por Ina Krug

Níveis abaixo do asfalto e do glamour buscado por turistas, Las Vegas possui uma realidade conhecida apenas por moradores sem-teto, que escolhem os túneis escuros da cidade como lar

Luzes de neon nas cores laranja e vermelho cintilam no concreto acima da cabeça de David. Atarefado, ele perfuma os seus sapatos, os dispõe organizadamente no chão e se concentra em passar desodorante nas suas axilas. Poucos metros adiante brilha uma imitação do horizonte de Manhattan durante o crepúsculo. Simultaneamente, sob o céu artificial, em uma imitação do Grande Canal da China, uma gôndola desliza com um toque nórdico.

Acima de David começa uma agitação frenética. Turistas são levados pelos ônibus de turismo para fotografar os locais mais famosos da cidade. O letreiro luminoso faz a promessa: “Bem-vindo à fabulosa Las Vegas”. A cidade do superlativo. A mais barulhenta, a mais estridente, a mais maluca, com os maiores cassinos, os maiores hotéis e as mais selvagens festas. Realmente fabulosa. Um mundo kitsch onde milhões de turistas apostam milhares de dólares nos caixas dos cassinos.

Durante as férias, por baixo das fotos posadas nos sinais luminosos, abaixo dos pés das centenas de turistas, está David, ocupado com uma barreira feita por ele mesmo para manter as formigas afastadas da sua casa localizada em um dos muitos canos dos mais de 100 quilômetros de comprimento do sistema de túneis destinado à proteção de Las Vegas diante das perigosas inundações. Uma cidade embaixo da cidade. Seus habitantes são engolidos pelas gargantas das cintilantes casas de aposta, que cospem o pó da desolação para fora dos portões. Tudo apostado, tudo sonhado, tudo perdido.

Sin City, a cidade do pecado, tem uma segunda história que ninguém quer ver. As taxas de suicídio são exorbitantemente altas, há o crack; prostitutas, raquíticos encolhidos no canto das calçadas; moradores de rua que não são tolerados em lugar nenhum. Por isso, alguns desses tipos vivem em reclusão social. Em uma vida de um eremita discreto, quase invisível. No sombrio labirinto dos túneis, eles criaram um lar. Eles não têm nada, ainda assim têm mais que outros desabrigados. Um telhado obscuro sobre a cabeça, enquanto do lado de fora o calor do deserto sufoca. “Mas, no fim, as saídas são armadilhas da morte”, diz o jornalista e residente de Las Vegas, Matthew O’Brien. Matthew desceu junto com o fotógrafo Danny Mollohan no subterrâneo para capturar o contraste com o mundo do glamour acima. Na verdade, foi a história animalesca de T. J. Weber que chegou à mesa de Matthew que o levou para dentro do túnel. Weber é um assassino que fugiu da polícia pelos túneis subterrâneos.

LEIA TAMBÉM: Cara de mau e estilo clássico - conheça os barbeiros de Roterdã, na Holanda

Como jornalista, Matthew quis pesquisar sobre esse submundo para compreender os sentimentos de Weber. O que ele esperava era o confinamento, a escuridão e a claustrofobia de corredores. O que ele achou foram pessoas. “No momento em que eu me deparei com o primeiro morador de rua, eu soube que eu tinha uma história”, conta. A exploração que estava planejada para durar semanas se tornou de anos. Os sentimentos que Matthew experimentou foram de esperança, medo, alegria, fadiga, solidão e lamentação por nunca ter antes colocado os pés nesse labirinto sombrio. O resultado foi o livro Beneath the Neon - Life and Death in the Tunnels of Las Vegas [ainda sem tradução].

Em alguma parte desse lugar escuro, Matthew conheceu David, que não desconfiava que sua trágica história de vida era também vivida por tantos outros. O morador do subterrâneo viveu a típica narrativa de desgraça numa cidade de jogos de azar. “Eu não sabia que tipo de pessoas viviam nessas tubulações, e supus que muitos deles eram doentes mentais, instáveis ou criminosos. Mas assim como o David revelou, a maioria das pessoas legais que conheci estava se deparando com, literalmente, o ponto mais baixo de suas vidas. Muitos deles nunca foram perguntados sobre suas histórias de vida. Depois de uma hesitação inicial, se abriam para mim totalmente”, conta Matt. David sabia como trabalhar duro; por um longo período ele fora um empregado responsável pela operação de maquinaria pesada, até que veio o golpe do destino e tudo foi por água abaixo. Sua mãe morreu e ele herdara muito dinheiro. “Decidi parar de trabalhar e afoguei as mágoas no álcool”, conta para Matt. Então vieram os jogos de azar. Dentro de poucas semanas todo o dinheiro foi embora. “Minha mãe se enforcou. Ela se matou. O que eu tinha de esperança? Não sei. Acho que eu não tinha nenhuma. Eu estava perdido. Eu não sabia como lidar com isso. Eu estava divorciado. Minha avó havia falecido. Todas as mulheres da minha família tinham ido embora.” O resto dos seus parentes não sabe que ele mora aqui. E ele não quer pedir dinheiro. 

O número pessoas que realmente moram no túnel é incerto. A depender da época, há rumores de mil moradores. Matt e David encontraram ex-soldados, porteiros, caminhoneiros, construtores e homens de negócios. Todos sabem as consequências negativas do constante perigo de vida em que moram. Se chove nas montanhas, o túnel é inundado em poucos minutos. Rompe-se um grande rio e leva tudo que está no caminho – uma experiência que David também viveu no lugar onde passou a noite; uma vez, dois homens foram simplesmente levados pela enxurrada. Às vezes ele diz ouvir passos ecoando nos corredores do túnel. Aqui embaixo acontecem coisas que os turistas fotógrafos, sob as luzes de neon, nem desconfiam.

