por Mario Bortolotto
Trip #167

Convidamos o dramaturgo Mário Bortolotto para reencontrar três ex-namoradas e entender por que as relações terminam

Inspirados no filme Flores  partidas, convidamos o  dramaturgo Mário Bortolotto para reencontrar três ex-namoradas e entender por que as relações terminam. Em vez de flores, ele levou CDs e concluiu:  "Por baixo do ruído, ainda é possível ouvir a canção". Na Tpm, a escritora Índigo mostra  o lado feminino da questão

texto Mário Bortolotto* fotos fabiano schroden

No filme Flores partidas, Bill Murray interpreta um sujeito que empreende uma viagem em que reen­contra suas ex-mulheres. Era pra eu fazer algo parecido e escrever uma matéria tentando decifrar por que, afinal, as histórias com as minhas mulheres chegaram ao fim. Não creio ser necessária uma matéria para entender as razões que culminaram no fim de meus relacionamentos. É tudo crônica de uma morte anunciada, tá ligado? É só olhar pra minha indigesta fachada pra mulher perceber que não vai dar certo. Mas também defendo a idéia de que, se eu fiquei uma noite com uma mulher e foi legal, então deu certo. Não sou do tipo que acredita em casamentos. Irônico e contraditório, já que fui casado três vezes, e dois desses casamentos duraram teimosos e inacreditáveis nove anos. Dia desses uma querida amiga me mandou um e-mail em que ela terminava assim: "E, quando o seu cabelo voltar a ficar branco, tente manter este ar de garoto sem dono que você tem" (ela se referia ao fato de meus cabelos estarem temporariamente tingidos por conta do filme Augustas, que filmei até poucos dias atrás). Acho que, por mais que tenha tentado obstinadamente me relacionar bem com alguém, tenho mesmo esse jeito que muitas mulheres me esfregaram na cara entre impropérios e pratos arremessados pela cozinha: "Você quer ficar casado e levar vida de solteiro". Quando elas dizem isso não estão se referindo exatamente a traições nem a festas infindáveis com mulheres das mais variadas etnias. Apenas a porres homéricos e intermináveis madrugadas adentro, uma solidão devastadora e uma falta de companheirismo alardeado por elas ad nauseam. Sempre tentei aceitar como justificadas essas acusações e assinar qualquer BO necessário. Não sou exatamente o sujeito talhado pra assumir uma relação e deixar uma mulher feliz. Então por que acabo insistindo nessa idéia utópica e vez ou outra acabo lá com meus livrinhos malditos trancado no banheiro da casa de uma delas?

Então, sentado mortificadamente sozinho lá no chão da kitchenette ouvindo Furry Lewis, fiquei pensando que seria uma oportunidade não exatamente para acertar contas com o passado (acho isso solene demais), mas talvez resgatar velhas baladas para um iPod de última geração. E deixar as faixas riscadas tocarem, simplesmente porque, debaixo de todo o ruído, ainda é possível ouvir a canção.

Então o editor me disse: "Você leva umas flores pra elas". Retruquei de imediato: "Nem fodendo". Ele pareceu não entender: "Mas é o lance da matéria, no filme o Bill Murray.". Fui enfaticamente pragmático: "Eu não levo flores. Nunca dei flor pra mulher nenhuma. Não vou começar aos 45. Não acredito em flores. Se eu chegar com um ramalhete de flores na porta da casa delas, vai ser um choque. Elas vão me mandar embora, vão me chamar de impostor e o caralho". Resolvi comprar CD. Este sim era um presente verdadeiro. Ia comprar Van Morrison pra elas. Seria uma espécie de teste. Se elas não ficassem estupidamente felizes com o presente, então eu já ia entender por que terminou.

ELVIS PRESLEY

Cheguei a Curitiba logo depois do almoço. Eu devia me encontrar com Rosi às 15h em sua casa. Hoje Rosi é apresentadora de TV e jornalista muito requisitada. Quando a conheci, ela havia acabado de entrar na faculdade de jornalismo. Lembro do primeiro beijo. Ela me mostrava orgulhosa alguns discos de Elvis Presley. Eram os piores da fase já caída do Rei. Em um momento de distração, enquanto eu tentava convencê-la de que uma música com o título "Ku-u-i-po" não podia ser considerada um clássico, roubei dela um beijo de leve, no que fui energicamente repreendido: "Vê se não vai se acostumar, hein?". Eu a beijei de novo, passei a língua pela boca como se saboreasse um chocolate Prestígio e devolvi: "Ah, acho que não dá pra acostumar não". Ela ficou puta comigo e foi assim que começou. Ela costumava me levar pra comer cheese-salada, e eu tirava as ervilhas do meu sanduíche e dava pra ela.

