Mesa de som
Para questionar a indústria alimentícia, o produtor londrino Matthew Herbert cozinhou um disco usando comida como ingrediente
Por Redação
em 18 de abril de 2006
Por Filipe Luna
Pintinhos em gaiolas, pessoas comendo maçãs, uma bateria inteira feita de produtos de supermercado, garrafas e mais garrafas de água mineral… tem certeza de que isso é um estúdio? Ah, é sim. O produtor inglês Matthew Herbert fez do seu uma cozinha e transformou as gravações de Plat du Jour numa esbórnia alimentar. Tudo para criticar a indústria da alimentação, as cadeias de fast food e a padronização da culinária mundial. Não é a primeira afirmação política na música do produtor. Quando esteve aqui no Brasil em 2004, na abertura da edição brasileira do festival Sonar, sampleou jornais e máquinas fotográficas para ridicularizar o dueto Bush & Blair. Sua sinfonia de comes e bebes conta até com um chef em seus shows – que prepara quitutes enquanto o resto da banda refoga as harmonias. Por telefone, de sua casa em Londres, Matthew contou à Trip a receita de sua bolacha.
Este disco é um manifesto contra a indústria alimentícia? Sim, mas não é a única coisa. É uma maneira de refletir sobre o que comemos. O consumo de animais por exemplo. Umas das maiores mudanças no processo de produção de carne foi que passamos a alimentá-los com grãos em vez de grama. Nós não comemos grama, mas podemos comer grãos. Se vamos produzi-los para alimentar animais que depois iremos comer porque não comer logo os grãos? Ou então alimentá-los com grama que é algo que não podemos comer? O que não dá é produzir alimento para produzir outro alimento.
Você acha que pode mudar algo com esse disco? Sim, com certeza. Minha ambição, além de fazer música, é conseguir mudar a dieta de alguém. Fazer com que prestem mais atenção no que estão comendo e reflitam mais sobre isso.
Como é o show? Você tem um cozinheiro no palco? Basicamente nós tentamos samplear ao vivo. Se a música é sobre ovos temos uma tigela e ficamos quebrando ovos e gravando isso. Daí os músicos tocam esses samples e recriamos a música. Temos também um baterista que toca uma bateria feita apenas com produtos comprados em supermercado. O cozinheiro está lá para criar o cheiro da comida, ele fica cozinhando algo que tenha a ver com a música que tocamos. No final pegamos o que ele preparou, sentamos e comemos tudo aquilo.
Você oferece para as pessoas? Não, não permitem que a gente faça isso. Eles só podem ficar olhando mesmo, infelizmente.
A sua dieta mudou depois desse trabalho? Mudou um pouco, mas não tanto. Eu relaxei mais. Continuo tentando ter uma dieta saudável, mas não me importo mais de dar umas escapadas. Não é bom comer coisas como McDonald’s sempre, mas também não é como se você tivesse colocando sua vida em risco se faz uma vez ou outra, sabe? Agora… comida é algo que você absorve, ela entra no seu corpo, faz parte de você. As pessoas começam a ficar parecidas com a comida. Os americanos têm cara de hambúrguer [risos].
É mesmo? [Risos] Sim, nem todos, claro. Em Nova York e na Califórnia nem tanto. Lá tem ótimos restaurantes, não comem tanto hambúrguer.
O que você acha do movimento slow food? Você gostaria de fazer um movimento slow music? Eu acho interessante. Fui uma vez num restaurante desse tipo na Itália e a experiência foi ótima, a companhia, o atendimento, mas a comida nem tanto [risos]. Acho que dá para fazer alguma coisa parecida com música, mas ainda não sei direito como. Precisaria de mais gente me ajudando porque eu não tenho as respostas. Talvez fazer uma música realmente devagar, mas isso seria muito chato [risos]. É só uma idéia…
Dá para comer e fazer música ao mesmo tempo? Hum, não quero dizer que não dá. Acho que quando você está comendo tem que se concentrar nas pessoas que estão te acompanhando, no alimento que você está degustando. Música é uma experiência parecida para mim. Exige uma concentração. Nunca consegui fazer um bom show num local onde as pessoas estão comendo.
O que você prefere: comer ou ouvir música? Definitivamente eu prefiro comer porque se não comesse eu morreria.

Acima, MH posa com pão, azeite, temperos e maçã na cabeça à la Magritte. Então tá. Ah, e ao lado, a capa do CD menu
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