por Ana Maria Peres
Trip #183

Trip entrevistou sete personagens exilados para mostrar como é a vida longe do Brasil

Atualmente 3 milhões de brasileiros vivem fora do país. Encaram os mais diferentes problemas para aprender outra língua, fazer faculdade e ganhar dinheiro. Em comum, a tensão do choque cultural e a saudade dos trópicos. Trip entrevistou sete personagens exilados para mostrar como é a vida longe do Brasil

Pensando no arroz com feijão? Morar fora do Brasil pode despertar sensações estranhas. De repente, o sujeito acorda com a síndrome da falha na comunicação e tem de adotar novas estratégias de sobrevivência. Solidão iminente, comida estranha, quarto pequeno. Quanto vale o perrengue? Para o filósofo Mario Sergio Cortella, vale a conquista do seu objetivo. “Desde sempre a humanidade cultiva o mito do jovem que parte em busca de seus ideais. No século 19, Darwin zarpou aos 21 anos, a bordo do navio Beagle, sob o comando do capitão Robert FitzRoy – que tinha 23 anos –, para sua grande expedição. Na Antiguidade, Ulisses e Aquiles antecipavam a jornada do heroi que sai sozinho, chora escondido à noite, luta e volta triunfante. No século 20, com duas grandes guerras, as gerações perderam tudo e as pessoas procuraram se fixar. Não havia mais glamour na imigração. Contudo, nos anos 60, a moçada voltou a colocar o pé na estrada”, lembra Cortella. “Hoje, com a mundialização da vida e o estilhaçamento das fronteiras, o movimento migratório encontrou seu ápice. A encrenca é a diminuição do triunfo.”

 

Segundo o filósofo, o triunfo encolheu a partir do momento em que as pessoas perderam o rumo. “Se você não tem clareza do seu horizonte, não adianta viajar. Quando a busca é por si mesmo, a meditação resolve. Não é preciso sair do lugar.” No entanto, se o propósito tem sentido e alvo certo, os impactos da mudança podem ser menores. Como exemplo, cita os personagens de sua própria casa. “Meu filho Pedro morou na Espanha e trabalhou como garçom em Barcelona. Ele poderia sobreviver com a família, mas o objetivo dele era criar uma experiência de vida mais planetária. Meu outro filho foi estudar história da cultura na França. Viveu à base de pão com salsicha, basicamente.”

Por outro lado, nem todo mundo está disposto a pagar pra ver, segundo a psicanalista Sylvia Dantas, especialista em imigração. “Quem sempre viveu mergulhado na própria cultura tem dificuldade para entender que ela não é universal. Depressão e surtos acontecem. Tem gente que volta antes, mas há também quem não retorne”, afirma ela, que viveu 12 anos nos Estados Unidos, cursando mestrado e doutorado. “Seja estudante ou diplomata, a maioria passa por questões comuns, como stress de aculturação e crises de identidade.”

Para ela, a diferença cultural é o que determina a tensão do choque: aprender mandarim na China tende a ser muito mais penoso do que viver em Portugal, por exemplo. Cortella acredita que é bobagem falar em choque cultural na Europa, na Austrália e nos Estados Unidos, visto que crescemos ouvindo os discos e assistindo aos filmes do lado de lá. “Estrangeiros serão sempre estranhos, isso é fato. Mas o brasileiro tem a percepção de várias culturas no próprio sangue.”

“Estrangeiros serão sempre estranhos, isso é fato. Mas o brasileiro tem a percepção de várias culturas no próprio sangue.”

Porém, ignorar o preconceito e os entraves políticos às vezes não é fácil. Segundo a psicanalista, lidar com essa parte depende da paciência e da sorte de cada um. “Há sempre um deslumbramento quando uma pessoa do terceiro mundo vai ao primeiro. Existe certo orgulho em dizer que fulana é babá na Suécia. Mas, para os locais, normalmente não há compreensão de que aquela pessoa trabalha para pagar a faculdade. É simplesmente um latino-americano que veio fazer um serviço que os outros não querem.” Apesar disso, há chances concretas de tudo dar certo (e até de sentir-se em casa, acredite). “Quando você entra em contato com outra realidade, percebe que tudo é relativo, até o frio. Chegar à relatividade é um processo lento, mas poderoso. Isso é superação.”

