por Caio Ferreti
Trip #184

A nova geração do surf resgata a estética punk, encurta as pranchas e alonga os aéreos

Na contramão do soul surf, representantes de uma corrente da nova geração do esporte resgatam a estética punk, encurtam as pranchas e alongam os aéreos

A cena era curiosa. Vestidos de preto, com camisetas puídas de bandas de rock pesado, o grupo de moleques descarregava a Kombi no canto da rua. O carro, uma velharia de 1978 com um moicano de lanças improvisado no teto, até que aguentou bem o trajeto entre São Paulo e Guarujá, mas quebrou pouco antes de alcançar o destino final. Ficaria abandonado ali mesmo, ninguém queria bancar o mecânico. O jeito era continuar a pé. Ao som do heavy metal dos alto-falantes, eles começaram a esvaziar a Kombi para seguir caminho. Na lataria, o adesivo: “We hate surfers”. Do porta-malas, contudo, começaram a sair pranchas de surf. A casca não denunciava, mas todos ali eram surfistas. Ou, no caso, punk surfers.

“Onde é o velório?”, brincou o fotógrafo da Trip ao se dar conta de que estavam todos de preto. A intenção era justamente essa, se opor de todas as maneiras possíveis aos estereótipos, verdadeiros ou falsos, que o surf carrega. Enquanto o comportamento fora d’água é ditado pelo visual preto, tatuado, ao som de músicas pesadas, no mar a ideia é usar a onda para voar em aéreos e mandar manobras inspiradas no skate. “Queremos quebrar um paradigma. É uma contracultura, não tem essa de bermuda florida, surf music, interação com a natureza”, explica Etam Paese num discurso acompanhado pelas diversas tatuagens no corpo e pelo boné do Slayer na cabeça. “Não pegamos onda pra ficar curtindo ela até o fim, pra dar uma rasgada e ficar só nisso. Pegamos pra tentar mandar uma manobra diferente, algo inovador.”

Uma inovação que surgiu com surfistas californianos como Christian Fletcher, Joe Crimo e Ben Wei, criador das pequenas pranchas Fifty Fifty Waveskates, ideais para manobras de aéreo. Se por lá essa cultura punk surf já está enraizada, no Brasil começa agora – mas já desperta a atenção de surfistas mais antigos. “Já vi uns caras assim no Rio, em São Paulo, em Santos... É um negócio meio novo, na real. Mas é uma galera muito criativa. Na verdade, acho que esses moleques são os mais criativos do surf. Você vê pelo desenho nas pranchas, pelas tatuagens, pela atitude na água. E o skate ajuda muito no estilo de surf deles”, diz Marcelo Trekinho, um dos pioneiros no surf de aéreo por aqui. “É bem diferente do surfista competidor, do cara do tow-in, ou da galera que quer aparecer na mídia. Eles são o oposto disso. Os caras são mais underground mesmo, sacou?”

Outro pioneiro nesse estilo de surf, Marcos Sifú é mais cauteloso na hora de falar dessa nova geração. “Os moleques arrebentam na água, têm o maior mérito por fazer algo diferente, mas essa contracultura só funciona se tiver uma rebeldia com causa”, diz. “É indiscutível que eles têm características interessantes, mas acho que são meio entusiastas, não são punks realmente. Christian Fletcher e Dadá Figueiredo tiveram reconhecimento em suas épocas. Agora é o retorno de uma onda que já passou uma vez.”

“Os mais velhos têm na cabeça essa ideia de soul surf e não tiram de jeito nenhum”

É nóis na pista
Se a ideia é ser underground, então é proibido conforto na hora da surf trip – e a Kombi da turma é garantia de perrengue. Na ida até o Guarujá em que a reportagem da Trip esteve presente, sobraram exemplos. Um galão cheio de gasolina esteve sempre ao lado do motorista para evitar surpresas com o medidor de combustível quebrado. Aliás, nada no painel funciona. Saber a velocidade é luxo – se bem que a falta de velocímetro não é exatamente um problema, já que a Kombi dificilmente consegue ultrapassar os 70 km/h. A porta lateral precisa de um cadeado para fechar e a cada parada o motor só volta a funcionar na base da chupeta.

