por Ricardo Calil
Trip #197

Entrevistamos o João Gilberto do Facebook, que tem 5 mil amigos que vibram com seus posts

João Gilberto tem 5 mil amigos no Facebook que vibram com seus comentários como se fosse uma gravação nova do mestre. Mas amigos do cantor garantem que o perfil é fake. Como dizia um faroeste: se a lenda for mais interessante que a realidade, imprima-se a lenda. Nós entrevistamos a lenda

 

 

Na semana em que saiu a notícia de que sofria ação de despejo, João Gilberto Prado Pereira publicou no Facebook: “o mun.do es.tá cru.el tal.vez por.que as pes.soas es.tão cruéis. pre.cisamos reapren.der a A.m.a.r! o a.m.o.r. ven.ce tu.do ne? Eu gos.to de vo.cês. ca.ri.nho. João” (sic). Dos seus 4.995 amigos na rede, 211 curtiram e 93 comentaram o post. Algumas mensagens: “A recíproca é verdadeira grande MESTRE!!! Beijo no coração!!!”; “João, que palavras lindas. Você é profeta imprescindível, o Homem da Palavra Certa, sempre!!!!!!!!!!!!!!!” e o sucinto “♥♥♥♥”.

Só que pessoas próximas ao João Gilberto real garantem que o João Gilberto do Facebook é fake. Claudia Faissol, mãe de sua filha Luiza e diretora de um documentário em produção sobre o cantor, diz que João não tem computador nem interesse pela internet. Miúcha, amiga e ex-mulher, dá risada ao ler sobre o João do Facebook. E, em duas raras entrevistas, para a coluna de Ancelmo Gois no jornal O Globo e para Veja Rio, o próprio João negou relação com o perfil (já o João do Facebook negou a negativa).

Por outro lado, gente que teve contato com João, como os músicos Danilo Caymmi e Jaques Morelenbaum, garante que há indícios de que é o verdadeiro. “Comecei achando que era real, como vários amigos do João. Agora acho que é falso. A Bebel [Gilberto, filha de João] acha que não é ele. O Otávio Terceiro [agente do cantor há 40 anos] me garantiu que não é”, conta o músico Daniel Jobim, neto de Tom.

“Quando falei que podia ser fake, o João do Facebook postou mensagens falando mal de mim.” Várias vezes citado no perfil do Facebook, o músico Roberto de Carvalho, marido de Rita Lee, lava as mãos: “Só João Gilberto pode confirmar se é falso ou não”.

Aqueles que acreditam se tratar do verdadeiro João argumentam que o perfil traz muito bastidor e detalhes íntimos que só o cantor saberia, que ele estaria sendo auxiliado para postar mensagens e vídeos (os administradores dá página chamam-se Hugo Grimaldi Filho e Chris Lessa e não dão entrevistas), que João é tão imprevisível que pode estar pregando uma peça nos desavisados com a ajuda de alguns amigos.