Vale lembrar que existe inclusive o choque cultural reverso: espera-se que a volta seja algo confortante, mas, no fundo, representa uma nova imigração. “A pessoa tem de passar por outro processo de adaptação. Quando ela volta, não é mais a mesma. Nem o lugar. Em geral, quem retorna ao país passa por isso durante um tempo.” Em ambos os casos, Cortella crê que não adianta reclamar. “O enraizado se alimenta de suas raízes e integra a experiência. O ancorado permanece imobilizado e só lamenta. O ancorado é nostálgico, o enraizado sente saudade.”

FRANCINE FLORA, 34 anos, chef e diretora de arte

Origem/destino
É do Rio de Janeiro (RJ), mora em Tóquio (Japão) há 11 anos.
Background Sempre gostei de viajar e falo seis línguas. Deixei o Rio para trabalhar em São Paulo e, aos 22, recebi um convite para ser designer em Tóquio.
Choque inicial A primeira coisa que me assustou foi o horário de partida do trem: 14h37, pontualmente. Quando tirei identidade japonesa, o documento ficou pronto em 9 min.
Teto Moro sozinha num apartamento de 40 m². Meu primeiro apartamento tinha 18 m²!
Efeitos colaterais Construí a vida adulta aqui e hoje me sinto em casa, apesar da saudade. Você até pode tirar um carioca do Rio, mas nunca tira o Rio de um carioca.
Do que sente falta? Praia, água de coco e biscoito Globo. E colo de mãe.
Melhor e pior de Tóquio Amo as tradições, a delicadeza do povo, a civilidade e o cenário de ficção científica. Detesto os terremotos e a distância entre as pessoas.

 

KARINA DI CUNTO, 35 anos, publicitária

Origem/destino É de São Paulo (SP), mora em Montreal (Canadá).
Background Fui para Londres em 2003. Fiquei lá três anos, trabalhei em salão de cabeleireiro, loja de roupas, de discos e livraria. Me casei com um canadense e nos mudamos para cá.
O que faz? Coordeno projetos num estúdio de animação em 3-D, para cinema e TV.
Teto Piro na minha casa! Ela vai completar cem anos no ano que vem.
Choque cultural A consciência ambiental dos canadenses é outra história. Tem muita coisa errada que a gente faz sem saber.
Recomendações Montreal é moderna e histórica. Esbanja área verde e pessoas quentes.
Interações Comecei a praticar snowboard, senão passo metade do ano sem fazer nada.
Efeitos colaterais Por ser da classe média e ter ascendência europeia, achava que preconceito estaria fora dos meus perrengues. Mas já tive que ouvir coisas do tipo: “Desculpe, mas você não poderá ficar com o quarto. Pessoas da América do Sul geralmente são desorganizadas e pouco limpas”.

GRAZIELA MACHADO, 22 anos, estudante

Origem/destino É de São Paulo (SP) e está em Sidney (Austrália) há quatro anos.
O que faz aí? Faculdade de design, trabalho como garçonete e babá. Já fui despedida de cinco restaurantes porque era desastrada.
Choque de realidade Imaginava que compraria uma bicicleta, aprenderia a surfar e moraria na praia. Não foi bem assim, raramente tenho tempo para um mergulho.
Teto Já me mudei sete vezes, hoje divido apê com uma brasileira e estou feliz. Pela primeira vez, tenho meu próprio quarto.
Indigestão No começo, morei com uma família que comia carne de canguru, não tomava banho após a praia e deixava os gatos subirem na mesa. Em compensação, eram amorosos e me ajudaram.
Posologia e dieta A alimentação não é saudável aqui; é difícil e caro comer bem. Para matar as saudades, faço arroz e feijão, compro paçoca e Sonho de Valsa.

