por Luiz Alberto Mendes

Em mim é profunda a certeza de que conviver não é possível e necessário

Vivemos estupidificados pela urgência de nossas vidas. Aceitamos o intolerável e o inconcebível. Delegamos decisões, poderes e a condução de nossa existência a um bando de patifes que vivem a nos enganar. Estamos convencidos de que nossas ações são o resultado de nossas escolhas, de que estamos atentos, espertos, de que somos conscientes. Achamos que somos seres determinados, imaginamos que temos noção de nós mesmos, que somos capazes de autocrítica e que possuímos livre-arbítrio.

Somos muito pouco conscientes do que somos, do que acontece, e as decisões nem sempre dependem de nós. Caso dependessem, estaríamos mais perdidos ainda. Mas, quando nos aprofundamos, damos de cara com o fato de que a ideia que temos de nós mesmos é falsa, de que nossas vidas são feitas como sonhos fragmentados e nossos desempenhos são bem pouco conscientes.

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Convivemos mal e culpamos o outro por isso. Brigamos e nessa hora esquecemos moral, ética e respeito. Não sabemos conviver, somos aprendizes da maior das artes: a emoção de estar com os outros. Em mim é profunda a certeza de que conviver não só é possível como necessário. Que, inclusive não há dúvidas, as pessoas que vivem conosco são as que mais necessitam de nós. Não consigo crer que haja algo mais importante do que aprender a tratar as pessoas com as quais convivemos, com respeito, carinho e até toda doçura que formos capazes. Todos merecemos esse tratamento. Não só merecemos como carecemos.

No fim das contas, a gente percebe que as pessoas não estão contra ou a nosso favor. De fato, elas não querem nem saber, de tão absortas em si mesmas que estão. Vivemos muito mais dentro de nós mesmos, imersos em um vendaval interior que nos retém a pensar. Atravessamos paredes, vazamos túneis e quebramos pedras para chegar até o outro. Depois aprendemos que nossa liberdade vai só até onde começa a do outro. Então o outro a limita? Absolutamente não. Na convivência amorosa expandimos, crescemos. A vida é complexidade e vem assim bêbada como um soco na cara.

O momento que passa é inquietante e infinito como um animal que trepida como um trem. Compreendo melhor assim a vida: caótica, difícil, dolorida de pedra, incompreensivelmente bela e “sempre desejada, por mais que esteja errada”, como diria Gonzaguinha. E as pessoas mais ainda. São o que há de melhor e pior na vida para nós.

Fizemos uma sociedade que luta para se apartar do sofrimento e se esconde da miséria. Mesmo por isso, uma sociedade cruel e desumana. 

Na verdade, a convivência é a única saída, mas estamos divididos e lutamos contra o maior de nossos temores: a exclusão social. Isso porque vivemos como se não fôssemos os sujeitos de nossas histórias. O que temos e somos jamais nos basta e nos conformar provavelmente não é a melhor resposta. Mas o sentimento de estar vivo com os outros ainda é surpreendente. Ele, o outro, é um mundo à parte, do qual não faço parte, mas quero fazer. Parecido comigo, mas totalmente diferente de mim. Existem poucos lugares onde o que acreditamos atinge uma tangência em que os outros acreditam também, para que possa haver diálogo e convivência, na religião, na família, na cidade materna, na casa em que vivemos. Na escola, na faculdade há muita discussão, mas há uma comunidade para quem deseja participar. Convivência é um ganho da força de vontade que se transforma em simpatia e benevolência.

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