por Arthur Veríssimo
Trip #169

Arthur Veríssimo desvenda todos os segredos da lenda do samba Benito Di Paula

O estacionamento está coalhado de carros importados: Subarus, Pajeros, FreeLanders e uma frota de Hilux prateada. Depois de algumas voltinhas conseguimos uma vaga para a nossa humilde carruagem. Uma mistura deliciosa de música latina, chorinho e piano reverbera pela noite. Estamos na porta de entrada da casa de espetáculos Barril 8.000, na longínqua avenida das Américas no 14.835, no Recreio dos Bandeirantes, bem longe da zona sul carioca. A música hipnotiza a audiência. Não existe mais nenhum lugar para sentar. As mesas estão lotadas e recheadas de porções de lingüiças, queijos, garrafas de whisky e vitaminados copos de chope.

A platéia é composta de pessoas de todas as faixas etárias e de bem com a vida. Alegria e nostalgia dominam o espetáculo. Quando o crooner engatou seu hino “Mulher brasileira” o megacoral do Barril entoou junto: “Agora chegou a vez vou cantar, mulher brasileira em primeiro lugar. Norte a sul do meu Brasil, caminha sambando, que não viu mulher de verdade, sim senhor, mulher brasileira é feita de amor”.

Estamos falando de Uday Veloso, opsss, desse jeito fica difícil, a personalidade é nada mais nada menos que Benito di Paula. Para quem não sabe, Benito, durante os anos 70 e 80, foi uma espécie de Zeca Pagodinho. Compôs centenas de músicas que se transformaram em sucessos nacionais e internacionais na sua voz e na de outras lendas como Roberto Carlos, Maria Bethânia, o guitarrista Charlie Byrd, Alcione, Orquestra de Paul Mauriat etc.

Teve 29 discos lançados no mercado nacional, 15 no Japão e 12 na Europa. Seu programa Brasil som 75, na TV Tupi, alcançou audiências monumentais. Benito sempre se apresentou com piano de cauda, e sua indumentária incluía smoking, casaca, bigodão, pulseiras, colares e anéis (continua o mesmo). Muitos o imitaram, mas era difícil ser original como ele. Foi cultuado, criticado, exorcizado e sofreu censura braba porque algumas de suas músicas incomodavam o regime militar. Foi rotulado de brega e cafona por críticos azedos devido ao sucesso da imortal “Charlie Brown”, em que cantava as maravilhas do Brasil. O que me surpreendeu foi ver a platéia no show do Barril 8.000 emitindo gêiseres de felicidade. Benito, com 67 anos, continua na ativa, cheio de energia e com a agenda lotada. Sua presença e carisma hipnotizaram o público por mais de duas horas e no fim do espetáculo ainda teve pique para conceder uma entrevista para Trip. Deus te abençoe, Uday.

 

 

 

 

Por que seus pais te batizaram com o nome indiano Uday?
Meu nome quer dizer “chefe da tribo”. Grande parte do meu sangue é cigano, entendeu? E você sabe que os nômades e ciganos vieram todos da Índia? O princípio dos nômades, dos ciganos, é a Índia.

O incrível é que você parece personagem dos filmes de Bollywood, galã de cinema indiano, com esse seu visual... você sabia disso?
O meu visual está mais pra Ravi Shankar do que pra outra coisa [risos]. Eu toquei pra ele.

Ahhhhhhh! Você tocou pro Ravi Shankar? Fala Sério.
Toquei em São Paulo, lá no Bexiga. Ele foi me ouvir e me deu a honra. É um cara sensacional, gosto muito dele, acima de tudo pela gentileza de terminar o espetáculo no Teatro Municipal e ele pedir pra ir lá me ver. Com o Stevie Wonder foi a mesma situação, ele foi lá ouvir minha música.

Na capa do seu terceiro LP, Um novo samba, você está no maior estilo cigano, com pulseiras, correntes, brinco e, na época, tava com aquele cabelón Luís XIV. De onde vem essa pegada? É negócio de cigano, né?
A gente gosta. Por que não se enfeitar pra vida, né? A vida merece que você se enfeite pra ela a toda hora, a todo minuto.

Uday, e o seu nome artístico, de onde surgiu?
O Benito surgiu porque... eu era radiotelegrafista. Papai é aposentado da Leopoldina, era ferroviário. Então ele achou por bem que eu fosse radiotelegrafista, sabe? Nessa época foi inaugurada em Friburgo uma boate dentro de um hotel, uma boate para os hóspedes, paulistas na maioria. O dono, que já faleceu, era um engenheiro português, dr. Alfredo Mota, de quem eu tenho ótimas recordações. Graças a ele eu conheci Caymmi, Jânio Quadros. Graças a ele eu conheci muita gente, porque o hotel dele era muito bem freqüentado, de maneira que ele achava que meu nome não era audível. Aí ele falou: “Você é um rapaz tão educado, tão elegante, você é sempre bem-vindo. Bem-vindo, bedito, benito, bonito...”. Aí pintou o Benito e eu falei... “bom, já que Benito é italiano então vamos botar o ‘di Paula’ logo” e fui pra São Paulo, olha só, cantar nas cantinas.

