por Marcus Gasparian
Trip #176

Deveriam criar o sommelier do mar: Geribá 2009, mergulho encorpado e tons de azul cobalto

 

As melhores coisas da vida geralmente seguem uma receita bem simples. Praias não fogem a essa regra. Tal como um prato delicioso, mas bem básico, os ingredientes são: de um lado, uma faixa de areia nem tão larga, nem tão estreita, de tonalidade clara e com alguma vegetação de fundo. E, de outro, água salgada correndo no sentido perpendicular à faixa de areia, se possível com algumas ondas a quebrar. Existem, claro, vários opcionais: um fundo de coral, pedras nas pontas delimitando a extensão da praia e até, quem sabe, uma gruta com saída para o mar. Tudo isso contribui, enriquece, mas é acessório. O importante é sentir os pés na areia fofa, respirar a maresia, fitar o horizonte lá longe e acompanhar o movimento do mar. Em torno dessa singela parceria da natureza, o homem fez a festa. Não conheço nenhuma cultura de vida tão rica que tenha como berço uma margem de rio ou uma beirada de lagoa. Até mesmo praia de pedra ou de areia escura já é diferente. Por que será? Existe a mesma dualidade terra/mar, seco/molhado, mas não tem jeito. Não rola. Não é à toa que as praias artificiais tentam copiar a receita básica. A salada caprese da natureza. A fórmula da felicidade para todas as idades, credos e opções políticas e sexuais é esta mesma: areia branca e água salgada.
A experiência do primeiro mergulho e do primeiro caminhar na areia é tão forte que recentemente, ao levar meu filho recém-nascido para o seu primeiro mergulho no mar, senti através dele, por suas reações, risadas e euforia, a mesma sensação de quase 50 anos atrás, quando eu, então bebê, dei meu primeiro mergulho na praia de São Vicente, no litoral de São Paulo. E toda vez que levo o meu pequeno Antonio para a praia essa sensação volta e me sinto aquela criança que fez a farra na praia.
Depois veio o medo. Já estava morando no Rio, em Copacabana, de frente para o mar, quando uma história absurda me foi contada e me deixou muito preocupado com o oceano. Isso porque, depois de ficar importunando uma empregada lá de casa com a pergunta sobre o que havia depois da linha do horizonte, a coitada, não aguentando mais minha insistência, inventou que havia uma enorme cachoeira que despejava toda aquela água num buraco sem fim. Pronto, estava instalado o pânico. A partir daquele dia, sempre que eu via um navio — e eles eram muitos, pois estávamos ao lado da boca da baía de Guanabara — saía em disparada pela casa gritando para todos que havia uma embarcação correndo enorme perigo de despencar. Isso durou algum tempo.

Reino perdido
Mais para a frente, me disseram que, se você mergulhasse num ponto exato da base de uma onda que se formava, imediatamente passava para outra dimensão, em que havia uma cidade (Atlântida?) com pessoas, animais e um clima fantástico. Eu mesmo, após algum treino, vivi isso vária vezes. Aprendi o lugar exato em que meu corpo deveria furar a onda e penetrar nesse mundo paralelo. A lembrança hoje ainda me é tão forte e me causa tanto prazer que não tenho absoluta certeza de que não tenha vivido tudo isso. É daquelas coisas que de tão incríveis parecem impossíveis de acontecer. Mas por alguns anos essa era a principal motivação que eu tinha para ir à praia.
Talvez por conta disso eu ache estranhíssimo pessoas que vão à praia e não mergulham. Pra mim, é como ir a um restaurante e não comer. Um bom mergulho em Ipanema, como dizia Leila Diniz, é muito melhor do que fazer análise. Talvez seja, apesar de Ipanema e seus habitantes viverem hoje num mundo bem diferente daquele em que a atriz viveu.

Grito de guerra
Um mergulho no mar tem particularidades que variam conforme a praia em que se está. Outro dia, uma grande amiga me disse: “O mergulho em Búzios é diferente”. E ela tem toda a razão. O peso da água, a sua temperatura, a cor, tudo é diferente do mergulho em Angra, por exemplo. E os dois nem são tão distantes assim. Imagine então o mergulho no Mediterrâneo (muito salgado), nos mares da Indonésia, na costa de Sri Lanka, na Califórnia ou no Peru. Fico imaginando que barato seria se existissem experts em mergulho que analisassem cada tipo tal como os entendidos em vinhos fazem com todas aquelas explicações malucas: Geribá 2009 – mergulho muito encorpado. Complexidade aromática incrível com balsâmicos, musgo, fundo mineral. Tons de azul cobalto. Bem elaborado, equilibrado, elegante, simples e delicioso. Tchibum... Pensando bem, não seria nada mau essa profissão.
E depois veio o surf... O esporte dos reis, segundo o escritor Jack London. O supremo prazer de deslizar pelas ondas em cima de uma prancha em direção à praia. Uma das melhores contribuições da raça humana à perfeição da natureza. Brincadeira de criança que acabou me levando para os mais remotos cantos do mundo.
Por tudo isso, ensinei um pequeno ritual aos meus pequenos filhos e me divirto ao vê-los cumprir à risca. É mais ou menos assim: ao chegar à praia eles tiram camisa, bermuda, sandálias etc. Abrem bem os braços e correm para o mar gritando: PRAAAAIIIIIIAAAAAAAAA...

* Marcus Gasparian é editor da Paz e Terra, sócio da livraria Argumento e vai à praia há 49 anos.

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