por Pedro Só
Trip #217

Moldado pela cultura de praia, ele se transformou em um dos grandes executivos brasileiros

Criado entre o Leblon e a Barra da Tijuca nos anos 70 - entre um jibe em seu windsurf e um salto de asa-delta escondido dos pais - Guilherme Zattar foi moldado pela cultura de praia até se transformar num dos grandes executivos brasileiros, na linha de frente de empresas como Organizações Globo,Embratel e BMG e de festivais como Hollywood Rock e Free Jazz. Na Globosat criou o Sportv e em sua segunda passagem pela diretoria da casa, foi responsável por reerguer o canal Multishow e comemora o primeiro aniversário do Canal Off, um bem-sucedido projeto de tv que devolve à praia um pouco do que recebeu dela

Em 1980, todas as noites, na abertura da novela Água viva, da TV Globo, Baby Consuelo cantava “Menino do Rio”, a ode de Caetano Veloso ao mítico surfista Petit (José Artur Machado, 1957-1989). Nas imagens, rapazes e moças eram mostrados na então selvagem praia da Macumba praticando o esporte da moda na época: o windsurf. “Eu não apareço, mas minha vela está nas imagens que encerram”, conta Guilherme Zattar, diretor do Multishow, em sua sala de frente para a lagoa da Tijuca, na sede da Globosat. Morando “a dez minutinhos” dali, na Barra, ele comemora a qualidade de vida que isso lhe proporciona há dois anos e meio, desde que a empresa se mudou do Rio Comprido, na zona norte, para o atual endereço.

Aos 52 anos, casado com Claudia e pai de João Pedro, 22, Ana Carolina, 20, e Maria Eduarda, 11, Guilherme festeja também um ano de um projeto que idealizou. Evolução de um trabalho começado em 1996, ainda nos tempos de SporTV, o canal Off tem ganhado a admiração do mercado por ser um passo gigantesco em relação à abordagem habitual com que são exibidos os esportes de ação. Sua grade mistura natureza e viagem em documentários e reality-shows. Com imagens quase sempre espetaculares. “Você viu a série sobre o Taiti que o Rosaldo [Cavalcanti, veterano do jornalismo de surf] fez? Surf visto de dentro da água, sem aquela coisa de câmera no capacete. O Off é assim, pra você assistir e falar: ‘Puta que pariu, que porra é essa?!’”, empolga-se o executivo.

Carioca criado no Leblon, estudou no tradicional Colégio Santo Inácio, em Botafogo, mas sempre foi atraído pela vida no oeste da cidade: moleque, a mãe o levava na Brasília marrom, junto com o irmão, para surfar no Quebra Mar. Aos 18, escondido dos pais, aprendeu a voar de asa-delta e dividiu os céus de São Conrado com a geração de Pepê.

Na carreira, também subiu com leveza, movido pela autoconfiança e pelo autocontrole adquiridos no caratê. Inspirado pelo pai, executivo da área petrolífera, formou-se engenheiro químico pela UFRJ, mas se deixou levar pelos ventos do marketing depois que a Ipiranga o mandou a Paris por seis meses. “Era a época da Elf, que tinha patrocinado a Tyrrell, do Jackie Stewart, e, depois, a Renault”, lembra.

Enquanto galgava posições na Souza Cruz, conseguiu manter até os 35 anos, como hobby, a atividade de professor da arte marcial. “Treinava das seis às sete horas. Depois dava aula para a molecada. Era a minha válvula de escape.” O trabalho na multinacional obrigou Zattar a fumar e a aprender a diferenciar sabores, tal qual um sommelier de cigarros. Mas também lhe proporcionou experiências inesquecíveis. Entre 1988 e 1993, como gerente de marketing, promoveu festivais como o Hollywood Rock e o Free Jazz. “Em nove anos na empresa, tive oito funções. Foi a minha universidade”, conta, sem conflitos.

