por Millos Kaiser
Trip #181

Damião “Experiença” já foi cafetão, marinheiro, músico e vive no imaginário Planeta Lamma

Domingo radiante, Ipanema lotada, Dia dos Pais. Um senhor de 75 anos, com dreads grisalhos e barba enrolada formando uma espécie de colar, grita: “Feliz dia dos cornos!”. As pessoas riem e cumprimentam a figura que zanza pelo bairro há cerca de cinco décadas. A história de Damião Ferreira da Cruz, autobatizado Damião “Experiença”, começou em Lauro de Freitas, Bahia. Com 13 anos, fugindo das surras dos pais, caiu no Rio de Janeiro – e na esbórnia. Morou na rua, amigou-se com prostitutas e virou gigolô, atividade que exerceu também em Trinidad e Tobago e Holanda. “Minha vida toda fui sustentado por mulher. Agora tô velho, brocha, estragado e sem dinheiro para comprar mulher”, reclama. Foi operador de radar na marinha, mas desertou para morar com uma mulher numa palafita. Demorou 15 dias para se arrepender e voltar para o serviço. Pegou seis anos no presídio naval. Recluso, começou a compor, pintar e criou o planeta Lamma, que tem até dialeto próprio. “O Planeta Lamma fica 27 palmos debaixo da lama. Não tem fulano, não tem sicrano, todos somos do planeta Lamma. Pode ser ladrão, pode ser barão”, explica, cantando.

CAOS ORGANIZADO
A revelação lhe rendeu inspiração para, estima-se, 28 discos (cada hora ele diz um número) compostos, gravados, embalados e distribuídos por ele, usando o dinheiro da cafetinagem. Em sebos cariocas, não saem por menos de R$ 100. Sua música é uma mistura de repente com blues, rock, folk e música erudita. As letras, em português e no dialeto Lamma, são criadas na hora.

Atualmente, mora com “uma piranha aí” numa chácara na Barra da Tijuca, já que seu apartamento de três quartos em Ipanema tornou-se inabitável, tamanha a quantidade de tralha enfurnada. O repórter aqui, mesmo magro, mal conseguiu abrir a porta e, ao tentar entrar, afundou-se num emaranhado sem fim, do chão ao teto, de sacolas plásticas, caixas, roupas e bugigangas. Um caos organizado e, acredite, cheiroso. Seu estúdio, que fica em um dos cômodos, não recebe visitas há mais de três anos, e o mesmo acontece com os banheiros. No meio de uma pergunta, Damião pede licença, vira-se de costas, urina num copo de plástico e joga fora no lixo do prédio.

Ídolos? Hitler, Mussolini e Stravinsky. Damião se diz nazista. E judeu. Além de ter ideias pouco convencionais sobre o amor: “Homem que gosta de mulher hétero é gay, porque você chega em casa e vai encontrar ela com um homem.” Ou esta: “Se você não casar com mulher virgem, já é corno, já comeram sua mulher”. No planeta Lamma, lógica não é o forte.

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