A gente se sentava em cima do telhado de casa e ficava chupando manga enquanto Rain dogs tocava sem parar lá embaixo. À noite a gente deitava no colchão velho no chão e ela me abraçava assustada com medo das ratazanas que costumavam andar sobre as vigas do quarto. Aí ela alugou uma kitch e a gente foi morar junto. Ela nunca foi de vida noturna. Eu era o contrário. Era tipo Feitiço de Áquila.

Eu bebia tudo o que podia durante toda a madrugada e baixava na kitchenette com o dia amanhecendo acompanhado de uma corja de amigos tão bêbados quanto eu. A escória da madrugada se esparramava pelo chão da kitchenette. Eu a abraçava. Ela levantava e ia pra faculdade. Nunca reclamou de nada.

Se brigamos uma vez em toda a nossa história fui eu que provoquei, só porque queria saber como os casais normais se sentiam. Eu disse isso no nosso encontro e ela retrucou sorrindo: "Eu não lembro". Acredito que é da natureza das pes­soas suaves abdicarem da prepotência de possuírem uma memória prodigiosa. Eu diria na verdade que é da natureza das pessoas delicadas esse tipo de invejável memória seletiva. Eu terminei com ela porque não queria traí-la. Eu sabia que ia me envolver com outras garotas. Era iminente. Mas eu ainda a amava como o sujeito que ama o seu disco de rock preferido e, ao ver a casa em chamas, se atira dentro dela e só saí de lá com o LP debaixo do braço.

Quando cheguei a sua casa, foi tudo tranqüilo, como sempre foi tratando-se de Rosi. O mesmo abraço carinhoso, o sorriso encantador, o jeito suave e absurdo. Depois de conversar calmamente com ela, saí de lá e fui beber um vinho com o marido dela, o baixista e escritor Rubens K, que considero meu irmão. Fui eu que os apresentei e eles estão casados há 16 anos. Gosto de saber que são felizes, na maior parte do tempo, é claro. Gosto de saber que algumas pessoas conseguem aquilo que eu me sinto incapaz de conseguir.

VAN MORRISON

Voei no dia seguinte pra Londrina. Eu ia me encontrar com Ana. Eu não a via há 17 anos. Fiquei sabendo que ela tinha passado por um problema de saúde bastante sério. Fiquei com vontade de ligar, mas sempre temeroso de encontrá-la novamente. Lembro que, depois que a gente terminou, eu a deixei bastante magoada por ter dado o seu telefone pra uma garota que era meio psicopata e que atormentou sua vida durante algum tempo. Não fiz por mal, mas me sentia culpado. A gente marcou num café no centro da cidade. Ana tem uma escola de crianças. Ela saiu no intervalo pra me encontrar.

Conheci Ana no Valentino, que na época era o bar mais bacana de Londrina. Assim que coloquei os olhos nela, fiquei imediatamente apaixonado. Eu entrei no bar e ela estava lá com algumas amigas. É a personagem principal do meu livro Bagana na chuva. Aliás ela é a razão de o livro existir. No livro ela é Ângela.

Engraçado que ela não sabia que esse livro era a nossa história. Foi uma amiga em comum que o entregou pra ela: "Sabia que você é a protagonista desse livro?". Ela pegou o livro cética, leu e se reconheceu de imediato: "Caramba, mas sou eu mesmo. Ele se lembra de tudo. Como é que pode?".

Ela continua metidinha e extremamente charmosa. Não é o tipo de garota que dá mole, se é que me entendem. Mas agora, 17 anos depois, ela me beija espontaneamente quando dou pra ela o disco do Van Morrison. Eu sempre soube que Ana tinha bom gosto, pra quase tudo e na maior parte do tempo. Sua única falha foi ter ficado comigo durante três meses. Ainda bem que ela não é perfeita. Ela fala: "Eu só lembro de coisas boas com você, Mário. Da gente andando pela noite, bebendo. Você era complicado, mas só lembro de coisas boas. Só fiquei chateada quando você deu o meu telefone para aquela maluca". Foi ela que terminou comigo, como narro no livro. Eu criava caso, arrumava encrenca e dificultava tudo. E havia dezenas de caras na fila. Ela explica: "Eu pensava: ‘Qual é a do Mário, porra? Eu namoro ele, dou pra ele, gosto de estar com ele, e ele sempre complicando tudo, reclamando, criando caso'. Aí pensei: ‘Tem esse outro cara, bonito, disponível. Quer saber?'".

