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Higienizar sem humanizar

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Às vezes não entro em depressão profunda porque aprendi a lidar com as frustrações da vida para sobreviver. Viver comunidade é tarefa desgastante. Particularmente em cidade tão grande quanto São Paulo. São milhares de problemas e não há como se envolver em todos. As soluções são complexas, dada a proximidade extrema em que convivemos. Os espaços, em todos os sentidos, ficaram reduzidos e disputadíssimos. Tudo afeta todo mundo e não há como evitar que nos afete.

 

As pessoas são eleitas a vereadores e prefeitos para encontrarem soluções. E acabam tomando atitudes que reprovamos e nada podemos fazer. Por exemplo, não é nem um pouco agradável ver aquele grupo desordenado de vendedores ambulantes, moradores de ruas e prostitutas em alguns pontos de nossa cidade. Para mim não é legal porque me preocupo com essas pessoas. Acredito que elas são mais importantes. E, tirá-los à força das ruas não significa que a prefeitura vá tornar e manter nossas praças e ruas limpas, arborizadas e atraentes ao convívio humano.

 

O vendedor ambulante, na maioria é o desempregado que desistiu do emprego inexistente e foi atrás de trabalho. Em geral têm família, filhos para criar e cuidar. Não podem se dar ao luxo de ficar desempregados e sem trabalho também. Moradores de rua são, em sua maior parte, seres humanos em crise extrema. Com a auto-estima destroçada, seguem apagados como se não existissem. Mas são iguais a qualquer um de nós. Aquele de nós que ainda não pensou em largar tudo e mandar tudo para aquele lugar, nem vivo esta. Em um estalo são capazes de reassumir a luta, encarar a pressão e ressurgir vigorosamente. É só existir estímulos e motivações suficientes. Os usuários de drogas podem ser enquadrados nesse grupo. E ainda temos os filhos da cidade, nossos meninos de rua. Fui um deles e sei sobre qual miséria e falta de cuidados constroem suas existências de ferro.

 

Falar daquelas moças (às vezes cansadas senhoras) que ganham a vida nas calçadas do centro da cidade, é algo muito complicado. Caso forem para as boates, serão exploradas pelos donos. Só lhes resta a rua. Procurei saber, tempos atrás, como sobreviviam em tempos modernos. Os jovens se resolvem entre eles, não são mais seus fregueses habituais. Os que as procuram agora são os mais velhos, os que mulher alguma quer e os inibidos em excesso.  Quando conseguem três programas no dia encerram o expediente satisfeitas.

 

Nossa cidade construiu sua importância política e riqueza com o trabalho de migrantes e emigrantes. Todos em busca de uma vida melhor na cidade grande. Por conta disso, deveríamos ser o símbolo do respeito à diversidade e à tolerância. E não tratar as questões sociais como caso de polícia, por mais isso faça parte da história do Brasil.

 

O Prefeito quer “limpar” o centro de São Paulo. Houve até acordo de colaboração assinados com a polícia militar e a GCM. O projeto era para tirar primeiro os “marreteiros”, depois os mendigos, drogados e agora chega são às prostitutas.

 

Queremos a cidade limpa, mas não a custo de sofrimento humano. Os vendedores ambulantes poderiam conseguir emprego até na prefeitura. Os mendigos e drogados receber tratamento médico e social a curto e médio prazo. Ninguém me convence que eles preferem levar aquela vida miserável que encaram todos os dias. As profissionais do sexo só podem ofender a anacrônicos puritanos (que de vez em quando…) e talvez homossexuais enrustidos. Creio que é possível oferecer alternativas pelo menos para as mais velhas que já não fazem nem para o café.

 

Há uma Lei Orgânica de Assistência Social no município. Isso de higienização da cidade é absolutamente inaceitável. Fomos tão generosos com todos que por aqui aportaram, porque não com aqueles que aqui já estão e carecem tanto de nós? Garanto que não será construindo rampas anti-mendigos, praças sem bancos (nossos velhos é que sofrem) e banheiros ou colocando a polícia militar para correr atrás das mulheres que conseguiremos humanizar essa cidade.

 

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Luiz Mendes

13/07/2010.

 

 

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