por Laura Artigas
Trip #185

O taxista Cigano trocou as quatro paredes pelas quatro portas e mora no carro há 15 anos

O taxista José Nilson Viana, conhecido como Cigano, decidiu trocar as quatro paredes pelas quatro portas e vive em seu carro há 15 anos

 


Quatro portas, banco de couro, vidros elétricos, ar-condicionado. Esse é o lar do taxista José Nilson Viana. Há 15 anos, Cigano, como é conhecido, vive no táxi. Já mudou muitas vezes. Teve um Santana, três Gols, um Corsa e agora comemora um Corsa sedã novinho, comprado em 48 prestações. O carnê ele guarda no porta-luvas, junto com o documento do possante. O resto dos pertences fica no porta-malas. O conjunto todo soma uma muda de roupa, um sobretudo, “tipo capa que a PM usa”, para os dias frios, e um nécessaire.

 

Aos 55 anos, trabalha como motorista de praça há 27. Há três anos está em um ponto de táxi na rua Barão de Limeira, no centro de São Paulo. Trabalha sete dias por semana, das três da tarde às quatro, cinco da manhã. Prefere a noite. “Passageiros do dia são muito estressados.” Às oito da manhã já está de pé, pronto para encarar exercícios na academia de ginástica onde toma banho.

O faturamento do Cigano chega a R$ 6 mil por mês, orçamento divido entre a parcela do carro, pensão para as duas filhas, gasolina, refeições, cafezinhos e três maços de cigarro. Sobra pouco, e está certo de que se tivesse uma casa teria que gastar menos. “Meu pai era cigano. A rua é o melhor lugar do mundo.” Fala de forma irredutível e plácida, cansado de argumentar contra os conselhos dos que vivem em casas e apartamentos. Só vê vantagens em morar no carro: “Não tem conta de água, de luz, impostos”.

 

Na última vez que viu o pai, tinha 5 anos. Ele é o mais novo da leva de cinco filhos feitos com sua mãe, mas calcula ter ao todo 37 irmãos. Nasceu em Bom Conselho, agreste pernambucano. De sua terra natal guarda os calos da roça na mão, a quarta série concluída e a lembrança do prato feito com quiabo, maxixe e feijão. Veio para cidade grande com o tio aos 20 anos e nunca mais voltou. Nem para o enterro da mãe, que faleceu há cinco anos.

 

TÁXI É SACRISTIA
Na capital paulista começou sua jornada automobilística. Trabalhou na fábrica de carros Puma. Em 1975 tirou habilitação e durante oito anos dirigiu caminhão, entregando tecidos pelo interior de São Paulo. O táxi entrou na sua vida em 82, com um Fusca.

Morar no carro aconteceu em 1995, quando a sua esposa expulsou-o de casa, com direito a arremesso de mala pela janela. “Foi por causa de um casinho”, conta. A primeira noite no banco de motorista inclinado foi difícil, mas uma semana depois a decisão definitiva foi tomada.

Sua cama é o lugar preferido da casa. O lugar tem uma decoração bem básica. Nada de penduricalhos no retrovisor. O quarto muda conforme o dia. O mais recorrente é um posto de gasolina na rua do Oratório, na Mooca, mas revela que é fã de velórios. “Entro lá, cumprimento o defunto e vou dormir no estacionamento. É uma tranquilidade.”

Já foi assaltado oito vezes. Na última foi preso no porta-malas. E diz sem titubear: “Não tenho medo da violência”. Nem da solidão. Não teve mais nenhum relacionamento sério. Quando arranja uma paquera leva em um “cinco letras”, também conhecido como motel. “Para tratar uma mulher direito tem que ganhar bem”, doutrina. Como todo cigano que se preze, é adepto de frases de efeito: “Táxi é sacristia. Todo mundo tem alguma coisa para contar”, e por isso conclui que “o passageiro mais chato é aquele que não conversa”.

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