Os tempos passaram e o Benito di Paula continua na ativa, por onde você circula?
Viajo sempre, por todo o Brasil. O único lugar em que eu não estou, e o pessoal reclama, é na famosa mídia. Eu nunca estive na mídia, né? Sempre estive na música, mas na mídia não, nunca, nunca.

Por que não se enfeitar pra vida, né? A vida merece que você se enfeite pra ela a toda hora, a todo minuto

Como era o clima das boates na década de 60, quando você começou?
Era muito bom porque eu tocava com orquestra em Copacabana, apresentava os vencedores dos desfiles de fantasia.

As baladas eram movidas por quais substâncias? O que a galera usava: álcool, psicoativos, pó ou tudo incluído?
Aí eu não sei. Tem que perguntar pra cada um porque eu não tinha tempo para fazer nada [risos].

Como você lidava com o assédio e com o sucesso?
Quando eu cheguei ao sucesso, já tinha feito “Catedral do samba”, “Plac plac na paróquia”. Já tinha passado pelo Batuque Egeu, pela Igrejinha, casas montadas por mim e por uma equipe. Colocávamos o músico no palco para cantar e tocar.

Como é a vida e a rotina do sr. Uday atualmente?
Eu sou muito na minha. Apesar de ter uma família muito grande – tenho três filhos e tal –, vivo sozinho, entendeu? Atualmente não tenho mulher, não tenho nada. Eu tenho um gato, ele não me atura muito e tal, estressado.

Quantos netos?
Não, não tenho neto não, meu irmão, que é isso? [Risos] Eu estou na fase de pai, entendeu?

 

 

 

Não vou botar a mão no meu bolso pra gastar o dinheiro suado que eu ganhei na música pra fazer disco

O que você ouvia nos anos 60 antes do seu estrondoso sucesso?
Eu era muito menino, ouvia Jacob do Bandolim, Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves, Ataulfo Alves, ouvia Little Richard, Ray Charles, ouvia... nossa... muita coisa!

Quais foram as músicas que você compôs pro Roberto Carlos?
Foram duas. A primeira foi “Quero ver você de perto” e a outra foi “Amanheceu”. Ele me pediu. Foi difícil fazer porque eu não componho pros outros, eu sei compor pra mim, entendeu? E compor pro Roberto Carlos é complicado.

Qual é a sua praia?
A do Tim Maia, a do Jorge Ben Jor, a do Fundo de Quintal, esse é o grande lance, entendeu? Que a minha praia na realidade é Tito Puente, Xavier Cugat, entendeu? É cubano.

Os Stones estão aí a mil, o Roberto Carlos a milhão. O Led Zeppelin na ativa, Sergei detonando. Qual o próximo disco do Benito?
Ih, rapaz, quando eles deixarem, porque eu sou o cara mais barrado que tem no baile. Os caras não me deixam gravar, não me deixam fazer DVD. Eu estou com um contrato preso lá numa gravadora. O cara pegou meu contrato e engavetou. Estou há mais de 12 anos sem gravar, muito tempo.

Você não domina o modus operandi de fazer um disco novo?
Ter, eu tenho. Mas não tem graça nenhuma. Já chega dessa sacanagem de o artista ter que enfiar a mão no bolso e fazer o disco dele pra levar pra uma gravadora pra nego roubar. Vamos parar com essa brincadeira, pô? Não é verdade? Não vou botar a mão no meu bolso pra gastar meu dinheiro suado que eu ganhei na música pra fazer disco. Quem tem que fazer disco é gravadora.

Sabe o Sergei, o roqueiro?
O Sergei eu vi numa festa de Friburgo.

Então vocês se conhecem! Já recebeu um abraço pansexual dele?
[Risos] Não! Tá maluco, mermão? Sergei é gente boa. Sem essa de abraço [gargalhadas].

Você era contrário à ditadura, mas, por outro lado, fez algumas músicas que eram favoráveis. Sim ou não? Qual era sua posição política na época?
Olha só. Eu fiz “Tudo está no seu lugar, graças a Deus” numa época muito difícil, porque ninguém venha me dizer que a época da ditadura era fácil. Ainda mais pra mim, que trabalhava à noite, tinha cabelo comprido, tinha de andar de madrugada. Toda hora era chamado pra dizer aonde ia, o que foi, o que aconteceu. O Ziraldo chegou pra mim e disse que quando ele fazia um trabalho e ficava pronto ele falava: “Tudo está no seu lugar, graças a Deus”. Confundir isso com uma música pra ditadura? Tá maluco? Não tem sentido alguém fazer uma música pra ditadura, certo?

Na história da música popular brasileira, você é o bandido ou o mocinho?
Nenhum dos dois. Sou um personagem, mas esse personagem pode estar tanto lá quanto cá. Está na música, na trilha sonora.

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