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NADA BEM!

O inferno das paixões e seus efeitos sobre os homens

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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O dia da eleição foi um dia bonito. Mas, como previa uma obrigação em algum ponto entre a manhã e o fim de tarde, inibiu planos maiores. Optei por passar os olhos pelo livro PANCRÁC, do brasileiro João Batista Gelpi, que narra seus anos numa prisão checa por conta de um suicídio/homicídio protagonizado por ele e pela namorada. Gelpi, então com 54 anos, saiu direto para o hospital e dali para a cadeia, e Lenka, a namorada de 18 anos, para o cemitério. Depois de folhear o livro superficialmente, mergulhei nas perguntas e respostas de uma entrevista, ainda inédita, feita com ele.

Aparentemente, seis anos e meio depois do episódio, o homem ainda lida com dificuldade com as tentativas de separar felicidade e euforia da depressão, amor de paixão, vida de morte. Pelo que deixa transparecer, este casal – formado através de um anúncio de jornal classificado, no qual Gelpi convidava alguém a entrar em sua vida de caos e loucura – rapidamente viu-se na área cinzenta eqüidistante do paraíso e do inferno na qual muitos relacionamentos insistem em ir parar. Para felicidade da raça humana, a maioria se resolve (ou se dissolve) de forma menos violenta.

No mesmo domingo, já noite, enquanto Alckmin ainda nutria alguma esperança, encontrei na fila do teatro, emblematicamente aguardando para assistir a uma peça de Nelson Rodrigues (especialista no inferno das relações humanas), um sujeito que não via há muito tempo.

Como costumamos fazer quando mergulhados nas trevas das paixões mal acabadas, o fulano sequer levou em conta a quase década que separava este do nosso encontro anterior, e, como se ainda gozássemos de intimidade, pôs-se a falar de seus desgostos.

Deu graças a Deus de me encontrar. Disse que, nessas horas, qualquer minuto a mais na armadilha dos próprios pensamentos dói fundo naquele ponto entre o peito e a barriga. Chegou a comentar que tinha passado a tarde inteira andando de carro a cerca de 30 km/h, tentando adiar a inevitável parada para abastecer. Disse que, da última vez em que precisou fazê-lo, sentiu ímpetos de beber a gasolina direto do bico da bomba e depois engolir um palito de fósforo aceso. Falou que andava daquele jeito já havia exatos 60 dias. Não agüentava mais remoer cada passo dado e cada movimento não feito nas intermináveis estratégias mentais que desenvolvia no sentido de reconquistar a tal fulana, que, segundo consta, trocou-o por alguém mais decidido, que queria casar e ter filhos imediatamente. O sujeito me disse que agora também queria. Já tinha até os nomes das crianças, mas ela disse desdenhando:

‘Agora é tarde demais. Demorou!’

Fiquei ainda mais penalizado, quando, à saída do teatro, meio envergonhado, o cara se aproximou novamente e absolutamente sem jeito, pediu um favor:

‘Você iria comigo até a porta da minha casa? Tem sido muito difícil fazer sozinho o trajeto que costumava fazer com ela.’

Considerando que havia ido ao teatro de táxi, que o sujeito morava perto de minha casa e, principalmente, a necessidade de contrariar a frase de Otto Lara Resende repetida à exaustão na peça de Nelson Rodrigues – ‘O mineiro só é solidário no câncer’ – resolvi, mesmo sendo paulista, acompanhar aquela alteração química e hormonal ambulante até seu criado-mudo cheio de Lexotan.

Enquanto o fulano, em transe, contava o último telefonema trocado com a amada, pensava com meus botões que o tempo se encarregaria de dar um jeito na situação e que ele, em breve, estaria recomposto e rindo daquela situação ridícula. Só uma coisa me fez temer que se tratasse de algo mais sério e merecedor de cuidados profissionais. Antes de me deixar no ponto de táxi ao lado de sua casa, destravando a porta e despedindo-se, o fulano disparou:

‘Aceitaria qualquer coisa para ter minha mulher de volta: até mais quatro anos de Maluf ou oito de Luxemburgo!’

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