por Tatiana Ivanovici

O Hutúz fomenta a renovação do rap nacional e se une ao samba para celebrar suas raízes

No fim de novembro, aconteceu no Rio de Janeiro o Hutúz, premiação que homenageia os destaques do hip hop nacional e que no ano que vem completa dez anos. O prêmio faz parte de um calendário de atividades direcionadas à cultura, que acontece durante o mês de novembro, com organização da CUFA (Central Única das Favelas), de MV Bill e Celso Athayde. O Hutúz 2008 teve como tema o Carnaval e reuniu no palco do Canecão artistas do rap e do samba, como, por exemplo, Rappin Hood com Lecy Brandão. A iniciativa do prêmio surgiu quando o hip hop estava no auge, dominando rádios e veículos de comunicação. Um cenário bem diferente do atual, em que o estilo surgido em São Paulo está passando por uma fase de reciclagem, de renovação.

Novos álbuns, artistas e músicas não param de surgir. Um exemplo foi o lançamento de três dos mais importantes representantes da nova geração do rap brasileiro: Rosana Bronks, UTIME e Relatos da Invasão. Todos lançados por integrantes do Racionais MC’s. Mas as festas, os eventos e outras ações ligadas ao crescimento da cultura estão estagnados. A demanda era muito maior há sete anos, mas a cultura ainda resiste, e o Hutúz é um ótimo exemplo. Segundo o idealizador Celso Athayde, “este ano foi importante por termos feito o Hutúz passando por grandes dificuldades, mas foi o ano da alegria, da festa do povo. Tenho um grande orgulho de ter construído essa potência para contribuir com a credibilidade do movimento”.



Se para o hip hop, de maneira geral, a fase é de renovação, uma vertente que está colhendo frutos é a do rap alternativo, representada por artistas como Kamau. O MC da zona norte de São Paulo, indicado em quatro categorias, entre elas Melhor Álbum e Artista do Ano, arrematou o prêmio de Melhor Música por “Poesia de Concreto”, som encontrado em seu recém-lançado disco Non Ducor Duco. “Para mim o prêmio Hutúz integra o hip hop porque proporciona a chance de todo mundo se encontrar”, acredita Kamau. “Eu me surpreendi quando ouvi meu nome... De todas as categorias, essa era a que eu menos esperava ganhar.”

A apresentação do prêmio ficou por conta do sambista Dudu Nobre e da MC Nega Gizza, que também somaram no samba ao cantarem juntos “Singelo Menestrel”, de autoria de Dudu. A grande surpresa da noite foi o empate na categoria Revelação, entre o rapper mineiro Renegado e o grupo paulista A 286. Já o prêmio de Melhor Álbum do Ano foi conquistado pelo Realidade Cruel, com o disco Dos barracos de madeira aos palácios de platina. MV Bill entregou o pandeiro de ouro da categoria Melhor Clipe para o rapper brasiliense Gog, por “Brasil com P”, e aproveitou a oportunidade para mandar um recado para todos os canais de TV que não exibem vídeos de artistas de periferia. O rapper da Cidade de Deus foi ovacionado pelo público. A premiação foi encerrada pela apresentação da bateria da Portela, acompanhada do ator e cantor Sergio Loroza, interpretando “Aquarela do Brasil” e “Cidade Maravilhosa”.

A maior celebração de hip hop da América Latina também reúne diversos artistas no palco do Circo Voador, no que é batizado de Hutúz Rap Festival. Um dos pontos altos do festival foi o show do Big Ben Bang Johnson, formato criado por Mano Brown e Ice Blue do Racionais, que convida o grupo RZO, a ex-Antonia Quelynah, Du Bronk´s do Rosana Bron's e Don Pixote do UTIME. MV Bill também levantou o picadeiro do circo com a apresentação de seu show. Para ele, tocar no Circo Voador é como tocar em casa. E, mesmo tendo relevância indiscutível para a propagação da cultura da quebrada, a organização do Hutúz avisa que em 2009 o evento terá sua última edição. Para Celso Athayde, o Hutúz foi criado para as pessoas perceberem que era possível fazer bem-feito e freqüentar locais consagrados sem manchar a imagem e a história do movimento. “Agora todos sabem que é possível. O hip hop cresceu e deve se organizar para criar outro prêmio ou vários deles”, finaliza Athayde.

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