 

RAQUEL SAITO, 24 anos, jornalista

Origem/destino É de São Bernardo do Campo (SP), mora em Boston (EUA) há um mês. Antes passou um ano na Holanda.
O que faz? Para estudar inglês, sou au pair, moro com uma família e cuido das crianças.
Teto Vivo numa casa tão grande que me perdi no primeiro dia. O casal aluga o porão e o terceiro andar, com cozinha e banheiro próprios. Mas meu quarto é bem pequeno.
Climatempo A cidade está bem fria, em torno de 0 grau – e ainda estamos no outono!
Efeitos colaterais Na segunda semana, liguei para meus pais chorando, dizendo que aqui era um inferno. Eles me acalmaram, ainda bem.
Superdosagem Tem brasileiro aos montes aqui. Além de ciclovias e das baladas, que terminam às duas, não sinto falta de mais nada.

 

CLAUDIO RODRIGUES, 34 anos, comissário de bordo

Origem/destino É de Campinas (SP) e mora em Dubai (Emirados Árabes) há um ano e meio (já viveu nos EUA por três anos).
Teto Divido um apartamento de dois quartos com um cara de Florianópolis. O espaço é gigante, chega a parecer vazio.
Climatempo A cidade é muito quente e repleta de areia. Sinto falta das ondas, mas frequento praias artificiais com a brasileirada.
Efeitos colaterais Tudo aqui é feito para os árabes. Como estrangeiro, sou sempre o segundo da fila. Respeito é novidade, há pouca tolerância a outras culturas.
Indicações Safári no deserto.
Contraindicações Dubai não é tudo o que dizem. Há muito trânsito e construções que dificultam a vida. Odeio a falta de vegetação.
Reações adversas Tenho saudade da namorada, do meu pequeno apartamento, de surfar e de churrasco com amigos.

 

FELIPE NARVAEZ, 29 anos, DJ

Origem/destino É de São Paulo (SP), mora em Londres (Inglaterra) desde 2004.
O que faz? Toco discos, faço música e tatuagens caseiras. Meu ganha-pão principal são as encomendas que entrego de bicicleta.
Teto Moro em uma casa vitoriana com três ingleses. Cada um tem seu quarto.
Do que sente falta? Da minha família, dos amigos e de chá mate com açaí e guaraná.
Melhor de Londres Pedalar na hora do rush, ler em London Fields, rio Tâmisa, cinema, galerias, mercado de Spitalfields, warehouse parties e free jazz em Dalston, no Cafe Oto.
Contraindicações Odeio as pessoas que só reclamam de Londres, mas não vão embora.
Contravenções No primeiro mês, colei anúncios de prostitutas em cabines telefônicas. Precisava de grana e ainda não tinha visto. Rodei rapidinho...
Conclusões Onde quer que esteja, olhe para os dois lados da rua antes de atravessar.

 

CAETANO CARVALHO, 29 anos, designer

Origem/destino É de Brasília (DF), mora em Amsterdã (Holanda). “É a quarta vez que moro fora. Estou aqui há dois anos”
O que faz aí? Estudo design gráfico, mas trabalhei como barman, em galerias, lavei pratos e fui promovido a chapeiro. Agora trabalho para dois estúdios de design.
Passagem de volta Quando terminar a faculdade, em 2011, quero voltar. A vida é ótima aqui, mas sempre serei o gringo. A cidade é tão perfeita que soa artificial.
Teto Estou mudando para um apê novo, o primeiro legal em dois anos.
Do que sente falta? Em São Paulo, morava num lugar grande, perto de tudo.
Reações adversas Uma noite, pedalando contra o vento, surtei e gritei como um louco. Aquela ventania não ia me parar. Funcionou.
Best fucking night No penúltimo réveillon, recebi uma visita especial do Brasil. Fomos a uma puta festa. O DJ era um sueco de 2 m e vestia uma camisa do meu time, o Mengão.