De lá foi fisgado pelo Banco Nacional, onde implantou cartões de afinidade, até que, em 1996, recebeu um convite de Alberto Pecegueiro, outro surfista carioca que se destacava no crowd corporativo. Sem saber nada de TV, Guilherme começou apitando apenas no marketing do recém-surgido SporTV (até 1995, tinha o nome Top Sports). Logo, porém, foi promovido a diretor da parte editorial também: esporte era a sua praia.

“Dos 18 aos 24 anos, época de faculdade, eu dirigia até Torres (RS) e voltava pro Rio. Sempre com amigos, passava três meses surfando"

Guilherme nunca ligou para competições e lembra que não foi muito bom em nenhum esporte – no futebol, só batia; no surf, nunca passou do nível “direitinho”; no wind, não se arriscava em mar com ondas. Mas uma experiência de juventude o inspirou a dar forma a programas de esportes de ação no SporTV. “Dos 18 aos 24 anos, época de faculdade, eu dirigia até Torres [no Rio Grande do Sul] e voltava pro Rio. Sempre com amigos, passava três meses surfando – cheguei a levar a prancha de windsurf. Alugávamos casas de pescadores pelo litoral de Santa Catarina: foi um verão em São Chico, um em Laguna, outro em Floripa, um em Garopaba, outro na Guarda, outro na Ilha do Mel...”

Embratel e Big Brother

Dono de uma casa em um condomínio em Búzios, ele diz que só consegue ir lá quatro vezes por ano. E suas férias recentes pouco lembram os antigos rolés. “Viajo para passear, geralmente por Europa e EUA.” O velho espírito é mantido com passeios de bicicleta pela orla da Barra ou bandas curtas, de carro. “De vez em quando vou até Guaratiba. Paro, fico vendo o mar e volto, sem fazer nada. Minha mulher faz troça de mim.”

O sucesso profissional impõe sacrifícios a alguns meninos do Rio. Em 2001, Guilherme voou do SporTV para a indústria fonográfica, seduzido pela ideia de trabalhar com música. De vice-presidente de marketing da BMG Brasil, passou dez meses no canal Discovery, que o obrigou a morar em São Paulo. E de lá foi içado à vice-presidência da Embratel, desafio que lhe exigiu conhecer todo um novo setor – além do frio na barriga de “herdar” na empresa uma receita de 5 bilhões de reais.

Após três anos e meio, em 2009 veio mais um almoço com Pecegueiro e o convite para assumir a direção do Multishow. Junto com a proposta, uma cartinha da direção, severa: “O Multishow estava em 11º lugar de audiência e eu tinha que botá-lo entre os dez mais vistos. Queriam um plano em 90 dias. Mostrei um, mas na real esse plano nunca vai ficar pronto. É um trabalho que nunca acaba, tem que reinventar o tempo todo”.

O objetivo de audiência foi alcançado e, em 2010, veio o lançamento do Multishow HD, rebatizado há três meses de Bis. “Meu trabalho quadruplicou. São três canais – Multishow, Bis e Off – e mais o Big Brother versão TV assinatura.” O atual modelo de terceirização também exige. “Lidamos com 40 produtoras diferentes. Quarenta! É muita cabeça diferente, mas a gente vai aprendendo assim. Fico ligado quase 24 x 7, mas tem o prazer, a criação, o desafio que se renova.”

Guilherme Zattar detesta academia, mas tem um plano de atividade física para este verão que vai além das caminhadas regulares na praia e ocasionais ondinhas de longboard. Ganhou dos filhos uma prancha de stand up paddle que ainda não teve a chance de estrear. E usa um verbo de menino: “O João Pedro se apossou e está viciado nela. Mas agora vou começar a brincar também”.

