por Henrique Goldman
Trip #234

COM A INTERNET, A IDEIA DE CONTEÚDO FOI BANALIZADA.

AS SINFONIAS DE BEETHOVEN SÃO CONTEÚDO, ASSIM COMO O PROGRAMA DO SÉRGIO MALLANDRO, O GOL DO NEYMAR OU O VÍDEO PORNOGRÁFICO DA LITUÂNIA

Quando surgiu a internet, passou-se a atribuir um novo – e muito irritante – significado à palavra conteúdo. Conteúdo era simplesmente algo contido por outra coisa, como 1 litro de água em uma garrafa ou pedaços de atum em uma lata. O novo sentido que se deu à palavra serve para definir toda e qualquer informação inserida num site ou num aplicativo. As sinfonias de Beethoven são conteúdo, assim como é conteúdo o programa do Sérgio Mallandro, uma reprodução do Les Demoiselles d’Avignon, de Picasso, um gol do Neymar, uma versão do Macbeth, de Shakespeare, em mandarim ou um video pornográfico lituano no YouPorn.

O termo conteúdo é um redutor comum, um banalizador de qualquer ideia, que transforma tudo em uma coisa única, coisa por quilo, a granel. Coisa sem aura. E o que cai na rede é peixe. Sonhos, opiniões, rituais, fenômenos e todas as singularidades viram talheres descartáveis do McDonald’s. Boiam nos mares e, levados pelas correntezas, vão formar uma ilha de lixo que boia no oceano Pacífico. Vale dizer que, em inglês, a palavra content (conteúdo) também significa “contente” ou “satisfeito”. Acho irônico.

Talvez em outros tempos as pessoas se entendessem mais do que hoje. Mas provavelmente não. Cada vez mais nos entendemos menos porque não conseguimos mais escutar direito. Há muito barulho e, na cacofonia, as palavras perdem seu significado. Tudo perde significado.

Walter Benjamin enxergou nosso tempo nos anos 30 do século passado, quando escreveu A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica, onde analisa os efeitos da reprodução de obras de arte na formação da experiência estética contemporânea. Benjamin falava de filmes e fotos, mas sua análise vira profecia quando se pensa na internet.

VULGAR

A adolescente goiana tira uma selfie erótica, expondo seus genitais no Instagram. Defendo o direito de ela se expor. Não podemos fazer os outros pagarem pelo nosso medo de ser livres. Pornografia não assusta. Mas vulgaridade assusta. Tenho pena da adolescente goiana porque imagino que um dia ela vá se arrepender. Mas assustam também os fundamentalismos religiosos. O ressurgimento da jihad no mundo islâmico é o contraponto das selfies com genitais expostos no nosso mundo. Dois lados da mesma moeda.

Eu não seria a favor de voltar atrás em nada, nem se fosse possível e nossa vida não fosse as viagens sem volta que é. Só me deixa triste pensar que tudo seja conteúdo, inclusive as palavras que acabo de escrever.

*HENRIQUE GOLDMAN, 51, cineasta paulistano radicado em Londres, é diretor do filme Jean Charles.

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