 


Foi com essa Kombi que eles se jogaram na estrada para fazer um vídeo satirizando a série de filmes de surf Drive Thru, em que surfistas top viajam pelo mundo em vans megaequipadas atrás de ondas perfeitas. No caso deles, a realidade era outra. “A Kombi quebrou algumas vezes. Só pra ir de São Paulo ao Rio de Janeiro levamos umas dez horas”, lembra Santiago Roig. De lá, o plano era chegar ao litoral sul de Santa Catarina parando para surfar em diversas praias. O roteiro completo levou quase um mês para ser concluído. Com a verba reduzida, o jeito foi passar as noites na Kombi ou na casa de pessoas que conheciam pelo caminho. Uma experiência que rendeu ao vídeo o título de Drive’n Throw up (algo como “gorfando ao volante”).

Situação parecida Etam e Santiago experimentaram na última ida ao Chile, no ano passado. A proposta era fazer uma surf trip internacional com o menor gasto possível – ou seja, perrengue garantido. “Passamos bons apertos”, lembra Etam. “Gastamos pouco mais de R$ 600 em 20 dias de viagem.” Com hotel e tudo? “Hotel? Não! Pegamos só um albergue no último dia, foi o maior luxo dormir numa cama. Passamos várias noites em rodoviárias, acampando em barraca... Até dentro de lanchonete 24 horas dormimos. Era só colocar a prancha no chão, se encher de blusa e pronto.” O importante mesmo era conseguir voar alto em aéreos nas famosas ondas chilenas.

Palhaço d’água
Vestido com uma bermuda jeans preta e uma camisa quadriculada grunge, Etam pegou sua prancha – uma 4’8’ tão pequena que mais parecia um wakeboard – e correu para o mar. Lá já estavam Christian Miller, Alan Fendrich, Gustavo Nastasi e Santiago Roig fazendo malabarismos no ar com suas pranchas igualmente diminutas. Eram os únicos, e por isso chamavam a atenção dos vários outros surfistas na água. Mas não é todo mundo que admira a relação dessa galera com as ondas. “Os mais velhos têm na cabeça essa ideia de soul surf e não tiram de jeito nenhum. Rola até uma rixa com eles”, diz Etam. “Com a galera do longboard também. Tem até a história que o Picuruta Salazar apelidou um amigo nosso de palhaço d’água, tirando sarro porque o moleque ficava só mandando manobra.”

 

 
Palhaçadas à parte, a linha de surf agressivo e direto criou neles uma aversão aos campeonatos. “Esse surf de competidor é sempre igual. Os caras estão surfando há 20 anos e fazendo sempre as mesmas coisas, sem evoluir, sem manobras diferentes. Ficam só surfando pra juiz”, reclama Alan, apelidado de Cocô. “Já corri campeonatos, mas não gostava. Larguei totalmente a linha de competidor e comecei a treinar só manobra de skate na água.” Trekinho, mais conciliador, pondera. “Acho que a evolução do surf está na mistura das duas linhas, ou seja, conseguir dar um rasgadão e mandar um aéreo muito louco na sequência.”
 

 

Desde a Trip #1

Vestido com uma camiseta preta estampada com uma caveira de moicano, o surfista Dadá Figueiredo posou para as fotos que ilustraram as Páginas Negras da primeira edição da Trip, em 1986. Por conta do visual e do comportamento, Dadá foi considerado o primeiro representante do punk surf no Brasil, como ele mesmo confirmou ao repórter Dadá Borgerth na época da entrevista: “Gosto de punk... da música punk... da atitude punk; pro surf eu sou um punk! Por que é que eu tenho que andar igual a esses caras aí, porra?”.

Veja as Páginas Negras da primeira edição da Trip, publicada em 1986

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