Como você começou a praticar esportes e quando achou a sua praia?
Na minha época, pra se enturmar na escola, menino tinha que jogar futebol. E eu jogava muito mal [risos]. Era zagueiro e, como não era habilidoso, batia pra cacete. Com 12 anos me interessei pelo surf. Eu e meu irmão Claudio conseguimos quebrar o preconceito de que surfista era tudo maconheiro e, lá por 1974, convencemos nosso pai a trazer dos EUA duas pranchas Gordon & Smith. Foi muito engraçado o meu primeiro dia: fui para o Quebra Mar [na Barra da Tijuca] e tava meio grande, ondas de um metro e meio. E eu entrei, nem remar eu sabia direito. Quando passei a rebentação, pensei: “O que eu faço agora?”. Pouquíssimos tinham uma prancha daquelas, os surfistas ficaram me olhando – “Pô, quem é esse cara?” – e eu não sabia fazer porra nenhuma. Foi a maior vergonha, saí à francesa e desci para a “piscininha” que tem do lado do Quebra Mar. Ali fiquei aprendendo um mês, até conseguir ficar em pé. Morava no Leblon, minha mãe nos levava até a Barra em uma Brasília marrom. Aí fiquei surfando, mas surfando assim... bem mal [risos]! Mas adorava, era um alívio, diversão para o fim de semana, horas vagas. Com 13 anos, comecei a aprender caratê na academia Shotokan, em frente à minha casa, com o mestre Inoki [Hiroyasu Inoki, respeitado japonês radicado no Brasil desde 1956]. Treinei por mais de duas décadas. Foi minha grande paixão esportiva.

"Tive que aprender a fumar! Na Souza Cruz eu precisava distinguir no cigarro as notas, os aromas, o que era madeira, como era cada gosto, como se faz com vinho"

E como você se tornou piloto de asa-delta?
Eu devia ter 18 anos, estava na festa de uma amiga, filha de um tenente coronel da Aeronáutica que foi um dos pioneiros do voo livre no Brasil. O irmão dela me desafiou: “Cara, quer aprender? Consegue acordar amanhã às cinco horas? Temos que estar às seis e meia em Curicica [Jacarepaguá, região oeste do Rio], porque o vento só bate de frente a essa hora, e dá pra ficar até umas oito e meia”. O lugar era chamado de Morro do Assalto, porque a galera ia lá aprender a voar e acabava assaltada. Mas o cara garantiu que estava tranquilo. Aí eu fui. Aprendi numa Zephir – o nome era asa-delta porque aquilo era um triângulo. Não sei como nego conseguia voar naquela porra... O tal Morro do Assalto era um morrinho, você só aprendia a correr. Na Grota Funda, não: lá fiz meu primeiro voo de verdade, 150 metros de altura. Tirei a carteira de voo livre e comprei uma asa bacana, Condor, em sociedade com meu amigo João Carlos Rios. Tudo escondido dos meus pais. Saía com a prancha e dizia que ia surfar. Até que um dia, com uns 20 anos, meu irmão tinha tirado fotos minhas decolando e eu botei no para-sol da Brasília, que eu dividia com a minha mãe. Puta merda! Um dia ela parou num sinal e, na freada, caíram todas as fotos. Meu pai depois me deu um esporro, disse que minha mãe ia morrer do coração. Fiquei com peso na consciência e parei, para não aborrecer meus pais. E porque já havia começado a me interessar por windsurf. Lembra da Windglider, aquela prancha grande? Comprei uma daquelas com meu irmão e fomos aprender em frente ao Novo Leblon [na Barra da Tijuca]. Meu irmão virou campeão brasileiro, eu só me divertia. Gostava dos esportes mais pelo contato com a natureza, o espírito de aventura. Caratê eu lutava direitinho. Tinha paixão, via aquilo como arte.

