e tinha sede na capital e um clube de campo na zona sul da cidade. Suas festas e bailes de gala atraíam até 5 mil pessoas, incluindo artistas como Cartola e Wilson Simonal, políticos como Jânio Quadros e celebridades gringas como Sarah Vaughan e Muhammad Ali. “Este é o mais luxuoso clube negro do Brasil”, estampava a revista Manchete na época. Mais de meio século depois, no entanto, restam apenas 12 membros do conselho do clube, que sonham com a volta dos velhos tempos.

Fundado em 1961, num período em que negros eram barrados nas piscinas e nos bailes de clubes como Tietê, Espéria e Pinheiros, o Aristocrata é um marco na história da sociedade brasileira. “Naquele tempo, nós só podíamos ir a esses locais de brancos para jogar futebol. Não podíamos fazer parte dos quadros associativos. Pela lei, não podia haver discriminação, mas sempre inventavam alguma desculpa. Chegaram a alegar que o cloro usado na piscina fazia mal à pele negra. Por isso, nós decidimos fundar o nosso próprio clube”, contou à Trip Luiz Carlos dos Santos, 77 anos, atual presidente da executiva do Aristocrata. Alguns brancos frequentavam o lugar, apesar de o público ser predominantemente negro. “Havia três brancos entre os 50 fundadores. Eram descendentes de árabes, também vítimas de preconceito”, diz Luiz.

Diferentemente de outras associações negras que existiam no país, o Aristocrata foi fundado por uma classe média ascendente. O nome pomposo – Aristocrata – foi escolhido como uma referência a essa situação de elite. “Não eram sambistas. Tinha advogados, professores, enfermeiros, médicos. Era a elite entre os negros”, explica o ativista Genésio de Arruda no documentário Aristocrata Clube (2004), um dos raros registros sobre essa instituição pouco conhecida até hoje. “O Aristocrata surgiu para ser um lugar de lazer e, ao mesmo tempo, um fórum de debate, assim como ocorre no clube Sírio-Libanês ou no A Hebraica”, conta no filme o ex-deputado federal Adalberto Camargo, já falecido. “Toda essa história ficou perdida no tempo. Nossa ideia foi resgatar a memória afetiva dessas pessoas”, explica Jasmin Pinho, diretora do documentário, que traz relatos de três gerações do clube.

COISA DE AMERICANO

Não são poucas as histórias a serem resgatadas da memória do Aristocrata. “Quem me levou ali pela primeira vez foi o meu ídolo Agostinho dos Santos, cantor muito famoso na época. Chamou minha atenção o fato de só tocarem Frank Sinatra. Aí eu falei: ‘Pô, Agostinho, não vão tocar o seu disco? Até parece que a gente está nos Estados Unidos!’”, conta o cantor Jair Rodrigues, que também jogava pelada no clube de campo do Aristocrata, na estrada do Bororé, no bairro do Grajaú. O terreno de 60 mil metros quadrados foi comprado em 24 parcelas pelos associados, que construíram piscinas e quadras de futebol, vôlei e basquete. Além dos jogos, o local sediava churrascos, festas da cerveja e desfiles de biquíni.

Os bailes aconteciam na sede do Aristocrata, no número 118 da rua Álvaro de Carvalho, no centro de São Paulo, ou em salões alugados do Club Homs ou do Rotary. Recém-chegado de Minas Gerais, Milton Nascimento, um cantor então desconhecido, ficou impressionado com a elegância daqueles “pretos, todos bem-vestidos” (veja depoimento na página 85). Conta-se que até os garotos do Jackson 5 foram a uma reunião.

“Eu era muito nova, mas me lembro deles na casa do Raul dos Santos, presidente do clube na época. A gente ia lá aos domingos”, diz a produtora Haydee Alexandre.

ORGULHO NEGRO

Quando vinham ao Brasil, celebridades negras internacionais, como Johnny Mathis e Josephine Baker, eram levadas ao Aristocrata por Agostinho dos Santos. Quem servia de intérprete era o fotógrafo Paulo Roberto, mais conhecido como Paulo Inglês, um dos poucos a dominar o idioma estrangeiro. Às vezes, os convidados esticavam a noite em boates, caso do lendário campeão de boxe Muhammad Ali. “Eu o levei para o La Licorne, uma espécie de Café Photo da época. Imediatamente formou-se uma roda de damas da noite em volta dele”, conta, dando risadas, o fotógrafo de 74 anos.

