JOGOS DE SALÃO E IMPOTÊNCIA
Sexta-feira, fomos todos atirados na água fria, a dar braçadas desencontradas, diante de nossa imperfeição
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Nunca gostei de jogos de salão.
Por mais que Batalha Naval, Monopólio, War, Jogo da Memória e outros possam ter seus lados instrutivos, nunca me convenceram de que pudessem ser mais interessantes do que qualquer coisa que estivesse acontecendo lá fora, em tempo real.
Ainda hoje, quando abro os jornais e vejo os absurdos de Jader, FHC e seu apagão, a disparada repentina do dólar e a recessão que chega de afogadilho, tenho a impressão horrível de que os dados do Brasil caíram (ou foram lançados novamente) de mal jeito levando nossos peões verde-amarelos de volta àqueles malditos quadradinhos vermelhos nos quais se lê: ‘Volte vinte casas do tabuleiro’.
Mesmo os jogos um pouco mais ativos como a sinuca , o ping-pong e o pebolim, nunca me pegaram.
Em geral, perdia. Por distração quase sempre. Lembro-me de ver o adversário encaçapando as bolas de bilhar e vencendo inapelavelmente, enquanto eu observava o espreguiçar de um cão Basset. Outras vezes eram saques que passavam por mim, menos pela falta de capacidade de respondê-los, e mais pela beleza dos pingos da água de chuva que escorriam pelo vidro embaçado da porta.
Esses jogos, quando os puxo na memória, vêm sempre colados a arquivos ligados a férias e mar. Como fui atirado desde cedo ao treino de guerra das boas escolas que preparam soldados para entrar cedo no campo de batalha da competição, jogos de tabuleiro só eram cogitáveis nos curtos períodos em que não havia provas, pesquisas, dossiês e lições com as quais me preocupar.
Água Fria
Assim, tentando me desvencilhar da chatice dos tabuleiros e da vida pré-programada, me lancei ao mar aos 13 anos, interessado pela beleza indescritível do oceano.
Passados mais de vinte e cinco anos, continuo sempre que posso bem perto da água salgada. Desfrutar do mar por tanto tempo leva, invariavelmente, a conhecê-lo com certa intimidade, inclusive no que tem de mais aterrorizante.
Pelo menos duas vezes, estive sozinho e com poucos recursos de apoio (para não dizer perdido), a uma distância da costa suficiente para cogitar o fim. Numa delas, em Peñascal, um lugarejo no Peru, fazia muito frio e era noite aberta. Ao contrário do que ocorreu sexta passada com João Paulo Diniz , Fernanda Vogel e os dois pilotos, eu estava em situação bem mais confortável. Usava uma roupa de neoprene que conseguia manter razoavelmente alta a temperatura do meu corpo, e, mais do que isso, dispunha de um objeto flutuante e hidrodinâmico amarrado ao tornozelo sobre o qual meu deslocamento era rápido, desde que a favor da corrente. Com todo esse ‘handicap’, me lembro sempre que olho para o mar à noite de como rondou minha cabeça o gosto pestilento do pânico. É como uma espécie de cócegas do mal. Algo que surge do nada e vai se tornando irresistivelmente insuportável, até que derruba sua última defesa, tomando conta do restinho de razão renitente, e levando ao desespero e à entrega total.
A comoção que fez milhões de pessoas se solidarizarem com o drama vivido este final de semana é compreensível, já que não é preciso ter estado perto de uma situação parecida para sofrer junto.
Sexta-feira, fomos todos, por tabela, atirados na água fria, a dar braçadas desencontradas, diante de nossa impotência, imperfeição e transitoriedade, frente às leis que não formulamos. É que no fundo sabemos que mesmo não sendo tão belos e ricos estamos exatamente no mesmo barco ou helicóptero em que viajam todos os outros. Sob controle e altivos num momento; sós e completamente desamparados em seguida.
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