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Nada a declarar

Henrique Goldman sofre com bloqueio de escritor e divaga sobre o mundo, sabedoria e gurus

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Por Henrique Goldman Trip #190

em 8 de julho de 2010

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Desesperado, vasculho minha cabeça procurando uma boa ideia. Hoje é o prazo final para a entrega desta coluna e estou sofrendo de um agudo writer’s block. No Wikipedia, eles definem este vazio criativo assim: “Condição na qual um autor perde a habilidade de produzir um novo trabalho”.

A definição não me ajuda em nada. Para a neurologista Alice W. Flaherty, do Massachusetts Institute of Technology, a criatividade literária é função de áreas específicas do cérebro – como o córtex e o sistema límbico – e o bloqueio pode ser resultado de uma disfunção nessas áreas. Meu caso parece terminal. Talvez seja um tumor! Conto com a compaixão do leitor.

Não tenho absolutamente nada de novo a dizer sobre o Brasil gigante que emerge como potência econômica. Nem sobre a recessão da Europa, que afunda num mar de lama. Deveria, mas não consigo articular nada de importante a respeito do bloqueio naval que Israel impõe a Gaza. Como é época de Copa do Mundo, pensei em provocar, dizendo que o Brasil só será uma verdadeira democracia no dia em que couber a nós, cidadãos, eleger os jogadores e o técnico da seleção. Mas, mesmo que fosse boa, a piada não valeria uma página inteira de texto. Hoje saiu na Folha de S.Paulo, no Guardian, no La Repubblica, no Clarín e no Libération – saiu no mundo inteiro! – que o Steve Jobs está anunciando o novo iPhone G4. So fucking what?!!!

A sabedoria dos cachorros

Semana passada me apaixonei pela lua Europa, que gravita em torno de Júpiter. Ela é coberta por uma grossa camada de gelo sob o qual se esconde um oceano de 100 quilômetros de profundidade. Dizem que é provável que lá exista vida. Pensar nesse profundo oceano vagando no céu me emociona. É a mesma emoção que sinto ao ver o rosto sonolento do meu filhinho acordando. Sentimento grande que, em vez de inspirar, me cala para sempre. Hoje tenho mais vontade de latir do que de falar. Para Franz Kafka, no cachorro está contida toda a sabedoria da humanidade, todas as perguntas e as respostas.

Pensando no tema da revista deste mês – os gurus e a espiritualidade -, lembrei que há cinco anos estava em Kankhal, na Índia, quando tive a honra de ser recebido pelo Babaji, um guru muito sábio e respeitado. Mas, em vez de fazer questionamentos espirituais, fui logo reclamando a respeito das dificuldades em financiar filmes e entrei numa neura sem fim a respeito de orçamentos, coproduções e elenco. O Babaji olhou para mim (não sei se com pena ou com vontade de que eu me calasse) e me deu uma nota de dez rúpias, o equivalente a 40 centavos. Ele disse que esse dinheiro me ajudaria. Por inércia ou fé mal resolvida, até hoje a nota está na minha carteira.

E paro finalmente de me deplorar. Encontro paz pensando nas sábias palavras do filósofo romeno Emil Cioran: “Nada nos prova que somos mais do que nada e, pelo que tudo indica, estamos no mundo para não fazer nada”.

HENRIQUE GOLDMAN, 47, cineasta paulistano radicado em Londres, é diretor do filme Jean Charles. Seu e-mail é hgoldman@trip.com.br

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