Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Sem conseguir me desvencilhar do meu karma de editor, mais uma vez troco qualquer que fosse o assunto que abordaria hoje nesta coluna pelas agradáveis e pertinentes reflexões que recebo pelo menos uma vez por mês de meu caríssimo amigo Ricardo Guimarães, alguém a quem o mercado ainda teima em chamar de publicitário, mas que em breve vai descobrir, como tantas outras coisas geniais que descobre, um título mais adequado à profissão que está ajudando a inventar. Nessa carta, Guimarães fala sobre as mulheres. Aí vai:
Caro Paulo, Vamos falar de mulher?
Quero falar da Silvia (Shubi), minha filha, 24 anos, capitã da Atenah-Pão de Açúcar, equipe com 100% de mulheres que chegou em primeiro lugar nas eliminatórias do EMA 2000 e em nono no Elf Adventure Autentique 2000.
Quero falar da Carly Fiorina, 45, CEO da HP, Hewllet-Packard, meu cliente.
Quero falar também de todas as mulheres cujo nome eu não sei, mas que devem ter seus feitos bem feitos neste mundo designed by e for men.
Tanto as provas de aventura como as grandes corporações de engenheiros tipo HP são ‘coisas de homem’. Pela força física, pela racionalidade, objetividade e competição, nós homens sempre tivemos posição privilegiada nessas situações.
Mas, de repente, Carly, uma avó que não estudou Engenharia, mas Filosofia e História Medieval, dirige uma das mais respeitadas organizações de engenheiros do mundo. E Shubi e suas amigas vencem provas de atletismo que até hoje têm regulamento que obriga um mínimo de mulheres para dar chance às coitadas desafortunadas. (Depois da performance da Atenah no Mini Ema, o papo era que ia ser obrigatório ter pelo menos um homem em cada equipe para equilibrar a competição!) O que significa isso, Paulo? Por que as mulheres estão demonstrando mais competência onde os homens eram senhores absolutos ? O que elas têm que nós não temos?
Acabei de me lembrar de outra mulher. Minha mãe, 74, que teve seis filhos homens. Quando foi trocar as fraldas da Shubi, primeira neta, gritou lá do quarto para a minha mulher:
‘Lili, venha cá! Não sei fazer higiene nessa criança aqui, não. Muito esquisito. Parece que falta alguma coisa!’
Naquela hora, Maritinha, minha mãe, sintetizou em sua mineira simplicidade toda a história de nossa diferença, felicidade e dificuldade: nós temos e elas não!
Nós somos o sim e elas o não. O Céu e a Terra. A complementação. A possibilidade da vida, do filho, da evolução.
Olho para Carly, Shubi e suas amigas e vejo que o segredo de seu sucesso é não deixarem de ser femininas apesar das habilidades masculinas. Espertas!
Continuam sabendo ‘não ter’, além de aprender as virtudes do ‘ter’.
Em termos práticos, além de desenvolver a objetividade, a racionalidade, a força física e a competição do masculino, elas conservam a subjetividade, a intuição, a emoção e a cooperação do feminino. Por isso elas vencem!
Minha hipótese: virtudes opostas se compõem resultando num ser mais integral, com maior capacidade de lidar com situações complexas – como a de uma organização global em tempo real ou a de uma prova de aventura de 840 km em 13 dias.
Acho que é isso: nós homens ainda acreditamos na possibilidade do controle e resistimos a nos entregar a um processo caótico que só vai se revelar harmônico no fluxo livre das forças que o compõem.
As mulheres, talvez por terem a possibilidade da maternidade, confiam mais nos processos, no desconhecido e por isso se entregam mais facilmente. Daí, num mundo louco como este, elas se darem melhor!
Sei lá, deve haver uma explicação – relacionada ao específico feminino. O específico feminino é o que é típico da mulher: a possibilidade de parir.
Talvez o desequilíbrio da nossa sociedade se deva muito ao fato da gente ter se organizado subvalorizando o específico feminino.
Para o nosso masculino mundo da produção, a gravidez da mulher é um problema porque a funcionária enjoa, não pode ser demitida, fica quatro meses fora do ar etc. O mesmo quando o filho nasce: temos o problema da amamentação que obriga a funcionária a parar de duas em duas horas. Depois, o problema da creche, depois o problema da escola – sem falar na TPM, que, dizem, reduz a produtividade da mão de obra feminina.
Isto é: tudo que se deriva do específico feminino é visto como problema pelo mundo da produção – que é onde se conquista poder, prestígio e sucesso.
Oras bolas, minhas bolas, suas bolas – para uma mulher ‘dar certo’ só fingindo que não menstrua, não engravida, não tem filho. Tem que se ‘masculinizar’ para ser percebida como competitiva. É uma violência – por necessidade de sobrevivência ou por ignorância. Obrigada a viver seu específico só nas horas vagas, a mulher perde muito. Mas nós, homens, perdemos muito mais.
Porque, ao não valorizar o específico feminino, desprezamos tudo que é derivado dele: alimentação, educação, solidariedade, maternidade, estética – atividades tidas como ‘coisas de mulher’. São atividades que, embora nobres, não tinham correspondência em prestígio, poder e dinheiro. Isso faz falta para uma vida com um mínimo de qualidade. Repare que só recentemente o educar e o alimentar começaram a ganhar importância nos orçamentos e nas agendas de famílias, governos e empresas. Ou a maioria das questões sociais não são fruto da falta de educação, de nutrição e de solidariedade na nossa cultura?
Quando a mulher nega sua natureza e se submete ao mundo masculino, não entrega sua maior contribuição, o específico feminino, que daria uma temperada no nosso árido mundo racional. E assim, meu amigo, o mundo continua desequilibrado. Por isso, acho que a mulheres deviam é mudar o mundo – não apenas ter um lugar nele.
Por outro lado, caindo na real, quando elas assumem tudo o que têm direito, sai da frente! Elas dão a regra do jogo!
De minha parte, vou com a Lili festejar minha Shubi vitoriosa. Vou também comprar ações da HP. Porque essa Carly Fiorina não brinca em serviço. Ela está vendo que o rei – nós homens – está nu.
Boa sorte pra nós. E fique com o abraço solidário do amigo.
Guimarães
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu