Fernando Grostein conta como foi acompanhar o ex-presidente em presídios, cafés e favelas

O diretor Fernando Grostein Andrade conta a experiência de acompanhar o ex-presidente a favelas do Rio, cafés de Amsterdã e presídios de Lisboa para realizar um documentário que questiona a lógica da guerra às drogas

Sempre tive medo de envelhecer. Agora, quase aos 30 anos, a juventude parece uma condição superada e a perspectiva da terceira idade já não é tão intangível como sempre foi – por mais ridículo que isso possa parecer a você. Pois bem, a experiência que estou vivendo mudou isso. Vamos ao começo.

Há quase oito anos, a pedido da Flora e do Gilberto Gil, fui filmar um videoclipe de um grupo de pagode na favela da Rocinha. A ideia parecia um tanto assustadora, por motivos óbvios, mas foi transformadora. Muitos dos jovens, da minha idade na época, carregavam armas de guerra. Mas o preconceito acabou se desfazendo diante das dificuldades de vida daqueles meninos. Se por um lado as condições de miséria fazem a gente entender o engajamento desses jovens no tráfico, usar isso como justificativa é um desrespeito à imensa maioria dos moradores de comunidades carentes que não entrou nessa. Mas o ponto fundamental é a pergunta que uma viagem que fiz depois a Amsterdã levantou. Por que em um canto do mundo alguns vendem maconha cercados de AK-47 sujos de sangue e em outros isso acontece como se fosse num boteco?

Sei que essa pergunta simplifica além da conta e reduz um problema maior apenas à cannabis, mas sempre que contava para alguém a ideia de fazer disso um filme a resposta era de desprezo e suspeita.

Quase oito anos depois, assistindo ao Jornal Nacional enquanto comia macarrão, vejo a notícia de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criou uma comissão com políticos e notáveis que defendia paz em vez de guerra contras as drogas, além da descriminalização da maconha. Aí veio o estalo que emperrava a velha ideia.

Para provocar um pouco de reflexão honesta e sem preconceitos sobre o tema, era necessário credibilidade. Era preciso alguém para quem as pessoas estivessem dispostas a dar a mão antes de entrar na floresta escura que é o mundo das drogas. Era ele quem precisava guiar o espectador nessa jornada. A mim, cabia planejar e filmar esse caminho. Depois de meses consegui marcar uma reunião com FHC para lançar a ideia. Fiz uma lista de 30 argumentos para convencê-lo a fazer o filme. No primeiro, ele já topou.

BAZUCA PRESIDENCIAL
Semanas depois, tive outro insight. O tipo de conhecimento que FHC tinha era de outra ordem, de outra época, de outra natureza. Eu vi, por exemplo, que o ex-presidente não sabia o que era “dixavar”, “larica” ou coisas que são mais do que óbvias aos mais jovens ou iniciados.

Foi aí que decidi convidar Fernando Henrique para uma jornada de gerações por ruas, guetos e outros mundos estranhos a quem nasceu nos anos 30 e está acostumado a frequentar as rodas intelectuais. Mais uma vez fui surpreendido. Ele não se acuou, e começamos a viagem pelo mundo das detentas do Carandiru, das comunidades do Rio controladas ou influenciadas pelo tráfico, dos cafés de Amsterdã, dos presídios em Lisboa, das escolas em Washington. E das mães de traficantes e dependentes que perguntaram por que FHC estava se metendo nessa. Tudo misturado a uma agenda pesada de ex-presidente, com compromissos incrivelmente chatos. Diante das escadarias de um morro, no Rio, ele sacaneou: “Tá querendo testar a saúde do meu coração?”. O humor também aparecia em situações inusitadas, como quando fomos conhecer o depósito de armas da polícia civil do Rio. Entre as armas apreendidas com traficantes, uma bazuca. Ele apontou para mim e brincou: “Agora você me deixa em paz, um pouco?”.

O último golpe nos meus preconceitos veio quando lhe pedi um pouco mais de agressividade, em nome da clareza da comunicação. FHC me mostrou que eu estava incorrendo no mesmo erro que tinha me impedido de fazer esse filme em primeiro lugar. É preciso calma para vencer o medo que ronda esse assunto. Isso não se constrói batendo de frente, mas com diálogo, honestidade e humildade.

Um pouco de humildade também me fez falta para perceber que só o conhecimento da rua não é suficiente para provocar mudança. A verdadeira batalha não é com os políticos, mas sim com a opinião pública, com aqueles que votam neles para governar. E a luta mais difícil está em saber comunicar sem assustar. Aprendi que só o produto desses dois mundos vai fazer diferença em busca de uma nova solução de paz. É isso que estamos buscando no mergulho em 200 horas de filmagem e nos inúmeros reflexos dessas incontáveis realidades conectadas ao mundo das drogas.

Uma coisa já me traz conforto. O medo de envelhecer parece mais palatável depois de ver esse senhor que, aos quase 80 anos, parecia não ter mais nada para aprender topando aprender com quem aparentemente não tinha nada para lhe ensinar. Juventude me parece agora um conceito elástico.

* Fernando Grostein Andrade, 29, é cineasta, diretor do documentário Coração vagabundo e sócio da produtora Spray Filmes

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