MENEM, O VIAGRA E AS NOVE RAINHAS
No futebol, na política e no cinema, o impacto vindo da Argentina
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Num período muito curto, talvez nem uma semana, fui submetido a uma série de impactos vindos da Argentina. Não me refiro aos mais recorrentes que batem aqui, reflexo da economia vizinha. Primeiro foi a derrota inquestionável do futebol brasileiro, representado pelo Palmeiras, diante do Boca Juniors, em pleno território nacional, e, mais ainda, na casa do verde.
É verdade, a disputa de pênaltis é prima da pena de morte, mas até os mais entusiasmados comentaristas foram comedidos em suas análises e raros foram os questionamentos dos méritos da equipe de Buenos Aires. Mais que a eventual superioridade técnica e física dos vizinhos, me incomodou um fato isolado. Assisti ao jogo numa sala na qual havia, além de mim, apenas mulheres. Foram quase insuportáveis os comentários dizendo respeito a uma suposta superioridade também no quesito beleza em favor dos argentinos.
Não sou palmeirense nem presto muita atenção em futebol, mas ainda que tivesse nascido sob as asas do periquito palestrino seria difícil defender os traços de Fábio Júnior, o charme do goleiro Marcos, diante dos alinhados argentinos, e até colombianos (como o goleiro), que compõem a esquadra do Boca. Tive de calar diante da empolgação feminina frente aos cabelos lisos e negros e aos traços marcantes dos milongueiros.
Guardei essa ‘derrota’ para mim. Se não me falta fosfato, uns dias depois (ou teria sido antes) vem da mesma Argentina a incrível notícia de que seu ex-presidente Menem estaria preso por envolvimento em transações com armas. Logo agora em que estava prestes a esgotar o estoque portenho de Viagra com sua ‘novia’.
Não defendo a prisão de FHC nem mesmo diante do absurdo do apagão, mas confesso minha surpresa com ponta de inveja pela capacidade de um povo punir com agilidade seus delinqüentes, independente da patente. Talvez a Argentina não seja exatamente um exemplo nessa área, mas Menem na cadeia (ainda que não passe de prisão domiciliar) nos deixa com uma certa dor na ‘Cacciola’, com o perdão pela infâmia.
Fase anal
Last but not least, fui ver Nove Rainhas, um filme do diretor argentino Fabián Belinsky. Confesso que fui ao cinema de nariz torcido, esperando algo pretensamente europeu, com estrias de subdesenvolvimento cortando a carne.
A fita, como dizem os mais antigos, é de uma sutileza absoluta. Narrativa ágil, história correndo no ritmo do melhor Godard, desempenho excelente da dupla de protagonistas e, melhor ainda, dos coadjuvantes, que dão show. Mais que cinema muito bem feito e uma história que prende mais que Erasmo Dias, me interessou a capacidade de autocrítica que expõe ao mesmo tempo o que há de pior e de melhor numa cultura .
Inevitável pensar que quando falamos em uma autocrítica inteligente e sutil às nossas mazelas canarinhas, desde a morte de Nelson Rodrigues, tudo o que temos para contrapor são as sátiras grosseiras da televisão, como o intragável e enrugado Sai de Baixo, ou pior, a eterna fase anal do Casseta e Planeta, com suas piadas e escatologias de macho (?) de porta de casa de sucos de Copacabana.
O que mais temos? A ‘nova’ série de episódios especiais enunciando a descoberta da sexualidade protagonizadas por Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres, que de tão iguais e repetitivas parecem todas propagandas do Unibanco, ou velhos episódios de Os Trapalhões numa versão ‘Wallpaper’. O trailer de qualquer episódio de Sex and the City está para esta série assim como Michelangelo está para Ruy Othake.
Não recomendo o filme Nove Rainhas a roteiristas e diretores de sátiras de comportamento e cotidiano brasileiras. Nem a palmeirenses. Seria muita humilhação.
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