FUCK THE FASHION
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
Tem se falado exageradamente sobre moda nos últimos doze ou quinze meses.
Alguns dados importantes contribuem decisivamente para este oba-oba. A economia oxigenada pelo real é certamente o principal. O dinheiro tem trocado de mãos com mais freqüência e os investimentos em alguns setores das indústrias e do comércio foram retomadas. E é claro, é de indústria e comércio que estamos falando quando a palavra moda vem à conversa.
Este aliás, parece ser o grande drama. É fácil perceber o esforço extremo dos envolvidos com a indústria e o comércio de roupas, no sentido de alçar a atividade à condições de arte.
É aí que tudo se confunde e que se produz a geléia rica em nutrientes que alimenta e engorda produtoras e divulgadoras deslumbradas, fotógrafos medíocres, modelos de segunda, estilistas de quinta e outros micróbios.
Esta sub-raça que esgueira pelos corredores de grandes editoras ou pelas ante salas de desfiles e ‘VERNIÇAGENS’ ( juro que já vi escrito assim por aí) atrás de um gole de vinho branco, uma coxinha e um ‘free-lance’ bacana, tem prestado ao mesmo tempo um favor e um desserviço à atividade.
Favor porque quanto maior a quantidade de medíocres ciscando na área, mais valorizados são os dois ou três fotógrafos realmente competentes e criativos, as cinco ou seis produtoras eficientes e bem informadas, e a meia dúzia de modelos que sabem vender com elegância os mais diferentes tipos de look, o mesmo valendo para estilistas, editoras e jornalistas ‘do meio’.
O desserviço fica por conta do ridículo em que volta e meia, o universo da moda se vê colocado por esta turma que sem qualquer qualificação tenta se igualar aos profissionais a qualquer custo.
Já que são raríssimas as chances de se conseguir o reconhecimento de uma roupa como legítima manifestação artística, das que emocionam qualquer classe de ser humano e principalmente dos que não perdem o sentido e ao contrário, crescem com o passar dos séculos. Resta à moda, preocupar-se com conteúdo, design e qualidade das roupas.
Em alguns lugares civilizados, um fotógrafo só vai conseguir ostentar este título depois de passar por alguns anos de estudos sobre luz e centenas de pequenos artifícios e técnicas. Depois disso vai gramar por outros tantos como assistente de algum faixa preta. Só aí, então, será chamado para realizar o que naquela altura já estará dominando: fotografias.
O sistema de faixas aliás seria uma boa sugestão. Considerando que hoje, basta uma nikon de segunda mão para se apresentar como fotógrafo; uma frasqueira engraçada com gel, alfinetes, um o. b. e uma mini-saia de pelúcia para se dizer produtora; uma caneta, um bloco e uma lauda publicada onde se leia pelo menos uma vez o nome Herchcovitch para ser ‘jornalista especializada’. Por que não reunir todos na estação Júlio Prestes ou na ‘Phabrica’ vestidos de quimonos ( uma coisa bem cortada e com tecidos modernos, claro ), num autêntico ‘Karatê Kid Style’.
Uma banca examinadora composta por mestres incontestáveis aplicaria testes e depois disso seriam dadas faixas de branca a preta. As faixas seriam amarradas no pescoço e não na cintura, num último esforço para não deixar ego e deslumbramento subirem à cabeça.
Sugiro até alguns nomes para esta banca. Andreas Heninger e Arnaldo Papallardo poderiam julgar fotógrafos e luz. Cristina Franco, ela mesma, poderia avaliar aspirantes a jornalistas e editoras de moda. Os candidatos a modelos seriam examinados por mestres como Giselle Zelauy e Guilherme London. Num quartinho acolchoado e a prova de som, seriam colocadas as candidatas às faixas como estilistas. Alí poderiam dizer e expressar à vontade, criticando um, a última coleção do outro e negando uns aos outros, convites para desfiles.
Alberto ‘Turco Loco’ Hiar, uma das únicas figuras espontâneas do cenário, que divide seu tempo entre as carreiras de vereador e de criador e fabricante de roupas, disparou domingo passado, em entrevista à Folha, uma frase que encontra eco nas cabeças sérias da moda do Brasil: ‘90% das roupas feitas neste país são copiadas de modelos vistas em feiras, desfiles e até em lojas da Europa, Japão e Estados Unidos’. É este o ponto, enquanto a palavra mundinho puder ser usada para definir este ramo de atividades, a moda estará definitivamente condenada à categoria de aspirante deslumbrada e ansiosa de um Olimpo distante chamado arte.
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