Instagram, o fast-food das imagens

por J.R.Duran
Trip #215

Duran: ”Esses aplicativos para celular tentam legitimar uma emoção que não existe”

Hoje, a qualquer momento, alguém pode puxar um iPhone do bolso e forçar o outro a contemplar fotos sem nenhum interesse. Esses aplicativos para celular tentam legimitar uma emoção que não existe

Pegaram no meu pé, outro dia, porque eu disse que não tinha, não fazia e nem queria ver fotos feitas em Instagram. Que, independentemente de ser fotógrafo ou não, não gostava. Explico por quê. Não me importa a praticidade do Instagram, ele é o fast-food das imagens; tem quantidade, mas não tem qualidade, seja qual for a quantidade de pixels que possui o iPhone ou o celular que deu origem às fotos. Esses equipamentos, por causa das suas restrições mecânicas, têm um problema de delay. O delay é um retraso entre o tempo em que o dedo aperta o botão do disparador e o momento em que o aparelho registra o instante. Às vezes esse atraso é considerável.

Tente capturar de perto uma criança brincando, um amigo jogando futebol, algum momento de ação, de movimento ou de surpresa. É praticamente impossível. As fotos que acabam aparecendo no Instagram, apesar de instantâneas, são em sua maioria estáticas. Paradas. Seja de longe ou de perto, o máximo que se pode conseguir são pessoas fazendo caretas, mas quem acredita que isso é uma foto espontânea não se surpreenda se um dia descobrir que focinho de porco não é tomada.

A incapacidade de capturar essa vivacidade faz com que as imagens percam sua essência, sua alma. E isso não é conversa de índio, de que uma foto rouba a alma, isso é conversa de quem acredita que uma boa foto tem de ter alguma coisa entre seus layers de emoção. Não é um acaso que no Instagram os temas favoritos sejam o prato de comida (não se mexe), o gato olhando para a câmera (não se mexe) e a asa do avião vista através da janelinha (se mexe a uma velocidade de várias centenas de quilômetros, mas o avião que a poltrona do fotógrafo instagramero ocupa também o faz, ou seja, tudo na mesma).

É por isso que o grande trunfo do Instagram são seus filtros. É com eles que se pode aplicar, fabricar uma memória, um passado, uma vida que não existe na foto.

Sejam os anos 70, a saturação pela inversão de revelação, a borda do filme ou o filtro que for. O Instagram tenta legitimar uma emoção que não existe. Não é à toa que a logo do Instagram é uma câmera fotográfica parecida com a falecida Polaroid, e que as cores da logo (vermelho, amarelo, verde e azul) sejam as mesmíssimas que as da Polaroid (menos o azul, que não constava). A fotografia digital instantânea é um oximoro visual.

Peças únicas
O que eu quero dizer é simples: deem para uma criança que só desenhava com lápis preto um estojo de lápis de cor e ela vai achar que todos os desenhos que ela está fazendo são brilhantes.

Tive a infeliz ideia, durante um jantar, de perguntar para a pessoa que estava ao meu lado como tinham sido suas férias. Ela parou de falar, puxou seu iPhone da bolsa e começou a escorregar o dedo sobre a tela do aparelho mostrando fotos inexpressivas dos lugares visitados. Se tivesse se esforçado um pouco e expressado com palavras o que tinha visto, sentido, desfrutado, teria sido mais fácil e agradável de compartilhar. Eu queria ouvir dela, não contemplar, as suas experiências de férias. Uma das coisas de que sempre tive pavor foram as sessões de slides (1) em que conhecidos e familiares projetavam numa tela, ou na parede, as fotos feitas nas viagens. Hoje em dia, a qualquer momento, alguém pode puxar um aparelho do bolso e forçar qualquer um a contemplar imagens entediantes e desinteressantes.

Quero dizer, com isso, que sou um saudosista (2) e as Polaroids eram melhores? A resposta é não. As Polaroids podiam ser tão entediantes quanto as fotos feitas com Instagram, e a qualidade era, com certeza, muito pior, mas pelo menos elas tinham uma vantagem: eram peças únicas.

*J. R. Duran59, é fotógrafo e escritor www.twitter.com/jotaerreduran

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