O que o esporte lhe ensinou que teve mais valor na sua carreira como executivo?
O que mais levei, para a vida inteira, foi o autocontrole. Quem me conhece me acha supercalmo, falam até que sou zen. Eu não sou zen porcaria nenhuma! Sou superansioso. Mas eu sempre me contenho. O autocontrole é tudo. Tanto que eu nunca briguei. Na rua, já fui provocado, mas me contive. O caratê me deu autocontrole e autoconfiança. O Inoki ensinava a filosofia oriental, me fez ver o caratê como arte e eu fui fundo na leitura dos livros, é uma coisa muito importante na minha vida. Meu filho João Pedro, 22 anos, é faixa verde.

Trabalhar para uma empresa de cigarros gerou uma crise de consciência para você, como esportista?
Não era fácil. Eu tive que aprender a fumar! No meu primeiro cargo na Souza Cruz, assessor de desenvolvimento de produto, eu precisava distinguir no cigarro as notas, os aromas, o que era madeira, como era cada gosto, como se faz com vinho. Eu era responsável pelo painel de fumantes. Eram pessoas pagas para avaliar cigarros todo santo dia. A sorte é que fiquei só um ano nessa função. Aí fui pro marketing. Foram nove anos na Souza Cruz, foi minha universidade.

Você chegou a se viciar em cigarro?
Não, jamais gostei de fumar. E também não havia a obrigação. Funcionário da Souza Cruz ganhava três pacotes de cigarro por mês. Eu pegava a minha cota e dava tudo para o porteiro do meu prédio.

Você batalhou para trabalhar com música nos eventos patrocinados pela empresa, como o Hollywood Rock e o Free Jazz?
Foi na sorte. Caí na área de comunicação e depois me tornei o gerente responsável por esses festivais e pelo Carlton Dance. Cheguei a fazer também dois Hollywood Surf, entre 1987 e 1989, e eventos de motocross, vela e até jet ski. Naquela época, podia-se fazer propaganda e os comerciais eram espetaculares, imagens de esportes que ninguém via no Brasil. Quando lançava um filme de Hollywood, a música virava hit no rádio. A Souza Cruz, apesar de lidar com um produto controverso, ditava tendências. Até que, quando me tornei responsável pela seleção de estagiários, dei uma palestra na PUC do Rio e me deparei com a pergunta: “Você não sente vergonha de vender um produto que mata?”. Era um garoto, nunca vou esquecer. Respondi: “Olha, eu não fumo, nem sou obrigado a fumar. A indústria adverte que o cigarro faz mal. É a tal história: você gostaria de ser proibido de fumar? Você opta”. Até hoje defendo isso. Não adianta proibir: o cara decide se quer correr o risco ou não. Liberdade de escolha.

O Nirvana esculhambou a indústria tabagista quando veio ao Brasil em 1993. Kurt Cobain falou sobre câncer no palco e Chris Novoselic criticou a Souza Cruz durante as entrevistas...
Foi a maior encrenca, mas por outro motivo. Antes do show, o Cobain tinha tomado sei lá o que e foi pra janela do hotel querer voar. O coitado do Luis Oscar Niemeyer, que era o diretor de produção, teve que ser chamado às quatro da manhã para resolver o problema. Imagina se o cara pula?

Como você compararia o show business daquela época, quando o Brasil começava a atrair atrações internacionais, com o momento atual?
Lá atrás, era um sonho, porque a Souza Cruz tinha grana, bancava todo o evento. A produção era totalmente dirigida pela Souza Cruz, não era um evento que a empresa comprava. A gente tinha verba, trazia quem a gente queria, escolhia tudo. Eu assumi o Hollywood Rock em 1988 e fiquei até 1993, quando saí para trabalhar no Banco Nacional. A Souza Cruz era a única subsidiária da BAT [British American Tobacco] no mundo que fazia eventos de rock. Eu morria de medo era de acontecer alguma coisa que fugisse do controle. Em uma edição, chegou a ter tiro na praça da Apoteose, no Rio – por sorte, uma coisa pouco grave –, mas o medo era no dia seguinte estar estampado nos jornais “Tiroteio no Hollywood Rock”.

