por Lucas Azevedo
Trip #195

Aos 7 anos, Natália Stanguerlin já foi Miss Universo duas vezes e vai lançar seu 1º livro

Aos 7 anos, a gaúcha Natália Stanguerlin já foi Miss Universo duas vezes, vai lançar seu primeiro livro, e sua mãe quer que ela estrela uma campanha de combate à pedofila. Conheça o mais bem-sucedido exemplo brasileiro de um fenômeno mundial: as meninas que, estimuladas pela família, usam a beleza para conquistar a fama precoce.

Natália Stangherlin tem apenas cinco anos de carreira como modelo. Mas já estampou dezenas de capas de revista, emprestou seu rosto a uma marca de óculos e a uma linha de calçados, é reconhecida por anônimos nas ruas e em aeroportos, ganha roupas de grife e frequenta o Castelo de Caras.

Aos 7 anos de idade, Natália chegou ao topo de sua profissão. Duas vezes. Em 2008 e 2009, ela ganhou o título de Little Miss World, espécie de Miss Universo versão infantil. Em sua cidade natal, Santa Maria – com 270 mil habitantes, a 290 km de Porto Alegre (RS) –, ela é uma celebridade, reconhecida pelo rótulo de “a menina mais bonita do mundo”.

Natália é um orgulho local desde que tinha 2 anos, quando ficou em segundo lugar no concurso Mini Embaixatriz do Turismo do Rio Grande do Sul. Ela mal sabia falar, mas já entendia exatamente o que fazer diante da câmera e dos jurados. Hoje, sua presença é requisitada em desfiles de moda e campanhas beneficentes.

 

Por causa dos compromissos, a Miss terá que mudar de vida em breve. Está de malas prontas para Porto Alegre, onde ela, a mãe e o irmão mais novo devem morar até o início do ano. “Às vezes somos chamadas às pressas para eventos em São Paulo. Então temos que sair correndo. Quando estivermos em Porto Alegre, é só pegar o avião e viajar. Será mais fácil”, explica Daniela Stangherlin, ex-modelo, consultora de moda, ex-piloto de carro, aspirante a DJ e mãe da bicampeã do Little Miss World.

Na onda do reconhecimento, Daniela não deixa de procurar oportunidades e apostar em novos nichos para a filha. Em breve, Natália deve lançar seu primeiro livro, com dicas de moda. E, se depender da mãe, será o novo rosto de uma campanha nacional contra a pedofilia. Daniela queria apresentar o projeto em um jantar dos servidores da polícia federal em Porto Alegre, em novembro, mas chegou com a filha às 11 da noite e não conseguiu discutir a ideia.

Santa Maria é um celeiro de mulher bonita. Das dez Misses Brasil que o recordista Rio Grande do Sul elegeu, duas são da cidade: Juliana Borges, vencedora em 2001, e Rafaela Zanella, em 2006. É impossível andar pelas ruas da cidade e não identificar potenciais top models em cada esquina, desde a atendente da rodoviária até a copeira do hotel. Para uns, a explicação está na miscigenação. Para outros, na Universidade Federal de Santa Maria, que reúne jovens de todas as regiões do Estado e do país em uma única cidade.

 

 

Venezuela brasileira
“Santa Maria é conhecida como a Venezuela [país com maior tradição de Misses] brasileira. Na cidade, desde pequenas as meninas são treinadas. É um diferencial muito grande”, comenta o missólogo gaúcho Evandro Hazzy, que esteve por trás do sucesso de campeãs como Juliana e Rafaela.

A mãe da Natália chegou a fazer carreira com sua beleza. Conhece modelos, agências, estilistas e cabeleireiros. Quando a filha ainda engatinhava, Daniela começou a ser encorajada a investir na imagem da menina.

Depois de participar de vários concursos, a carreira de Natália começou a despontar em 2008. Ela representou Santa Catarina no Mini Miss Brasil, em Salvador, e ganhou. O título a credenciou para disputar, dois meses depois, o Little Miss World 2008, no Equador. A brasileira desbancou outras 21 meninas de diversos países e foi recebida de volta ao Brasil como celebridade. No ano seguinte, foi convidada a representar novamente o país no concurso. E venceu.

