por Carol Ito

Rabiscos, linhas tortas e desproporção são obras de arte na Feira Des.gráfica

Proporções perfeitas, traço realista, pintura impecável, tudo que agrade ao olhar: eis os ingredientes do trabalho de um bom desenhista. Certo? A se julgar pela Feira Des.gráfica, completamente errado.

Em sua segunda edição, o evento das editoras Ugra Press e Antílope que entra em cartaz na sexta-feira no Museu da Imagem e do Som (MIS) “foi todo pensado para atender o pessoal do fundão dessa sala de aula um tanto excludente que é o mercado editorial”, como explica o curador, Rafael Coutinho. O foco são quadrinhos experimentais e artes gráficas que propõem desafiar padrões estéticos e narrativos – e que, consequentemente, acabam tendo menos repercussão entre o público.

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A ideia é reunir 100 expositores de várias regiões do país, além de editoras independentes, como Mino, Lote 42, Narval, e Veneta, para celebrar este que é um dos melhores momentos da história dos quadrinhos com um respiro da cena mais tradicional. "Tudo que não queremos, nós profissionais e amantes do meio, é que se torne engessado e homogêneo, que pare de apontar para o novo, para o estranho, pra tentativas e acertos fora do usual", afirma Coutinho, que também é quadrinista.

Nesse nicho dos quadrinhos estranhos, o que se persegue é aquilo que, a olhos leigos, pode parecer amador, malfeito, infantil, sujo ou simplesmente feio. E são vários os artistas da cena que nos convidam a abandonar os velhos maniqueísmos para entender que toda forma de expressão vale a pena. Pensando nisso, compilamos aqui uma lista desses mestres e mestras dos desenhos feios.

JACA

Autodidata e experiente em estéticas "descompromissadas", JACA  não faz esboços e, geralmente, usa caneta esferográfica, no esquema tudo ou nada. "Talvez seja um jeito de dizer que qualquer pessoa pode desenhar a qualquer hora e em qualquer situação." Começou a trabalhar como ilustrador aos 15 anos, em 1972, com cartazes publicitários e jornais de Porto Alegre e São Paulo. Hoje, é representado pela galeria Choque Cultural e assina séries de desenhos que divide entre as categorias DSV (desenhos sem vontade), DCS (desenhos com sono), DPS (desenhos para salvar), DesenhoCop (uma mistura de ideias aleatórias) e os zines Desenhos Feios, que costuma trocar em feiras de quadrinhos. "É um sistema para catalogar minhas experimentações, tipo uma brincadeira comigo mesmo", explica.

Tais Koshino

"O que gosto no desenho é o absurdo: linhas tortas, formas disformes, erro de perspectiva." A brasiliense Tais começou a publicar fanzines em 2011, junto com a ilustradora Livia Viganó. "As pessoas achavam muito legal o fato de a gente publicar, mesmo com nossas capacidades técnicas e artísticas não tão boas", relembra. Criadora do selo de quadrinhos independentes Piqui, ela foi selecionada pela convocatória da Des.gráfica deste ano, com direito a publicação de um livro após o evento. E não é de hoje que nota cada vez mais interesse por esse tipo de estética. "É legal perceber cada vez mais espaços pra isso, tanto no mundo dos quadrinhos quanto nas galerias e na tatuagem", comemora.

Heron Prado

"Proto-quadrinho-bizarro", é assim que o mineiro Heron Prado classifica seu livro Brainstorm, selecionado pela Des.gráfica no ano passado e publicado com o selo da própria feira. Noutras palavras, ele considera seu trabalho como um experimento sem grandes pretensões. De certa forma, foi essa mesma habilidade de encarar na esportiva que o alavancou ao meio, depois de um chega-pra-lá no fim da faculdade de arte, quando um professor disse que Heron havia "desaprendido a desenhar" ao longo do curso. "Não sei se queria me tirar, mas peguei como elogio", lembra ele.

Rita Juliane

A gaúcha é autora da HQ A fantástica aventura de ser mulher, em que narra episódios do cotidiano feminino. Os desenhos de palitinho não impediram que a página no Facebook chegasse a mais de 100 mil curtidas. "Não sei se é feio, acho que desenho é algo estranho de qualificar. Mas não acho bonito também", diz Rita. Por trás dos desenhos quase infantis existe uma estratégia política: "Com a simplicidade do desenho, anulo estereótipos. Porque são todos palitos no fim. Mudo algumas coisas nos rostos, mas não se tem ditadura da beleza. A personagem pode ser qualquer uma".

Bruno Maron

"Acabo entrando na brincadeira quando alguém vem me falar que acha meu desenho sujo ou podre. No fundo, gosto, porque tenho a impressão que a feiúra incomoda. E o incômodo é um elemento que realça muito a crítica humorística", diz o autor das tiras Dinâmica de Bruto. Bruno conta que queria desenhar bem no começo, mas que sempre se frustrava. Então, decidiu abraçar o ofício do desenho feio. "Pode parecer esquisito, mas dá pra buscar uma excelência na precariedade."

Flavia Brioschi (Flavussh)

É quase impossível olhar para os desenhos da ilustradora e não pensar no quão maravilhosos e bizarros são ao mesmo tempo. Ela publica seus trabalhos na página Flavushh, do Facebook, e não costuma refletir sobre se o desenho é feio ou bonito, só acha que a "pira da busca pelo 'belo' é uma grande babaquice". Os desenhos feitos por crianças a inspiram, pois, segundo ela, ainda "não tiveram sua criatividade e expressão artística podadas de maneira alguma".

João Victor Rabello

João Vitor Rabello é autor do blog Quadrinhos Perturbados,  de tirinhas de humor nonsense. Junto da fotógrafa Gabriela Leite, ele toca a editora independente Avocado, que está na lista de expositores da Des.gráfica deste ano. "Acho que os desenhos mais legais têm personalidade. Gosto dos bizarros, expressões espontâneas de artistas pirados. O desenho não precisa ser bonito para contar uma boa história", diz.

 

Vai lá: Feira Des.gráfica, de 3 a 5 de novembro, no MIS (av. Europa, 158 - Jardim Europa, São Paulo)

Créditos

Imagem principal: Tais Koshino

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