Você tinha contato com o Alberto Pecegueiro (diretor da Globosat), também surfista, antes de ser chamado por ele para trabalhar no SporTV, em 1996?
Ele tem dois anos a mais que eu. Éramos sócios do mesmo clube na infância, o Ingá, em Teresópolis, mas meu primeiro contato foi quando eu era da Souza Cruz e ele cuidava das revistas femininas da editora Abril. Meses depois, eu trabalhava no Banco Nacional e ele, já na Globosat, me ligou para falar sobre uma vaga no SporTV. Eu disse: “Mas eu não entendo nada de TV”. Ele disse: “Tudo bem, quero um cara de negócios, para cuidar da marca, da relação com o mercado”. No SporTV foi amor, paixão. Com seis meses, o Pecegueiro me promoveu a diretor-geral e comecei a cuidar da parte editorial.

“Antes do show, o Kurt Cobain tinha tomado sei lá o que e foi pra janela do hotel querer voar”

O meio televisivo é refratário a profissionais vindos de outras áreas. Como resolveu a questão de não ser um “homem de televisão”?
Tive rejeição, claro. Mas o Pecegueiro comprou minhas brigas. O SporTV News, por exemplo, era um jornal gravado. A gente começou a produzir ao vivo, diário, com o que tinha em casa. Foi a primeira grande mudança. A segunda foi aumentar as transmissões dos jogos: entravam cinco minutos antes e acabavam logo depois do apito final. Eu sou da época de levar o rádio para o Maracanã e escutar os comentários de João Saldanha, Mário Vianna. Não tinha graça se não ouvisse essa turma depois. Fizemos uma adaptação da “grande jornada esportiva” do AM, com pré-jogo e pós-jogo. Meia hora antes e meia hora depois. Com isso, o jogo crescia para três horas. E criamos o Zona de impacto, o embrião do que é o canal Off, para o que na época chamavam de esportes radicais. Eu fui aprendendo. Trabalhei muito no começo com o Bocão, que tinha um programa chamado Rip. Ele foi o grande precursor dessa história e já estava lá dentro. Falei: “Pô, Bocão, me ajuda”.

Você acabou reencontrando o Luis Oscar Niemeyer em 2001, quando foi trabalhar na gravadora BMG.
Ele me ligou dizendo que queria um vice-presidente de marketing. Aquilo me causou um negócio na cabeça. “Música! Deve ser do cacete!” Eu adorava trabalhar na Globosat, mas resolvi conhecer um mundo novo. Assinei um contrato por quatro anos.

“De repente, o cara me deu 5 bilhões de receita. Eu ia às reuniões e não entendia nada. Aprendi passando as noites em claro, estudando”

Você chegou quando a indústria começou a ruir, não?
O mundo estava despencando. Depois de um ano, falei: “Caramba, não é o que eu imaginava”. Marketing de gravadora naquela época, claramente, era uma coisa para fazer a engrenagem funcionar, pagar o jabá e tocar no rádio. Como o contrato me prendia, fui ver as coisas boas, que não eram poucas. Nesses quatro anos, conheci do bom e do melhor da música do mundo. Ia a convenções em Nova Orleans, Paris, Londres... Vi um show dos Strokes antes de sair o álbum: eles se apresentaram para executivos da gravadora em um lugar pra 200 pessoas em Nova York. Vi a Avril Lavigne, molequinha, 16 anos. Alicia Keys, vi numa dessas casas pra cem pessoas. Isso não tem preço. No fim das contas, me adaptei, contratei um cara para cuidar das rádios e jabás e vivi quatro anos bem legais.