Daniela investiu muito na carreira da filha. “Hoje, a Natália fica hospedada no Castelo de Caras. Mas até ganhar o primeiro concurso eu paguei tudo.” Ela não fala em números, mas organizadores de eventos acreditam que a gaúcha não impressionaria tanto nos concursos sem a ajuda de algumas dezenas de milhares de reais. “O sucesso da Natália veio depois de muito investimento. Elas chegaram no mundial com comitiva, assessores, maquiadora, cabeleireiro. Isso chamou muito a atenção do pessoal do concurso”, afirma a ex-modelo Sandra Ávila, promotora oficial do concurso Embaixatriz do Turismo do RS.

Hoje, Daniela se gaba de a filha não precisar do intermédio de uma agência de modelos e de o seu cachê superar o de outras meninas da profissão. Mas ela garante que tudo o que é ganho por Natália é gasto por ela mesma. “Ela já comprou um computador, mas quer mesmo é um carro. Desses pequenininhos, de repente um New Beetle.”

 

"Tem gente que diz que ela não tem infância, mas não concordo. Ela brinca e aproveita a vida"

Correria de miss
No salão de beleza Carlos, em Santa Maria, o cabeleireiro Carlos Camargo se vangloria por ser o artista por trás dos cabelos de várias beldades, incluindo as Misses Brasil da cidade, exibidas em fotos no estúdio particular do cabeleireiro. Mas ele tem um orgulho especial por ser um dos principais incentivadores de Natália. Ela tem atendimento VIP no disputado salão e é uma das poucas que conseguem ser atendidas pelo próprio Carlos sem marcar hora.

Enquanto Natália espera para pintar as unhas, come fatias de presunto e queijo enroladas e bebe Coca-Cola – rodeada por mulheres da alta classe santa-mariense, modelos e aspirantes a Miss. Nenhuma com a idade de Natália.

Acompanhada pelos assessores Irene e Sergio – a primeira cuida da agenda, o segundo, do site e do fã-clube –, Natália faz uma revelação: não sonha em ser modelo. “Quero ser cantora”, diz, antes de citar sua ídola, a americana Hannah Montana. De dentro da bolsa rosa com estampa de Barbie, onde guarda o celular e a maquiagem, a pequena Miss pega uma agenda colorida e começa a folhear. Tem poucas coisas escritas. Para me mostrar sua letra, ela acha duas frases escritas a lápis em algum dia de maio deste ano: “Em Curitiba [...] a sessão de fotos atrasou [...] estou muito cansada”.

Depois do salão de beleza, Natália cumpre seu segundo compromisso de trabalho do dia. No estúdio fotográfico, produz as novas fotos para o seu site, que está sendo reformulado. Veste as roupas que ela mesma escolheu para a sessão e, na hora de posar, esquece o cansaço. Quando o primeiro flash ilumina o cenário, o sorriso brota de imediato. Ela entende perfeitamente as poses que a fotógrafa pede. E diz gostar do que faz.

 



Daniela explica que a escola é respeitada na agenda de compromissos da filha. “Às vezes, até acabamos recusando algum convite.” Mas há situações em que o trabalho é prioridade. Quando as sessões de fotos tomam o lugar das aulas, uma professora é escalada para recuperar a lição perdida com Natália. “Em função das faltas, ela volta à escola no turno oposto. Mas ela não possui nenhum prejuízo de aprendizado”, comenta Sandra Maffini, coordenadora do colégio Objetivo Júnior, onde estuda a Miss.

 

“Tem gente que critica, diz que ela não tem infância. Mas eu não concordo. Ela brinca e aproveita essa fase da vida como deve ser aproveitada. As crianças não têm mais o tempo que nós tínhamos quando pequenos. São cada vez mais levadas a assumir um grande número de atividades e acabam não tendo tempo para brincar em casa. Então não é o trabalho que priva a infância”, opina a psicopedagoga Débora Recchia, responsável pelas aulas de reforço de Natália.

Segundo a própria Natália, os compromissos de trabalho só trazem um prejuízo: “Hoje sento no fundo da sala. Meu lugar era na frente. Daí faltei, e o pegaram de mim”, conta. Mas isso não quer dizer que Natália seja preterida pelas colegas. Longe disso. Ela é requisitada para maquiar amigas que querem um “look” igual ao seu.

