Logo Trip

O plano do Google para uma internet sem cliques

De assistentes de voz aos óculos inteligentes, o especialista Rodrigo Labanca revela por que o maior buscador do planeta quer que você pare de abrir sites.

Ilustração representando o Google, inteligência artificial e a evolução da busca para interfaces sem cliques

Créditos: Unplash


em 3 de junho de 2026

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

De assistentes de voz aos óculos inteligentes, o especialista Rodrigo Labanca revela por que o maior buscador do planeta quer que você pare de abrir sites.

O ano era 2019. O que vou escrever aqui sobre inteligência artificial tem relação com o surgimento de uma internet sem cliques. Afinal, foi em 2019 que comprei minha primeira Alexa. Esses dispositivos ativados por voz que dispensam o toque fazem parte da minha vida desde então: ouço música e podcast sincronizando todos os aparelhos da casa, crio lista de compras de mercado, controlo boa parte das luzes e por aí vai.

Foi também em 2019 que eu precisei lidar (novamente) com o desafio de atualizar a tecnologia de busca dos sites. Na época, eu liderava a área de produto dos comparadores de preço Zoom e Buscapé. Era minha segunda vez fazendo praticamente uma cirurgia no coração dos produtos.

Leia também: Especialista digital alerta: é preciso aprender a desligar

De volta a 2019, uma coisa me surpreendeu: o Google mudou O SIGNIFICADO do que considerava uma busca bem sucedida: decidiram que precisavam aumentar buscas sem cliques! 

Sendo um profissional da área, ter um entendimento profundo sobre os critérios de sucesso e métricas de busca era parte do escopo. Ao estudar como as referências do mercado medem o sucesso, no primeiro projeto de busca em que trabalhei (em 2016), todo mudo fazia igual: sempre se media coisas como percentual de cliques nas primeiras posições da página de resultado, a quantidade de buscas que não retornavam nenhum resultado e por aí vai.

Mas se o dinheiro deles vem daí…

… por que diabos o Google não quer mais que a gente clique nos resultados de busca? (escrevi um texto no LinkedIn naquela época com este título).

Minha primeira hipótese eram os componentes ricos que já apareciam com mais frequência no topo do resultado. Este tipo de componente já existia no Google há algum tempo, mas eles começaram a ser bem mais comuns a partir de 2017 e já resolvem a vida das pessoas sem que precisem ir para outro site.

Como alguém que trabalha com produto digital há milênios, sei que uma mudança no critério de sucesso como essa não era feita de supetão: era necessário MUITO TESTE (ainda mais em uma empresa do tamanho do Google e que afetaria diretamente a maior fonte de receita da empresa). Com certeza minha hipótese era furada… esses componentezinhos são muito “bobos” para causar uma mudança tão grande.

Pensei: tem que ser algo mais estratégico.

Minha conclusão naquele momento foi que esse tipo de mudança não vem por aprendizados do passado e sim para moldar o futuro da empresa.

A partir da constatação (de que era mais sobre o futuro do que sobre o passado), comecei a vasculhar as tendências e uma delas foi a que me chamou mais atenção: no-interface.

Leia também: Uma especialista em mentiras encara as big techs

Eu já tinha lido sobre essa tendência por volta de 2017 e a ideia é basicamente a capacidade de controlar o software através de linguagem natural ou outro tipo de comportamento que não envolvesse uma tela propriamente dita (lembrando que o filme Her foi lançado em 2013).

Foi aí que tive meu momento Eureka: só pode ser isso! 

Ao medir a quantidade de buscas que se resolvem sem cliques, o Google se prepara para um mundo onde o conceito de clique simplesmente não existe! 

Naquele momento, apostei que o objetivo do Google era emplacar os dispositivos como Google Nest (concorrente da Alexa, da Amazon) e o Google Glass. Este segundo, que não vingou na primeira tentativa em 2013, mas promete vir pesado agora em 2026 (fonte: Forbes e a BBC).

Realmente acredito que esses dispositivos tem bem mais potencial de vingar hoje! 

E o que mudou de lá para cá? Justamente a tecnologia que permitiu a criação do ChatGPT, do Gemini e do Claude: os grandes modelos de linguagem (ou LLMs), popularmente conhecidos como Inteligência Artificial, IA ou Eiái (A.I. – acrônimo do inglês para Artificial Intelligence, para a galera da Faria Lima que fala 70% das palavras em inglês… brincadeira hehe). 

Tenho a teoria de que o Google não lançaria o Gemini com uma experiência do usuário final parecida com o ChatGPT. Seria algo mais sutil, mas acabou fazendo por pressão de mercado em 2022/2023. De qualquer forma, me impressionou a velocidade de resposta do Google por obviamente ser questão de vida ou morte. A chegada do ChatGPT ameaçava a existência do principal produto do Google: a busca!

Mas quem não estava trabalhando nisso há alguns anos não colocaria uma estrutura dessa no ar tão rápido. Só com dinheiro não resolveria. Nem na força bruta! 

O que pareceu uma revolução que brotou do nada na nossa cara, começou lá atrás há pelo menos 12 anos. Estratégia é um prato que se come frio.