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MACONHA – INSTRUÇÕES

Maconha é poder. Poder de alterar. Assim como o álcool que altera seu estado, o trator que altera o solo, o dinheiro que altera sua liberdade e a energia nuclear que altera a vida.

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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No ano que entra, estarei completando treze à frente da revista TRIP. Contando com os projetos em que trabalhei antes, são mais ou menos dezoito anos editando. Para quem não sabe, é basicamente uma tarefa de administração. A função do editor, se os colegas me permitem a redução brutal, é escolher o que entra e o que sai, agrupando as informações e imagens que por algum motivo julga mais interessantes a quem está do outro lado do veículo que edita, dando-lhes tamanho, forma e principalmente contexto. Neste tempo todo fazendo esta função, as lições que aprendi são incontáveis (algumas nos dois sentidos) e o eterno aprendizado é justamente o que nos mantém estimulados. Uma destas inúmeras conclusões a que se chega mais cedo ou mais tarde, é que nenhuma solução de espaço, de visibilidade, recurso gráfico ou de divulgação, tem mais força que uma idéia consistente ajudada por uma linguagem adequada. Não importa o tamanho do espaço, o visual da página, a força do veículo onde está contida.
Se uma idéia for realmente forte, bem defendida, e mais, se estiver naquele momento, fazendo parte da lista de dúvidas e anseios de muita gente, ela por si só cuidará de desencadear o processo de erupção e contaminará a tudo e a todos em pouco tempo. O texto que segue, uma carta que recebi de um amigo, foi publicada em espaço de uma página na edição de novembro de TRIP e, não me lembro entre as centenas de artigos, fotos e reportagens fortíssimas que publicamos recentemente de algo com tanta repercussão entre leitores, principalmente considerando o número dos que se manifestaram por carta ou e-mail. Em tempo, para quem ainda acha que isso tem alguma importância, o autor tem cinqüenta anos, quatro filhos, duas meninas e dois meninos. O mais velho tem vinte e quatro e pega onda comigo em Itamambuca.

Caro Paulo ,
Quarta feira durante o almoço, falando de eleições e de amigos legais que podiam ser eleitos você me alertou: ‘É. Vamos ver se o poder não os corrompe!’
Falamos também do D2, Marks traficante e para completar a viagem cheguei na agência e li uma matéria sobre o coitado do Rafael do Polegar.
Fui abatido por uma tristeza e uma incredulidade profunda e me deu vontade de falar mais sobre poder e maconha com o meu amigo e os nossos leitores.
Você sabe que sou a favor da descriminalização. E da educação da maconha.
Maconha é poder. Poder de alterar. Assim como o álcool que altera seu estado, o trator que altera o solo, o dinheiro que altera sua liberdade e a energia nuclear que altera a vida.
Maconha é muito bom, assim como o álcool, o dinheiro, o trator, a energia nuclear e o poder político.
São poderes que podem fazer a vida melhor, mais divertida, mais inteligente e segura. Ou podem foder tudo.
Por isso tem que descriminalizar e educar. Como na reforma agrária.
Você já viu um agricultor pobre e ignorante sentado em cima de um trator? Movido pela necessidade de alimentar sua família ele é capaz de heroicamente destruir uma floresta e acabar com um rio que são os obstáculos para ele obter o sustento da família. Eu vi isso e é difícil explicar para ele a burrice e o atraso de vida do que ele estava fazendo. Para ele era progresso. E justo.
É isso: põe a maconha na mão de neguinho cheio de insegurança e precisando se afirmar socialmente e veja como ele enfrenta os obstáculos que a vida coloca para ele crescer. Florestas e rios serão destruídos, com certeza. E ele vira um ser devastado como o Rafael do Polegar.
Paulo, você sabe que não tenho compromisso com o mainstream nem com a vanguarda nem com o marginal. Não vejo nada essencialmente diferente em nenhum desses lados mesmo porque não passam de lados da mesma coisa- não são outras coisas.
Para mim o babaca-fumando-charuto-tomando-whisky-na-frente-da-TV que o D2 lembrou não é muito diferente do mano-queimando-erva-tomando-cerva-na-frente-do-mar se os dois estiverem igualmente entorpecidos, anestesiados, fazendo hora para essa vida cheia de problemas passar logo. São escolhas. Eu estou fora!
Outra coisa é ver a maconha como uma conquista, um direito .
Não uma conquista jurídica, descriminalização – esse é um processo social e tem seu tempo para amadurecer e eu sou todo a favor, já disse. Mas falo do âmbito pessoal, de um recurso a mais que alguém conquistou para usar e se levar a um outro estado. Isto é, precisa ter uma certa maestria, uma certa senioridade para usar a maconha ou qualquer outra droga justamente pelo poder que ela confere ao indivíduo. Quando o cara usa a maconha antes de estar pronto para usufruir de tudo que ela pode dar parece que se está colocando um chantily muito bom em cima de um bolo que tiraram do forno antes de assar direito: estraga o bolo e o chantily.
É preciso estar maduro, com trabalho definido, afetividade satisfeita para então a erva ter o efeito de expansão. Antes disso é roubada.
Maconha devia ser prêmio e não meio de vida.
Acho uma pena o estrago que a maconha faz na produtividade e na perseverança de algumas pessoas talentosas, assim como acho muito bom o adianto que a maconha faz na cabeça de pessoas que ainda não sacaram o tamanho e a beleza da viagem que temos por fazer.
Acho pobre a idealização da maconha e a estética desencanada inconseqüente que ela cria.
Esta estética revela uma ética corrompida de não se importar nem se abalar com as coisas mais chatas e difíceis da vida como se fosse possível passar por esta vida com esta insustentável leveza do ser.
Se tem uma bandeira que vale a pena carregar nesta história não é a da maconha – que até acho legal apoiar para questionar e oxigenar o sistema mas não como causa em si- mas a bandeira da consciência que é uma coisa cada vez mais necessária para que todo esse poder colocado em nossas mãos não destrua nossas cabeças, nossas relações e nosso planeta.
Maconha, trator, dinheiro e energia nuclear corrompem como o poder político. Se o indivíduo não está preparado, é o fim, é a corrupção.
Como saber isso antes de experimentar?
Infelizmente, Paulo, acho não temos outra alternativa do que correr o risco da experiência.
Às vezes eu fico querendo ter o poder para alterar o mundo e colocar tudo no seu devido lugar e garantir a evolução sem o risco da devastação.
Mas este poder não existe. O que existe é um caminho a caminhar.
Em todo caso, se meu depoimento pode fazer alguma diferença e diminuir o risco, aí está.
Fica com o abraço do amigo,
Ricardo *
out.98

* Ricardo Guimarães é diretor da agência Guimarães Profissionais.

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