E ela foi namorar o cara. E eu fiquei sozinho e muito mal, durante muito tempo. Tentei me resignar e não consegui. Então comecei a escrever o livro numa tentativa de me redimir de tudo.

À noite voltamos a nos encontrar, na Vila Cemitério de Automóveis, e ficamos conversando até de madrugada. Duas coisas que eu não fazia há muito tempo: conversar com Ana e beber Natu Nobilis, que era o único whisky que tinha à venda. Quando ela foi embora, eu a levei até o táxi. E fui ouvindo a voz dela, que é terrivelmente calma, como a dessas mulheres lindas que anunciam meteorologia nos jornais da TV. Tenho certeza de que não vamos ficar mais tanto tempo sem nos encontrar, e isso não me parece nenhuma previsão de tempo.

MILES DAVIS

Encontrei a Chris à noite na Vila Cemitério de Automóveis, que ela dirige com zelo, dedicação e carinho, como tem feito com tudo ao longo de toda sua vida. Chris se investe de uma autoridade que às vezes nem sequer dá conta de ter. Mas ela é atirada e corajosa. Não é à toa que é mãe esmerada e amorosa de três crianças. A mais velha é minha filha. Ia ter um show logo mais na Vila. Antes de começar, dei a ela uma coletânea do Miles Davis. A gente alternava o balcão e o palco enquanto falava de tudo, sem nenhuma espécie de mágoa. O tipo de atitude que pessoas que se amam eternamente sempre vão ter.

Chris era professora de literatura e atriz. A gente se conheceu na festa de abertura do Festival de Tea­tro. Ela tava dançando e eu tava de longe, olhando ela se mexer. Saímos de lá direto pra uma república de estudantes e nos trancamos no primeiro quarto disponível, mas não rolou nada na primeira noite. Só ficamos deitados conversando. Mas passou a acontecer nas noites seguintes durante nove anos. Ela costumava me levar bêbado até sua casa e me preparava um prato de comida. Ela misturava tudo o que encontrava nas panelas da mãe dela, esquentava e me preparava um prato. Eu comia enquanto brincava com o Tog, o cachorro da irmã dela. Depois ela me emprestava sua bicicleta e eu ia embora de madrugada pedalando e levemente feliz. Foram nove anos juntos, de idas e vindas. O mais próximo que consegui chegar de uma família foram os três meses que morei com ela e a minha filha. Escrevi dois livros num computador velho e passeava à tarde pelo calçadão de mãos dadas com a minha filha. Não é tão ruim assim se você consegue, sabe como é?

Eu sei que terminei com ela porque me apaixonei por outra mulher quando me mudei pra São Paulo. Uma história de um amor fou que tinha que acontecer e que já estava prometida há muito tempo. A verdade é que entre Chris e eu sempre foi tudo muito transparente e muito sofrido, mas ocasionalmente muito feliz. Não podia deixar de ser.

MARC FORD

Voltando no avião pra São Paulo, liguei o meu MP3 e fiquei ouvindo "Bye bye Suzy", do Marc Ford. Fiquei pensando no quanto as relações naturalmente se deterioram, mas cheguei à conclusão de que as pessoas não. As pessoas se mantêm íntegras e dignas. Então entendi que as relações, tal como as idealizamos, podem até acabar, como inevitavelmente acabam, mas o amor pelas pessoas não acaba nunca. Se for de verdade, é pra sempre. Foi o que aprendi revendo essas três mulheres fundamentais na minha vida. Foi o que senti quando o avião aterrissou em São Paulo. É o que estou sentindo agora, enquanto escrevo este texto. É o que vou sentir logo mais de madrugada, quando já estiver embriagado e ouvindo os meus amigos cuspindo bravatas. Eu vou rir suavemente com um ar de triunfo no rosto e eles não vão entender o motivo. Ah, é bom se sentir assim. Por baixo de todo o barulho, alguma espécie de paz.

*Mário Bortolotto é escritor (Bagana na chuva e Mamãe não voltou do supermercado), dramaturgo (Prêmio Shell de 2000 por Nossa vida não vale um Chevrolet), diretor (com duas peças em cartaz em São Paulo, O natimorto e Tape), ator (acabou de filmar como protagonista o filme Augustas, de Francisco César Filho) e vocalista das bandas de rock e blues Saco de Ratos e Tempo Instável

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