 

Coxinhas e a ponte vermelha

Nosso repórter especial conta como foi a experiência de se sentir em casa ao sair do brasil

 

 

por Bruno Torturra Nogueira

Para ser bem honesto, se tem algo que aprendi morando um ano fora do Brasil foi o quanto dá pra se sentir desterrado em qualquer lugar. Principalmente na sua terra natal. E explico: fui para San Francisco em agosto de 2008 para uma temporada como correspondente da Trip. Mas a escolha da cidade, meus motivos, foram muito mais uma vontade de “morar fora” ou de sentir o sempre transformador “choque cultural” que tanta gente busca ao zarpar para outros fusos. A distância de São Paulo, dos amigos e da língua portuguesa não me afetaram tanto quanto a extrema familiaridade que a cidade da Golden Gate me causou.

 

O caso é que foi de San Francisco que saiu uma parte fundamental da cultura e do imaginário que me definiu como pessoa. Basicamente a falta de reverência à autoridade que, dos beats ao atual ativismo verde, foi adubada por psicodélicos, música boa e uma adoração à natureza. Uma aura de ingenuidade e transcendência, que definiu a datada estética da segunda metade dos anos 60, ainda hoje permeia tudo o que San Francisco tem de único. O sonho de uma vida mais livre e menos hostil, que para mim define o que importa no san franciscano movimento hippie. Algo que, apesar do meu cabelo curto e da total ausência de miçangas e penduricalhos em meu vestuário, é o centro da minha percepção e dos meus planos. Morando a três quarteirões da esquina da Haight Street com a Ashubury e a quatro quadras do lar do Grateful Dead, para minha sorte, ou azar, me senti em casa como nunca.

É evidente que trocar de idioma muda tudo. E te deixa em um estado de constante adaptação. Para alguém que, como eu, vive de exercitar a expressão para ganhar a vida, conversar, escrever, elaborar ideias em inglês demanda uma estranha energia mental. E, pior, tira 80% da minha capacidade de fazer piadas. Ficou claro o quanto do humor é fundado na capacidade de fazer acrobacias idiomáticas. Às vezes isso não tem graça nenhuma, mas foi justamente através do humor deles que entendi melhor o pensamento americano. Um tipo de mentalidade que hesita pouco na hora de pegar pesado com tabus, justamente porque é um país atolado neles.

 

Prefiro não dizer que tive saudades daquelas coisas: do arroz com feijão, do botequim, do famoso bom humor do brasileiro. Faz falta, OK, comer coxinhas e gargalhar a plenos pulmões em uma mesa de bar. Mas, no meu caso, o que fez muita falta foi me sentir... estrangeiro. Minha experiência, confesso, foi bem atípica para ser lida como exemplo de um brasileiro morando no exterior. Primeiro porque meu emprego seguiu sendo brasileiro. Salário em real, prazos e tarefas determinadas pelos mesmos chefes sentados na Cônego Eugênio Leite. O produto final de meu ganha-pão sempre foi em português, para meus patrícios lerem. Muito por conta disso, da não necessidade de trabalhar ilegalmente, ou de ter chefes americanos, minha relação com a cidade de San Francisco foi de extrema gentileza. Me locomover de bicicleta, circular entre sequoias e carvalhos no caminho para um sanduíche, o estranho e anacrônico hábito da população sorrir quando lhe cruza o caminho de manhã cedo... Um tipo de acolhimento urbano que, sem medo de errar, a cidade de São Paulo nunca me ofereceu.

Posso elaborar mais, bem mais, o saldo e os debêntures dos meus 12 meses na Califórnia. Mas tudo seria necessariamente subjetivo, pessoal demais e teria pouco a acrescentar ao leitor com muitos ou nenhum carimbo no passaporte. Mas há sim uma lição. Algo que possivelmente imigrantes sintam em qualquer continente assim que uma terra estranha não lhe cause mais estranhamento. A de que a ideia de pátria, país, terra natal é muito mais relativa e frágil do que nos foi ensinado. A certeza de que mesmo o mais ancorado dos cidadãos mora em um planeta cheio de mundos. E que é a relação entre a realidade interior e exterior que define o que um lugar é. E isso é mais importante, é muito mais decisivo, do que coxinhas, botecos animados ou gigantescas pontes vermelhas.

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