Irmãos, coragem
Após dez anos, Iggor e Max Cavalera se encontram cara a cara pela primeira vez. Mais do que lavar roupa suja ? e velha ?, os irmãos começam a armar um plano musical ?para a destruição total da Terra?: juntos, como eles fizeram com o Sepultura, que ag
Por Redação
em 9 de outubro de 2006
Por Endrigo Chiri Braz // Fotos Laima Leyton
No começo da década de 1980, em Belo Horizonte, quando Vânia Cavalera via os filhos Igor e Maximiliano, por volta de 12 anos, confabulando sobre a criação de uma banda de heavy metal, não poderia imaginar que o plano um dia separaria os dois. Aconteceu. Em 1996, por conta de desentendimentos com a empresária do Sepultura, Glória, também mulher de Max, o frontman foi afastado do primeiro grupo de rock brasileiro a conquistar o mundo. Daí em diante, tudo que Vânia mais quis nesta vida era ouvir o seguinte diálogo:
– Max, vou dar um pulo aí, quando acabar sua turnê, pra gente trocar umas idéias… independente do lance de banda, só de um lado pessoal, de família mesmo, certo?
– Olha só, vou ter uma semana de folga e vou fazer um show em Phoenix, então vai ser perfeito. Você pode vir e ficar junto, que acha?
– Beleza! De repente até vou ver o show…
– Participa do show, faz um som, pô.
Porém, para felicidade geral de Vânia e de toda a nação metaleira, depois de dez anos de agonia e ansiedade, este encontro finalmente aconteceu, mês passado, nos Estados Unidos. A seguir, Iggor conta com exclusividade para a Trip como foi dividir o palco novamente com Max, no deserto do Phoenix – bem longe da imprensa.

Back to the bloody roots: após dez anos, Iggor e Max Cavalera tocam juntos pela primeira vez, em agosto, no festival beneficente D-Low Memorial, organizado por Max para ajudar crianças com
diabetes, em Phoenix (EUA)
Como rolou sua visita ao Max? Tudo meio que conspirou. A idéia inicial era ir trocar umas idéias com meu irmão. A gente vinha se falando bastante por telefone, eu já de saco cheio da banda há um tempo, queria fazer coisas novas. Aí decidi sair da banda, liguei para o meu irmão e disse que queria ir. Depois ele me ligou dizendo para participar do show… Se eu tivesse ido só para trocar idéia, ninguém ficaria sabendo. O fato de termos subido juntos no palco, dez anos depois, virou um pandemônio!
Sem terem divulgado para ninguém… Até achei que pudesse escapar, já que o Max estava fazendo shows, mas ele também manteve segredo. Tanto é que muita gente não estava acreditando, os moleques diziam: “Olha lá quem está no palco!”. Piraram! Nessa idéia, uma pessoa que me ajudou bastante foi o Turco Loco, que me dá uns toques num monte de coisa. Ele falou: “Para você continuar suas coisas, precisa sentar com o seu irmão e colocar tudo em pratos limpos”. Um conselho que veio numa época em que eu estava desencanado de tudo, queria ficar uns anos com a minha família. Aí o Turco me deu essa luz e fui. E o legal é que essa viagem jogou uma gasolina na fogueira da vontade de tocar, de falar “dá para fazer um lance legal”. Comecei a conversar com meu irmão a respeito de criar juntos, o que gerou um lado de a gente trocar uma idéia um pouco mais profissional. E o Turco Loco achava que eu deveria registrar o encontro de alguma forma: “Muita gente ia pirar muito de ver isso de algum jeito numa revista”. Aí minha namorada, a Laima, foi comigo e pedi para ela fazer as fotos. E a gente ficou com esse registro para a usar do jeito que a gente quisesse, sem ter vínculo com ninguém. Uma coisa nossa, que eu acho interessante não só para os fãs mas para as pessoas em geral, que fazem parte dessa história.
Como foi a conversa? O lance que rolou, que foi o mais chato da história toda, foi com a mulher dele, de ela ser a empresária e a gente achar que não estava sendo legal na época. Isso criou um puta mal-estar. O Max falou: “Ou vou ficar com a minha mulher, ou com os caras e, porra, vou me fuder”. Ficou numa situação horrível, mas que não chegava a ser uma treta, de bater boca. Era um lance que saía na mídia: um falava uma coisa, outro falava outra e aí virava um clima tosco. Agora a gente trocou uma idéia legal, e não só pela parte do “vamos fazer um lance juntos”, que era um desejo meu e dele. Em todas as entrevistas, a gente sempre expressou isso. Ele nunca falou: “Estou bem com o Soulfly, não quero mais ver meu irmão”, ou eu: “Estou bem com o Sepultura, meu irmão faz o lance dele e foda-se”. Ele sempre falou que ia ser legal tocar junto, alguma hora. Só não sabíamos como seria o formato ou a hora. Aí colocamos tudo isso em dia. Ano que vem, vamos sentar e fazer um plano para a destruição total da Terra! [Risos.] A gente sabe que nossa química é foda. Desde molequinho, tínhamos uma visão que era única dos dois. Isso daí vai ser legal pra caralho retomar.