Claudia Faissol rechaça. “A gente desconfia de quem faz o falso perfil, mas não podemos acusar ainda. Quem o conhece sabe que ele não usa aquela linguagem.”
Se não for mesmo o João, trata-se de um cover sofisticado e um fã apaixonado, que estudou a fundo a vida e a obra do cantor e pode conhecer pessoas do círculo íntimo dele. Mas também é alguém que foi muito ajudado pelo fato de que quase ninguém conhece a privacidade do João real, de que sua rotina está envolta em mistérios.
A Trip tentou entrevistar o João verdadeiro sobre o João do Facebook. Como o cantor não respondeu, entrevistamos, por e-mail, o João do Facebook. E caprichamos em um ensaio fotográfico com um display do gênio.
As respostas são ricas em detalhes. Mas o entrevistado dá munição a quem não crê em sua autenticidade. Diz que Claudia Faissol sempre leva sua filha até seu apartamento. Ela confirma que vai muito ali... mas nunca viu João brincando no Facebook, nem sozinho, nem com ninguém.
Por que o senhor escreve no Facebook dividindo as palavras com pontos?
Porque confidenciei a amigos que em alguns momentos ia colocar o ponto exatamente entre determinadas sílabas e letras, pois evitaria de algumas pessoas se passarem por mim. Esses dias apareceu um que dizia ser eu. Logo foi desmascarado pelos amigos que sabiam dos pontos.
Qual é a verdadeira razão do problema imobiliário em que o senhor se viu envolvido?
Em plena República, uma condessa decidiu me despejar após 16 anos. Disse que eu não permitia pedreiros no apartamento. Num sábado às oito da manhã a sirene da porta tocava e batiam com grosseria. Os pedreiros queriam pintar a varanda. Pedi que voltassem segunda. Não voltaram. Me parece que ela quer holofotes.
Algumas reportagens falavam em dificuldades com dinheiro. Como está sua saúde financeira?
As pessoas pensam que todo artista, porque fica famoso, está rico. É um engano dos maiores! O Caetano, por exemplo, se não fosse a sua ex-esposa, viveria de miúdos. Tive dois casamentos e tenho três filhos. Gasto com remédios, com família, e tenho feito poucos shows. Não estou em boa fase financeira, me contento com pouco, sabia? As coisas mais bonitas estão nas coisas mais simples.
Nas reportagens, o senhor costuma ser pintado como uma figura excêntrica e reclusa. O que acha disso?
Gozado isso, né? As pessoas acham que recluso é ser antissocial. Eu recebo amigos em meu apartamento, mas sou caseiro, gosto de tocar violão, de ler meus e-mails, de assistir a telejornais, como tantas outras pessoas. Agora, se ser recluso é não gostar de restaurante, bares e festas de alta sociedade, então deixem me chamar de recluso.
É verdade que o senhor só sai de casa para fazer shows e outras ocasiões especiais?
Mentira. Tem o seu Valdo, um taxista amigo de anos, que sempre que preciso vem me buscar para ir a algum local em que tenho de estar. Quando eu ainda dirigia, eu subia a serra das Araras de madrugada e ia tomar café da manhã numa cidadezinha perto de Volta Redonda, chamada Arrozal. A moça fazia um doce de jenipapo maravilhoso. Saía pelo Rio à noite, de carro, ia de Copacabana a Barra, de vidro aberto. Mas o Rio ficou perigoso. Eu parei de dirigir por causa da idade, o reflexo não é o mesmo de 15, 20 anos atrás, né?
O senhor já experimentou alguma droga? A cannabis sativa pode ajudar no processo de composição?
O nome já diz tudo: droga! O problema é que alguns escritores criam histórias, publicam em livros, e uma mentira acaba virando uma falsa verdade.
O senhor é um pai presente, do tipo que trocou fraldas e deu mamadeira, para sua filha Luiza?
A mãe sempre traz ela aqui. A gente pinta nuns brinquedos que acompanham lápis de cor, assistimos a desenhos animados na TV, mas isso de trocar fraldas, de mamadeira, não. Ela já tem quase 6 anos.
Quais são os novos artistas brasileiros que o senhor gosta de ouvir? O que o senhor acha de fenômenos como Luan Santana e Restart?
Quem são Lua Santana [sic] e Restart? Não conheço. Nunca ouvi falar. Gosto do timbre daquela moça louquinha, mas tem uma voz das cantoras negras da América, a tal da Amy, mas não fico escutando. Sempre ouço Tom Jobim, Caetano, Gal Costa, Caymmi, Rosa Passos.
É verdade que o senhor gosta de ver lutas de vale-tudo na TV?
Assisto tudo. Você sabia que o boxe e a luta livre são como uma dança? Tem harmonia, basta ter sensibilidade para ver que aquela ginga é bela. Eu fiz shows no Japão e fiquei impressionado como os japoneses gostam de nossos lutadores. Sabia que o Minotauro é baiano? No Japão eu comprei um bonequinho do Minotauro.
O que o senhor faz para se manter saudável?
Pratico kriya ioga, que aprendi com um mestre num templo hindu em Los Angeles, o Self-realizantionship. Você já leu Autobiografia de um iogue, do guru Yogananda? Quando eu li esse livro no México, fiz a valsa “Como são lindos os iogues”. Medito todos os dias pelo menos quatro horas. Agora com essa coisa de despejo, estou desconcentrado e triste.
Tem medo da morte?
Nem um pouco. A alma é imortal, nunca nasceu, nunca vai morrer, o corpo é um empréstimo transitório que a natureza nos dá. Quando você nasce, você chora, sente frio,  sai de um  abrigo tão bonitinho que é o útero para uma vida fria, cruel, com dificuldades, para aprender. Talvez a morte seja como o momento do nascimento, só que você vai para outra morada do Pai. 
Depois que o João do Facebook enviou a entrevista, pedimos, via Claudia Faissol, que o João verdadeiro comentasse. Mas, sempre desconfiado da imprensa, ele não se manifestou até o fechamento desta edição.
E, quando voltamos a entrar em contato com o João do Facebook para dizer que amigos do cantor duvidavam de sua autenticidade, ele não respondeu mais os e-mails. Daniel Jobim já avisa: “Quando sair a matéria, pode ter certeza de que ele vai falar mal no Facebook, como fez comigo. Talvez isso seja a prova de que é um fake. O João real não é dessas coisas”.
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