por Henrique Goldman
Trip #200

Henrique Goldman: O mundo mudou e foi ficando cada vez mais cínico e careta

Não fui só eu - que hoje em vez de tomas drogas prefiro malhar na academia - que mudei. O mundo também mudou e foi ficando cada vez mais cínico e careta

Numa madrugada em 1977, esperando por um ônibus na avenida Paulista, conheci um hippie holandês que perambulava pela América Latina e ficamos muito amigos. Apresentei ele para a galera e o levei pras baladas. Era um cara inteligente e engraçado, que contava aventuras incríveis. Tinha fumado ópio no Nepal e tomado peiote num deserto mexicano. A simples menção desses lugares e dessas drogas já nos dava barato.

O holandês ficou umas semanas em São Paulo e logo foi para a Bolívia. Passados alguns meses, ele nos mandou de Amsterdã pelo correio um disco de vinil do King
Crimson, de capa dupla. Na dobra da capa dupla tinha um canudo fechado dos dois lados. O canudo continha uma carga muito valiosa: três pedrinhas de LSD! Naquela época, no Brasil – e ainda mais para um bando de moleques – tomar LSD era um sonho inatingível, inspirado pelos livros do Aldous Huxley e do Timothy Leary. Que grande tesão!

Eu, o Pimenta e o Serginho nos mandamos para a Barra do Sahy. Naquela época, muitas praias do litoral norte de São Paulo só eram acessíveis através de trilhas na mata, ainda eram desertas e paradisíacas, o lugar ideal para a nossa primeira trip. Chegamos com nossa barraca, nossos violões e as pedras preciosas de LSD.

O dia seguinte amanheceu ensolarado e de café da manhã tomamos os ácidos e de cara fumamos um beque (que na época chamávamos de “bêisi”). A primeira e inesquecível sensação foi um cair de ficha fenomenal, a tomada de consciência de que nada existe de verdade, de que o mundo é uma ilusão animal, uma piada divina, protagonizada por homens, bichos e coisas. Passamos muitas horas fechados na minúscula barraca, rindo convulsivamente de tudo e de nada.

Entre os nossos mantimentos, trouxemos uma caixa de doce de caju cristalizado. A marca era Palmeirón. Nunca tínhamos ouvido esse nome antes e o próprio som da palavra Palmeirón era uma viagem absurda. Ficamos um tempo repetindo a palavra Palmeirón como se fosse um mantra. Logo percebemos que a caixa de doce de caju cristalizado tinha um cheiro peculiar e entramos numas de que cheirar a caixa de doce de caju nos fazia viajar ainda mais alto.

Foi aí então que tivemos a epifania. Sentimos a presença de Deus, claramente entre nós. Era um Deus anárquico e ridículo mas imensamente sagrado. Ficamos horas fechados naquela barraca, cheirando a caixa de doce de caju, fumando um beque atrás do outro, nos deleitando na imanência daquele Deus psicodélico.

Quando finalmente resolvemos sair da barraca, o sol mais lindo do mundo nos esperava, se pondo, redondo e dourado, atrás do mar. Nos ajoelhamos na areia e nos prostramos, comovidos com a beleza e sacralidade da ilusão que chamamos de mundo e de Deus. Com lágrimas nos olhos, batizamos nosso deus de Deus Caju-Menino.

Contra a caretice
Para a minha geração tomar drogas era – muito além do barato em si – um gesto anticonformista, um ato de adesão à contracultura e à revolução sexual, um grito rebelde contra a caretice da burguesia e a burrice da ditadura militar.

Não fui só eu – que hoje em vez de tomar drogas prefiro malhar na academia – que mudei. O mundo também mudou e foi ficando cada vez mais cínico e careta. Sei que o meu papo é bem de tiozão mas sinto muitas saudades de quando sonhava-se mais com coisas que não têm nada a ver com poder e dinheiro.

*Henrique Goldman, 48, cineasta paulistano radicado em Londres, é diretor do filme Jean Charles. Seu e-mail é hgoldman@trip.com.br

fechar