Passaram um tempo sem sequer falar ao telefone? [Pensa] Não. Com meu irmão eu falava, mas é lógico que o contato ficou mais distante. A gente se falava muito menos do que, por exemplo, hoje em dia. O mais legal disso é que, nesse período de dez anos, nunca falamos em música. Todas as conversas foram sobre família. Ele nunca falou a palavra “Sepultura” nem “Soulfly”, sempre foi “filhos”, “minha irmã”, “minha mãe”… Só.

Da esq. para a dir., Iggor, o já metaleiro e sobrinho Igor e Max; a família mais porrada da MPB (Música Pauleira Brasileira) descarregam as clássicas “Roots Bloody Roots” e “Attitude”, do Sepultura
E como sua mãe recebeu esse lance do reencontro? Minha mãe estava muito ansiosa. O que ela mais queria era ver a gente junto de novo. Sempre fomos muito unidos, desde molequinhos, do futebol até começar esse lance de banda. Para minha mãe, a pior fase da vida dela foi ver a gente separado. Hoje está perfeito, ela está pirando. Agora minha irmã mais nova está grávida de novo, morando em Nova York. As coisas estão conspirando para uma união maior.
A sua mãe não via vocês juntos havia dez anos… É. Pra gente, é o que é. É sofrido, mas pra ela era mil vezes pior.
“O mais legal disso é que, nesses dez anos, nunca falamos em música”
os irmãos voltam a dividir o backstage
Nunca havia passado pela cabeça dela que isso poderia acontecer… Com certeza. Mas hoje ela entende um pouco mais. Ela teve que passar por tudo isso para que, hoje, eu e meu irmão consigamos sentar juntos e ter uma cabeça mais legal para lidar com toda essa maluquice.
Fala desse show que fizeram juntos em Phoenix. O Max ajuda várias instituições porque o Igor [filho de Max] tem diabetes. Logo que ele descobriu, se engajou com várias pessoas, não só do hospital em que ele trata o Igor, mas com toda a molecada com diabetes da escola, de vários lugares. Então, decidiu fazer esse show [D-Low Memorial] e toda a grana vai para ajudar essa molecada.
Como foi o reencontro com a Glória? Você não havia mais falado com ela? Para falar a real, eu retomei com ela antes. Comecei a conversar com a Glória pra caralho, falar sobre várias coisas. Isso foi o principal para a gente ter esse relacionamento hoje, de lavar a roupa suja mesmo.
Você fala de lavar a roupa suja do caso Sepultura? Falar de tudo. Não tinha como fingir que esqueceu o passado. A gente trocou idéia de tudo.
E como foi ver os seus sobrinhos de cinco anos já com 15 anos? Loucura, cara! Os moleques que eu pegava no colo nem falavam, agora o Zyon anda de skate pra caralho. Troquei altas idéias com ele. Tem uma conexão. Até hoje piro com skate, meus filhos andam, vou direto ao parque com eles. E com o Igor tem o lance de banda. Ele queria que eu desenhasse um logo para a banda dele, que chama Cholesterol, aí fiz um puta logo retardado, que tem um emo morto. Ele pirou! [risos] Para um tio que de repente sumiu, teve uma conexão legal…
Os moleques poderiam ser seus filhos. Têm os mesmos gostos… Total. Meu irmão é superligado nas mesmas coisas que eu. Isso foi legal de ver: os moleques não são ligados em beisebol [risos]. E poderia rolar isso facilmente, ainda mais morando nos Estados Unidos. Para mim foi legal eu poder me integrar com os moleques.
E seus filhos conhecem os primos? Tem mais essa conexão para fazer? Conhecem só por fotos, vídeos… A gente vai armar essa conexão. Isso aí é rapidinho. A gente tem planos de meu irmão vir pra cá…
Há quanto tempo ele não vem? Vai fazer quase dez anos [pensativo]. Acho que foi para o primeiro Abril pro Rock depois que o Chico Science morreu e só. Ele nunca mais veio para o Brasil. [N.R. Na verdade, o Soulfly tocou na edição de 2000, trêsanosapós a morte de Science.]
E o filho dele se chama Igor por sua causa? É, o Igor é por minha causa e o Antonio [filhocaçula de Iggor] é por causa do meu irmão, Maximiliano Antonio, e também porque meu avô se chamava Antonio.
E desses projetos futuros, você e o Max já têm alguma coisa direcionada? O formato, não decidimos. Não sabemos o que vamos fazer exatamente. A gente só sabe que ano que vem queremos estar juntos.
Continua tocando bateria diariamente? Não tem perigo perder a mão? Não dá, cara. Tenho uma batera eletrônica em casa, dá para escutar perfeito. Fico tocando com meus filhos, ensinando uns beats… Mas, tocar batera mesmo, sempre pinta alguma coisa. Fiz agora uns projetos com o Zé Gonzales, gravei um acústico com o Lenine, toquei no show do Apollo Nove, uns projetos de fora… Estou sempre no estúdio pra gravar alguma coisa de batera.
O Andreas e o Paulo souberam do seu reencontro com o Max? Nem. Ficaram sabendo pela Internet, telefonemas, fofocas… mas ontem, quando falei com o Andreas, conversamos sobre isso.
Ele curtiu? Achou legal que eu tenha ido falar com o meu irmão. Não tem drama!
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