por R. Costa

Fenômeno de periferia ignorado pela mídia, o tamborzão agora tá-pa tá-pa tá patrão e ganha documentário

Clipes com milhões de visualizações no YouTube e som bombando nos carros e nas ruas comprovam: estamos no auge da explosão do funk paulista, que chegou a São Paulo com pedigree próprio. Com timing cirúrgico, a produtora Kondzilla lança na internet o documentário Funk Ostentação, o Filme. O média-metragem de 36 minutos mostra a rota de quem subiu a serra de carro Mégane e cordão de ouro para ganhar a Capital e renovou a trilha sonora da juventude da periferia paulistana.

O documentário apresenta de onde veio e o que é esse som que o paulistano anda ouvindo estralando no carro – o próprio, ou dos outros que descem a rua. De alguns meses para cá este é bombardeado diariamente com algo que, para ele, só existia no Rio, mas para o santista é de praxe desde os anos 90. Nova vertente do funk tamborzão, o funk ostentação vem tirando o tempo no baile do proibidão, aquele que é o conhecido e criticado pelas letras de crime e sexo sem limite.

O filme mantém o estilo consagrado pelos clipes dos MCs retratados, algo de se esperar, já que são do mesmo autor, o videomaker santista Konrad Dantas, de 24 anos, cuja produtora tem como nome o seu apelido, Kondzilla. Participam do doc algumas das figuras mais relevantes do funk paulista como Boy do Charmes, Marcelo Fernandes, Bio G3 e DJ Baphafinha, sem contar o próprio Konrad. Com 50 clipes com mais de 100 milhões de visualizações no YouTube, este último é o grande responsável pela estética do audiovisual do funk de ostentação, tendo criado os vídeos e catapultado ao estrelato alguns nomes do gênero graças ao seu trabalho.

Ostentação

O estilo já falava da busca por status e sucesso, vide a onda da "sucessagem" – sucesso e sacanagem – só que não explicitamente, citando as marcas mais desejadas pelos jovens da periferia. O foco pelo luxo traz uma mudança na cultura: o "patrão" não é necessariamente um criminoso, mas quem se deu bem na vida. Pano, carro e mulher falam mais alto do que pistolas e drogas, quem sabe resultado da melhora de vida das classes C e D, de onde vêm muitos dos atuais MCs. Junto vem o acesso a internet, principal caminho para um gênero que, apesar de agregar cerca de cinco mil pessoas nos grandes bailes, não toca nas rádios e programas de TV.

 

O foco pelo luxo traz uma mudança na cultura: o "patrão" não é necessariamente um criminoso, mas quem se deu bem na vida. Pano, carro e mulher falam mais alto do que pistolas e drogas

 

"Quando era ruim ser das classes C e D e que você não arranjava emprego por morar em uma favela, o grosso da manifestação cultural produzido nas comunidades tinha como interesse o protesto, a reivindicação, a indignação pela sociedade desigual na qual eles estavam vivendo. Quando a vida das pessoas começa a melhorar, o discurso dessas pessoas muda para o de celebração. Não que ainda não haja motivos de protesto, mas o sentimento de melhora de vida é muito maior do que o de dez anos atrás. E o brasileiro gosta de celebrar isso cantando e dançando", diz no documentário Renato Meirelles, diretor do Data Popular - instituto de pesquisas especializado nas classes C, D e E.

Os clipes ajudaram a fixar a imagem dessa pegada nova, já que antes eram bem raros. Fora que ver em alta definição as meninas de vestido curto montando em motos Shinerays ajuda a pintar o quadro de como é bom ser "vida loka". Se antes conseguir algum dinheiro era uma batalha, a onda agora é usufruir a vida com tudo que se pode. E isso inclui chapar de "Chandão" e "forgá no baile".

Esse é o futuro do funk? Ao menos é o presente. O que não implica que os outros temas tenham sido excluídos do estilo. Para quem já curtia antes, é uma evolução do chamado "funk adestrado", onde uma ou duas frases são repetidas até causar enjoo. Já quem não curte, bem, nunca "caiu no mundo com as nave que para tudo".

 

Funk Ostentação - O Filme

 

Outros clipes de sucesso de Kondzilla:

MC Boy do Charmes - Onde eu chego paro tudo (com mais de 20 milhões de atualizações)


MC Guime - Tá patrão (mais de 14 milhões de visualizações)


Vai lá: www.kondzilla.com

 

(*) O Coletivo Action é um site especializado em cultura negra e sua equipe colabora com o site da Trip www.coletivoaction.com

matérias relacionadas