por Lino Bocchini
Trip #218

A moeda que fomenta a produção artística na terra de Mano Brown, o Capão Redondo

Como garotos de uma das regiões mais violentas de São Paulo inventaram uma moeda própria para fomentar a produção artística na terra de Mano Brown

O Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, é conhecido pelos números tenebrosos de violência – em junho do ano passado, chegou a registrar dois assassinatos por dia – e pelas rimas de gente como Racionais MC’s, Z’África Brasil e Wesley Nóog. Mas também tem visto nascer projetos originais que fomentam a cultura e contribuem para mudar o estigma de cinturão de insegurança. Como a Agência Cultural Solano Trindade, que inventou uma moeda para impulsionar a produção e a programação cultural do bairro.

A agência foi criada, entre outros, pelo militante e ativista Thiago Vinicius, 23 anos, finalista de um concurso que escolheu um dos 11 homenageados do último Prêmio Trip Transformadores. A moeda serve para viabilizar projetos culturais que seriam impossíveis sem grana, conectando artistas com técnicos, donos de equipamento e gente de comunicação para lançar CDs, produzir e promover shows, contratar músicos de apoio e bancar horas de estúdio.

O dinheiro cultural, chamado solano, funciona assim: quem integra a rede troca sua mão de obra por ele, e pode usá-lo para pagar serviços, na mesma base. Horas de trabalho, sejam de que tipo forem, valem o mesmo tanto de solanos. “Deixamos de trocar favores e passamos a trocar serviços”, conta Thiago.

Um simpático prédio de três andares junto ao metrô Capão Redondo abriga o projeto, que realiza a Sexta Básica, noite mensal de música, teatro e literatura movida a solanos. Com uma vista incrível do Capão, o espaço pode dançar com o fim do contrato do aluguel, em março: apesar de ter ganhado o prêmio Economia Viva do Ministério da Cultura em 2011, o projeto não recebe nenhum apoio. “Se não conseguirmos ajuda para comprar o prédio, vamos ter que ir para um espaço bem menor”, lamenta Thiago.

Amigo do DJ Lah, morto em uma chacina na madrugada do primeiro sábado do ano, no Campo Limpo, Thiago se recusa a aceitar passivamente as matanças: “A violência aqui vem de fora pra dentro. É uma situação que não dá mais pra continuar”.

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