 

"O começo é no empurrão da mãe. Depois, as meninas acabam se acostumando."

Todo ano, centenas de aspirantes a Natália são incentivadas pela família a tentar o estrelato. Mas, além da vontade dos pais, é preciso dinheiro. No Embaixatriz do Turismo do RS, a inscrição sai por R$ 500, valendo a hospedagem de dois dias para a mãe e a filha. Já no Mini Miss Brasil, na Bahia, o investimento sobe para R$ 2,5 mil só para entrar no concurso.

Na noite de sexta-feira, 12 de novembro, o hotel Morotin, um dos poucos quatro estrelas de Santa Maria, viu carros e vans tomarem conta do estacionamento por conta do Embaixatriz do Turismo. Por todo lado, mães e filhas procuravam quartos para se acomodar, já que o sábado prometia ser longo. Enquanto a hors-concours Natália descansava em casa para abrir o desfile da noite, já na condição de celebridade, as aspirantes se preparavam para o concurso.

Expectativa de mãe

Ao meio-dia, reunidas em um clube, 58 candidatas, de 3 a 18 anos, disputavam em seis categorias quais seriam as Embaixatrizes do Turismo gaúcho. Na mesa do júri, havia várias ex-Misses com vestido e coroa – crianças, adolescentes e adultas, como a ex-Garota Verão e Miss Beleza Brasil 2006, Ana Paula Quinot. Aos 29 anos, a empresária iniciou a carreira de modelo aos 7. Hoje, faz participações esporádicas em eventos, como acompanhar a sobrinha Amanda, 6 anos, em desfiles. “O começo é no empurrão de mãe. Depois, as meninas acabam se acostumando”, comenta.

Diante dos jurados, as pequenas candidatas se esforçavam para reproduzir o discurso ensaiado. Diziam seus nomes, idades e convidavam o júri a conhecer as belezas naturais, a gastronomia ou seja lá qual cartão de visita do município natal. Após a apresentação, entregavam ao júri mimos para serem lembradas, de doces típicos a vinho artesanais – tudo acompanhado de uma fotografia.

No primeiro ensaio de passarela, uma cena chamou a atenção. A candidata mais nova do concurso, com 3 anos de idade, só aceitou desfilar levada pela mão e cobrindo o rosto com o bracinho. “É cansaço”, explicou a mãe, Elisiane Baratto Böck. “Somos do interior e levantamos cedo para viajar até aqui.”

 

 

Impressionado com a cena, o jurado Antonio Miguel Fonseca desabafou: “A realidade é essa. É uma fantasia da mãe imposta à filha”. É a palavra de um especialista: Fonseca coordena concursos há 35 anos e é responsável pelo Mini Miss Brasil, de onde saem as representantes brasileiras para concursos no exterior.

Bebê revelação

Elisiane é produtora rural no município de Dilermando de Aguiar, no interior de Santa Maria. Aos 27 anos, ela chamou a atenção pelos olhos claros, cabelo loiro e braço engessado. “Foi um coice de vaca enquanto eu tirava leite.”

Conta que tinha o sonho de ser modelo na infância, mas o pai não permitiu que ela tentasse a profissão.
O chefe da família não podia se dar ao luxo de perder mão de obra na roça e ver a filha trabalhar fora, sem estudar. Mãe de três filhos – um menino, 7, e duas meninas, 5 e 3 –, a produtora rural reviu uma oportunidade de realizar o sonho quando conhecidos começaram a elogiar a beleza das filhas.
Como se viu no concurso de Embaixatriz do Turismo, a mais nova, Stefany, não desgruda da mãe nem na passarela, nem diante do júri. A mãe admite a falta de interesse da caçula, mas se vangloria do primeiro título da filha: Bebê Revelação em um pequeno concurso, aos 2 anos de idade.

Elisiane tem se agarrado às oportunidades que estão surgindo também para ela. Foi convidada para ter o cabelo cortado em uma apresentação de cabeleireiros. “É trabalho de modelo também, né?” E confessa: “Me espelho na Etiele, a minha filha mais velha”. A mãe acredita que Etiele tenha vocação para modelo. “Ela se maquia com a tia que trabalha n’O Boticário desde pequena. Um dia, ela me disse que se achava parecida com a guria da propaganda. Era a Natália.”

 

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