Como foi a experiência na Embratel, depois de ter trabalhado com música e esporte? Não lhe pareceu um mundo mais estéril?
Eu estava morando em São Paulo sem família, porque os filhos estavam numa fase de colégio que impossibilitava a mudança de cidade. Então adorei voltar para o Rio e trabalhar como diretor de comunicação, algo que eu dominava. O problema é, que três meses depois, o presidente me chamou e disse que iria mandar dois VPs embora e que gostaria que eu assumisse uma área grande. Era metade da Embratel! Putz, eu não entendia nada de telecomunicações. E o cara acreditou em mim. Sofri no começo, ia às reuniões e não entendia o que estavam falando. Aprendi passando noites em claro, estudando. De repente o cara me entregou 5 bilhões de reais de receita. Se eu não desse certo, a empresa quebrava. Não cheguei a lidar direto com o Carlos Slim, mas fui algumas vezes ao México. E também participava do conselho da NET. No quarto ano de Embratel fui almoçar com o Pecegueiro, que estava fazendo uma reformulação na Globosat e perguntou se eu tinha interesse em voltar. Eu eu falei: “Porra, muito!” [risos]

Como surgiu o projeto do canal Off, com viagens, natureza e esportes de aventura?
Há dois anos, veio a missão de lançar novos canais. Discutiu-se muito que canais seriam esses. E eu vim com a proposta: não é canal de esportes, não é canal de aventura, não é canal de natureza. É um canal que reúne as três coisas. Fizemos uma pesquisa e o nome Off veio com esse conceito de fuga. O cara está estressadíssimo, liga no Off e, com aquelas imagens bonitas, música bacana, vai relaxar, viajar, desligar dos problemas.

Que balanço faz deste primeiro ano do Off?
A gente não tem audiência aferida. Mas a repercussão tem sido espetacular. Temos muito a explorar, uns 20 anos para desenvolver e crescer. E já tivemos de mudar muita coisa. Inicialmente era para ser um canal todo em HD e só com 20% da grade com produções nacionais. Comecei fazendo acordos com grandes distribuidores estrangeiros, como a Red Bull, trazendo gente como Jack McCoy [mestre americano dos filmes de surf]. Entre os brasileiros, pensei primeiro em Carlos Burle [big rider], e Cani [Luigi Cani, paraquedista]... Rejeitei a turma antiga do Zona de impacto. Eu precisava de olhares novos.

“Um dos nossos objetivos é poder viver sem o Big Brother. Mas passa ano, sai ano, a audiência segue lá. Acho que ele terá vida longa”

O Multishow exibe conteúdos de Big Brother. Como vê a longevidade do programa, que após 12 edições ainda garante ótima receita?
Um dos nossos objetivos é poder viver sem o Big Brother. É um projeto em que pegamos carona. Mas, passa ano, sai ano, a audiência segue lá, acho que ele terá vida longa. A Globo tem competência pra caramba pra reinventar o programa e ainda tem cartas na manga, como fazer uma edição com artistas. O Big Brother ocupa só três meses do nosso ano.

A cobertura que o canal fez do Rock in Rio e de outros festivais foi alvo de críticas. Alguma novidade para 2013?
A gente está tentando melhorar. O conteúdo principal, que é o show, rende audiência, independentemente de ser apresentado por Didi, Erika Mader ou Beto Lee. Mas estamos buscando escalar repórteres com afinidade com os eventos.O Beto é um cara que tem bagagem enorme no rock, não vou botar o cara para entrevistar o Luan Santana.

Existe a queixa no mercado de que o Multishow paga pouco pelas produções independentes que veicula. O que você diz disso?
Sim, o Multishow paga pouco no primeiro contrato. Porque é um teste, é uma aposta. Depois que o programa dá certo, a gente investe mais. Em vez de exigir piloto e tal, a gente chama o cara e diz: “Vamos bancar os seus custos e fazer o programa com a minha área artística lhe ensinando como fazer barato”. Alguns não veem como vantajoso. Mas a resposta que eu posso dar é: 40 produtoras diferentes trabalham com Multishow, Off e Bis. Dessas, quase todas estão com a gente há três anos. Claro, se o programa não deu certo, a pessoa pode ter perdido dinheiro. Quem está comigo na quarta temporada não está insatisfeito. O pessoal da Conspiração não está insatisfeito. Mas quem não deu certo às vezes vai ao jornal para reclamar.