Ao longo de anos Danny e Matt descobriram o sistema de túneis sem fim. No verão de 2002, Matt surgiu com a ideia; dois anos depois, ele tirou um ano sabático, a fim de fazer uma investigação completa no sistema de túneis. Mês a mês, Matt rastejava por um túnel depois do outro, sem encontrar nada. Às vezes sozinho, por vezes em dupla. Após dois anos, havia visto apenas uma fração dos mais de 150 quilômetros do mundo subterrâneo. Na busca por residentes, seus próprios passos ecoavam em territórios completamente escuros. De cinza em cinza, a única mudança era um grafite na parede aqui e ali, ou um rato assustado que vasculhava a região em busca de comida. Baratas e aranhas venenosas se amontoavam umas nas outras.

Foi lá que Matt conheceu o ex-jockey profissional Ernie. Quando ele o viu pela primeira vez, o pequeno homem magro e assustado lavava sua camisa em uma das goteiras que escorria no túnel. Todos os tipos de produtos químicos nadavam no caldo, mas Ernie parecia não se importar: ele sacudiu a camisa e a pendurou para secar em dois parafusos que estavam na parede . Um saco de dormir molhado e uma mala cheia de roupas sujas estavam ao seu lado. Elas eram as próximas da lista. Ele usava tênis, jeans, uma camiseta que dizia “God bless America” e meias que havia prendido nas calças “para as viúvas-negras não se esgueirarem pela calça”, ele explicou. Durante dez anos ele viveu sozinho no túnel. Seu “apartamento” fica em um pequeno cano envolvido por uma parede de concreto. Um pedaço de papelão, velas e uma pilha de saco de lixo formam seu beco sem saída. O pedaço de papelão, ele disse, serve como colchão e as velas, como luz  para poder ler. Os sacos de lixo continham cobertores e roupas de inverno. A parte central do quarto improvisado é pintado em bege claro. Assim, conseguia reconhecer as viúvas-negras. Quando ainda era jóquei, Ernie pôde passear por todo o mundo antes de a sua espiral descendente começar. “Minha esposa me deixou. Acho que ela decidiu que eu não era o que ela queria”, explicou.

VEJA TAMBÉM: Quais são os objetos mais importantes dos moradores de rua de São Paulo?

Então vieram as drogas e Ernie começou a faltar em suas corridas “E eu jogo. Infelizmente eu jogo pra cacete” desabafou. Para ele, a aposta é mais perigosa do que as drogas, pois não se pode encontrar entorpecentes por aí, em qualquer lugar. “Mas os caça-níqueis, confie em mim, estão 24 horas por dia, sete dias por semana, sempre podendo pegar o seu dinheiro.” Ele descobriu o sistema de túneis quando queria fumar crack à vontade. Ele decidiu voltar para ver o que ele achava. “Talvez um baú do tesouro ou algo parecido. Em vez disso, achei esse pequeno cano”, conta.

Matt e Danny descobriram em cada um dos seus numerosos encontros que não há nenhum balde cheio de ouro no final do arco-íris de neon. Lá, só histórias como a de Gary, dependente de drogas que há décadas cozinha metanfetamina no seu trecho de túnel. Agora, isolado na escuridão, ele adoecera de um câncer no intestino. Ou o encontro com Mike, de quem Danny especialmente se aproximou: “A experiência de maior destaque, para mim, foi quando estava passando um tempo com um menino que mora nos túneis e ele me revelou que havia trabalhado na mesma empresa de transporte que o meu pai. Ele, Mike, em virtude de um problema nas costas, teve que parar de dirigir para a empresa, e esse é o motivo pelo qual mora atualmente no túnel". “Pouco tempo antes de eu começar meu trabalho no túnel, meu pai perdeu o emprego de caminhoneiro”, conta Danny. O motivo? Grave problema nas costas. No entanto, ele teve a sorte de estar em um momento da vida em que já tinha trabalhado em um emprego que pagava bem e, por esse motivo, tinha conseguido fazer uma aposentadoria. “Agora, sem essa aposentadoria e a ajuda dos dois filhos, meu pai poderia ter tido o mesmo fim de Mike. Era isso que eu pensava quando via esses homens e mulheres. Poderia ser o meu pai! Porra, isso é algo que as pessoas não entendem, quando você vê um sem-teto nos Estados Unidos poderia ser o seu pai, sua mãe, seu irmão, ou você.”  

As imagens também não saíram da cabeça de Matt, que decidiu enfrentar a situação. Muitos anos depois do primeiro encontro com David, ele o ajudou e a muitos outros no programa Help, organização que fornece apoio aos mais pobres. Alguns dos moradores do túnel foram alojados em abrigos, sua saúde e seus vícios foram examinados e passaram a ter todo tipo de cuidado médico necessário. David também foi alojado, até que finalmente morreu em um apartamento confortável, feliz por ter conseguido renovar a sua vida. “Os sem-teto nos túneis eram tão hospitaleiros e se abriram tanto para mim que senti que era a minha obrigação retribuir o favor”, esclarece Matt. No ano de 2009, ele fundou o Shine a Light, um projeto que fornece comida, roupa, garrafas de água e cobertores para as pessoas nos túneis e que trabalha em conjunto com a Help.

Um pequeno raio de esperança no final do túnel.

 

*

 

*Matéria publicada originalmente na edição #21 da Trip Europa.
Conheça Trip Europa
Tradução do alemão por Priscilla Anton

matérias relacionadas