O Aristocrata ajudou a construir o orgulho negro dentro da comunidade. “O histórico que a gente tinha é do lado pejorativo do negro – do sem formação, sem cultura. Os nossos pais nos deram a chave, abriram a porta para que nós chegássemos ao mundo lá fora com muita dignidade”, diz, no documentário sobre o clube, Haydee Alexandre, 56 anos, que é filha de Alexandre dos Santos, um dos fundadores. “O Aristocrata moldou a minha personalidade, sem vergonha de entrar em um lugar, sem medo de ser barrada ou não saber me portar. Tudo isso eu aprendi lá”, acrescenta Haydee, que debutou num baile do clube aos 15 anos. 

“LEVEI MUHAMMAD ALI AO LA LICORNE. FORMOU-SE UMA RODA DE DAMAS DA NOITE EM VOLTA DELE”

A decadência ocorreu a partir dos anos 90, quando outras associações esportivas também fecharam. “As pessoas começaram a ter casa de praia ou sítio. Os sócios deixaram de pagar mensalidade e aumentou a inadimplência”, explica Paulo Correa, 60 anos, tesoureiro do Aristocrata.

O desinteresse da segunda geração também contribuiu para o esvaziamento. “As novas gerações tinham outros espaços de lazer. Elas não passaram pelas dificuldades que nós passamos, não sentiam a necessidade de ter um espaço próprio”, conta o septuagenário Luiz Carlos. Com as dificuldades financeiras, a sede no centro foi fechada há três anos. Já o clube de campo no Grajaú foi desapropriado pela prefeitura. Parte do terreno foi invadida e hoje abriga uma favela.

A sala alugada no bairro da Liberdade é o endereço provisório do Aristocrata, onde às quintas-feiras se reúnem os 12 conselheiros. Com o dinheiro da desapropriação, eles pretendem se mudar em breve. “Nossa meta é comprar uma nova sede e abrir o clube para mais sócios – negros, brancos, de qualquer cor. Queremos retomar as feijoadas aos sábados e os antigos bailes com traje social completo”, diz o professor universitário aposentado Valdemar Venâncio, 75 anos, presidente do conselho. Enquanto os novos tempos não chegam, o grupo se diverte, lembrando da época áurea de um lugar que foi tão importante em suas vidas. 

O CANTOR MILTON NASCIMENTO, 71 ANOS, FALOU À TRIP

SOBRE A ÉPOCA EM QUE FREQUENTOU O CLUBE EM SÃO PAULO

“ARISTOCRATA ERA UM FOCO DE RESISTÊNCIA”

Cheguei a São Paulo em 1966 para participar de um festival da TV Excelsior, em que defendi “Cidade vazia”, música de Baden Powell e Lula Freire. Decidi ficar na cidade e passei por pensões na região da Boca do Lixo. Foi uma das temporadas mais difíceis da minha carreira, pois, para cada vaga de músico nos bares, existiam 50 músicos que se candidatavam. Foi tanto sofrimento que digo que passei 20 anos em dois. Cheguei a ficar uma semana sem comer. Foi nesse cenário que encontrei Agostinho dos Santos, um dos cantores mais famosos do Brasil na época. Eu estava tocando num bar quando ele disse: “Bicho, quem é você?”. Falei meu nome e ele começou a me levar aos lugares. Um desses ficou marcado pra sempre na minha lembrança: o Aristocrata Clube.

Naquele tempo, os pretos jamais poderiam frequentar um clube com áreas de lazer e sofisticados bailes. Eu mesmo, na minha cidade, Três Pontas [MG], só fui entrar no principal clube após minha consagração com “Travessia”, em 1967. Por isso o meu espanto quando Agostinho me levou ao Aristocrata. Quando vi aqueles pretos bem-vestidos – as mulheres, lindas, de longo e os homens de passeio completo –, quase não acreditei. Era um foco de resistência de um jeito que eu jamais tinha imaginado. Já que não era permitido aos pretos o direito de frequentar os clubes da elite branca – a não ser como garçom e faxineiro –, agora tínhamos nosso próprio espaço.

Imagine 2 mil convidados, quase todos pretos, num baile de gala numa região bem localizada de São Paulo. Tenho certeza de que a classe dominante deve ter feito planos para acabar com o Aristocrata, mas eles não contavam que parte dos frequentadores era preta de alta posição social. Foi a nossa revanche. Quando se falava de um clube só de pretos, os preconceituosos pensavam: “Só deve ter cachaça, gente feia e mal-educada”. Era o contrário: pessoas muito bem-educadas, bem-vestidas, de refinamento musical. Poucos lugares tiveram nível cultural tão elevado. O Aristocrata foi importantíssimo num momento difícil da nossa história, quando enfrentávamos uma segregação terrível por parte da elite e, para completar, tínhamos que enfrentar opressão severa por parte da ditadura. É um lugar que deixou saudades.

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