Os programas eróticos do Multishow também são criticados. Como lida com isso?
O conteúdo erótico está no Multishow desde o princípio, há 20 anos. O canal foi criado pelo Boni, com o Boninho como primeiro diretor. Foi ele quem criou o TVZ, programa de clipes, e o Sexytime, dois dos maiores sucessos do canal. O Sexytime continua se baseando em programas gringos, às vezes de qualidade duvidosa. Mas sempre com ótima audiência. A audiência dos programas que temos, sem sexo explícito, é elevada. E, quando fomos pesquisar, o jovem falou claramente que deseja, sim, assistir a conteúdo erótico. A gente coloca a advertência, o assinante pode usar o parental control. É que nem o papo sobre cigarro: não é proibido, vê quem quer.

“O Sexytime continua se baseando em programas gringos, às vezes de qualidade duvidosa. Mas sempre com ótimas audiências”

A ABTA, Associação Brasileira de TVs por Assinatura, estima que um terço dos assinantes do país seja da classe C. Como se adequar a esse consumidor?
Eu acho que é mais, viu? Dos 16 milhões de assinantes do Brasil, pelo menos metade já é dessa classe média nova. Quando saí do SporTV, em 2001, tínhamos 1,6 milhão de assinantes e os programas eram voltados para as classes A e B. Agora estamos falando para mais de 60 milhões de pessoas, é Brasil mesmo, uma amostra bacana da população. Claro que o conteúdo tem que ser mais atraente para a classe C, mas sem ferir as partes A e B. Esse é o grande desafio.

Como se faz isso na prática?
A estratégia está nos pilares. O humor é um deles e temos pessoas como o Paulo Gustavo [do programa 220 volts], que fala pra classe C muito bem. Assim como a Natália Klein [de Adorável psicose]. A gente também tem atrações de humor mais elitizadas, como Olívias na TV, mas vamos tentar tornar o programa mais popular. O Multishow está buscando talentos e roteiros capazes de falar de A a C, como o Fábio Porchat. Outro desses pilares, a parte de viagem e aventura, também fala bem para a classe C. É um público que está começando a viajar, conhece pouco do mundo e através dos programas já começa a sonhar. E música tem apelo universal. Quando cheguei ao Multishow, era proibido falar em sertanejo. Pagode era palavrão. As maiores audiências do canal em 2012 foram o show de despedida do Exaltasamba, em fevereiro, primeiro lugar disparado na TV por assinatura, e o do Luan Santana. O Foo Fighters, do Lollapalooza, também foi primeiro lugar. Mas é importante trazer o pagode e o sertanejo, que também atraem público A e B. O Brasil está se misturando: essa história de “junto e misturado” é real.

Como percebeu que o humor poderia ganhar esse peso no conteúdo voltado para os jovens?
Lá fora existem canais voltados só para a comédia, aqui não temos isso. Identifiquei essa oportunidade. Humor é difícil pra caramba, tem que desenvolver e pesquisar bem. Mas eu vi que tinha muita gente boa e jovem no mercado. Fui ver um show do Paulo Gustavo e saí com o maxilar doendo de tanto rir. A Natália Klein também é engraçadíssima. Perdi o Bruno Mazzeo, que foi pra TV Globo, fiquei sem um astro. Então fomos renovando: agora temos Fábio Porchat, temos O fantástico mundo de Gregório – que era para ser A vida de merda de Gregório Duvivier, mas não deu [risos]. Estou atrás de mais talentos. Humor dá audiência e eu preciso que o Multishow esteja entre as dez maiores audiências do Brasil. É o dever, a meta.

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