por Francisco Bosco
Trip #171

Nosso colunista fala sobre a banalidade do sexo nos dias de hoje, e como é possível gozar apenas tocando no cotovelo

POR FRANCISCO BOSCO*

Nos romances de Sade as mulheres mais velhas e experientes têm a importante função de estimular a imaginação sexual dos jovens antes de eles começarem as orgias. Já no canal GNT, a função da senhora Sue Johanson é montar um consultório sexual com uma linguagem que, além de pouco inteligente, é pseudocientífica. Um dia um homem ligou se queixando de que sua namorada estava frustrada sexualmente porque ele gozava mal a tinha penetrado. Sem hesitar, Sue deu ao rapaz o mui profundo conselho de se masturbar antes de transar com a moça: “Assim você se esvazia e demora mais a gozar”. Ora, não é preciso ter lido Freud para saber que a ejaculação precoce é uma inibição, algo antes ligado à culpa do que a um excesso de excitação.

Esse tipo de generalidade rasa domina a gramática sexual em nossa cultura. Durante o Pan do Rio, por exemplo, o Fantástico fez uma matéria mostrando casais que estavam se inspirando nos atletas para estimular seu sexo: as esposas decoravam o quarto com bandeiras do Brasil, os maridos ostentavam medalhas na hora de ir para a cama... enfim, um festival de fantasias prêt-àporter. Além disso, hoje quase tudo é submetido a um registro explícito de visibilidade: o decote deu lugar ao fio dental, as imagens de sexo e violência estão por toda parte. E o modelo de corpo desejável é jovem, sarado, eficaz.

A cultura procura impor uma gramática estreita, mas a sexualidade humana não se deixa enquadrar por esses modelos. Mesmo as famosas zonas erógenas, de certa forma, não existem – zonas erógenas transcendem a mera geografia do corpo: elas têm uma dimensão simbólica. Pode-se gozar até mesmo sendo tocado no tecido morto do cotovelo. Artistas e pensadores estão sempre aumentando esse repertório, reivindicando a singularidade e a grandeza eróticas. A psicanalista Maria Rita Kehl diz que são os poetas que entendem de erotismo. Quer entender essa frase? Veja o filme Eu, você e todos nós, da Miranda July.

Em meio a tanta visibilidade e padronização, algo permanece obsceno na nossa cultura: é o corpo da mulher velha enquanto objeto (e sujeito) sexual. E é essa obscenidade que as fotos magníficas de Vera Barreto lançam na nossa cara. Essas fotos trazem a nossos olhos, como um claro enigma, um espaço recalcado do repertório sexual contemporâneo. Essa intimidade com o obscuro as torna capazes de revelar mais sobre a sexualidade do que todas as lindas e conhecidas fotos das jeunes filles en fleur.

*FRANCISCO BOSCO é escritor, ensaísta e letrista, autor de Banalogias e Da amizade. Sua coluna para a Trip não tem lugar fixo: a cada edição, o texto irá acompanhar e comentar uma reportagem de sua escolha. Seu e-mail é franciscobosco@terra.com.br

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