Logo Trip

MENOS ANSIEDADE

O problema não é o trânsito, a violência, nem a má administração da cidade, nem a economia. Nosso problema fundamental é a ansiedade

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

Numa dessas noites quentes que tem feito de São Paulo uma sucursal de Abu Dabi, tratava com meus companheiros de mesa, de questiúncula qualquer, de importância tão menor que sequer registro na memória. De repente, como uma daquelas topadas com o dedão no pé do sofá, uma afirmação me fez rever completamente aquilo que vem sendo chamado de minha ‘visão de mundo’.

Meu interlocutor disparou com a veemência de um magistrado: ‘O problema não é o trânsito, a violência, nem a má administração da cidade, nem a economia. Nosso problema fundamental é a ansiedade.’

Esta última palavra funcionou como uma espécie de mecha para reaquecer a conversa que de morna ameaçava gelar. ‘A idéia de que é preciso ter tudo do bom e do melhor, emprego estável, um carro bonito, uma casa grande e confortável, um casamento sólido, uma carreira progressiva, filhos maravilhosos e uma velhice digna, são valores vendidos de forma tão implacável, que nos transformam em bolsas de sangue, carne, ossos e 80% de ansiedade. É o medo de que não vamos conseguir, e se conseguir, não seremos capazes de manter.’ Diante de uma mesa de pretensiosos debatedores perplexos, o sujeito cravou a adaga mais fundo: ‘E o corpo então? Quem será capaz de se tornar um Brad Pitt nesta encarnação? O que faremos com espinhas, furúnculos, pneus, pêlos supérfluos, não há cirurgia que faça frente a tanta imperfeição. Seremos ansiosos eternos. E quem vai fazer amor com uma Feiticeira, com a Letícia Spiller, quem jamais vai acariciar e ser acariciado por uma Ana Paula Tabalipa?’ Aí veio o golpe de misericórdia final.

‘Vamos todos morrer, mas não de cigarros, mortos por ladrões, nem mesmo de enfarte. Vamos morrer de medo, medo de não poder comprar tudo que nos mandam, de não poder comer tudo e todos que se oferecem virtualmente, medo de não ser o que mandaram que fôssemos.’

Desculpem relatar algo de certo modo pesado para a época de festas, mas se o ano novo, como dizem, é hora de repensar a pórpia existência e planejar o futuro, fica a sugestão: um novo ano com menos ansiedade e mais amor pelo que se tem e principalmente pelo que se é.

PALAVRAS-CHAVE
COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon