FOGO NA BOMBA
Durante a transmissão de cenas da festa de lançamento da nova novela da Globo, via-se claramente como a mídia persegue e engole seu próprio rabo.
Por Redação
em 21 de setembro de 2005
É muito reconfortante presenciar certos fenômenos numa época em que quase nada que não seja alavancado pela mídia acontece.
Durante a transmissão de cenas da festa de lançamento da nova novela da Globo, via-se claramente como a mídia persegue e engole seu próprio rabo. Programas da TV Globo competiam no afã de conseguir entrevistar artistas da Globo, que por sua vez vestiam-se, falavam e se comportavam da forma mais adequada para conseguir mais espaço na Globo.
Uma novela costumava ter no máximo uma festinha de apresentação do elenco ou Hans Donner orgulhoso mostrando uma abertura em que uma de suas mulatas saía de dentro de uma banana ou transformava-se em arranha-céu. Hoje, aparecer na entrada de uma dessas festas ou beijar a mão (para não ir mais longe) da pessoa certa pode significar, em seis meses, estar licenciando o nome para uma marca de lingerie ou um creme anti-estrias.
Tudo muito confuso para quem vê de fora e certamente muito mais para quem vivencia por dentro. Quem tem talento e beleza tem de se esquivar de quem só tem inveja. Quem é feio tem que virar simpático. Gordo tem que ser humorista. Bonito tem que provar que não é homossexual. Homossexual tem de fingir que não é. Uma mentira gigante que se retroalimenta e é vendida por atacado na TV e pelo varejo nos jornais e revistas.
É verdade, não temos indústria de cinema significativa no Brasil, mas a TV se encarrega de matar gente famosa de depressão causada pelo conflito permanente pessoa X personagem.
Fiquei com pena da atriz Claudia Jimenez. Vi a matéria da semana passada ou retrasada numa revista (Caras ou Chiques & Famosos). Encimando uma foto da pobre moça andando no calçadão carioca visivelmente fora do peso, uma manchete: CLÁUDIA JIMENEZ RECUPERA A FORMA (era isto ou algo parecido). Dias depois, o jornal Notícias Populares carregava no título ‘GORDA DA GLOBO TEVE ENFARTE’. O que estaria pensando Claudia diante destes episódios, convalescendo da cirurgia coronariana, por si só um trauma e tanto?
Mas o motivo de prazer a que me refiro no primeiro parágrafo e do qual ia quase me esquecendo é que, no meio deste circo todo, as manifestações criativas diferenciadas ainda têm lugar cativo e o povo se encarrega de difundir. A banda de rap DE MENOS CRIME, com linguagem, entonação e ritmo próprio, estoura na periferia, avança pelos Jardins e já está nos walkmen dos manobristas que estacionam os Audis na festa da Globo.
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