por Fausto Fawcett
Trip #236

Perseguir a vulva para adorá-la

Espírito e boceta são, para mim, as palavras mais lindas da língua portuguesa. São enigmáticas, contundentes. Não existem outras que evoquem tão bem nossa vontade de vencer a obsolescência da carne, do organismo, do corpo; que traduzam de forma tão certeira a sensação de poder e plenitude que a inteligência nos dá: o prazer do intelecto funcionando para entender e modificar a vida na Terra.

Boceta é palavra que provoca visões de outras dimensões, enigmas de transcendência. Salto no escuro da nossa insignificância, lugar de onde viemos e para onde nós, homens, sempre somos chamados de volta.

A boceta é o ponto de partida para o espírito e para tudo o que existe em termos de civilização,
pois, da foda inicial até o parto, há toda uma viagem orgânica de mutações celulares, hormonais, musculares e carnais na gestação de cérebros e corações, esses bunkers dos afetos, das imaginações e das cognições que comandam nossas vidas. Tudo, inclusive o espírito, acontece primordialmente nesse túnel do amor – no sentido mais amplo e terrível. É a caixa-preta, quer dizer, rosada, onde são geradas todas as informações humanas.


"A boceta é a caixa-preta, quer dizer rosada, onde são geradas todas as informações humanas"


Adoro falar boceta e sempre faço o que Henry Miller fazia quando conhecia uma nova mulher, que ele chamava de boceta, pois ali está o cerne da fêmea – e ele, quando conhecia uma nova mulher- boceta, sempre se entregava ao ritual clínico, científico, ginecológico, quase cirúrgico, de ficar examinando a racha, seu interior e perímetro, pois ali estará sempre a origem do mundo; e tocar, acariciar, chupar, cheirar, beijar, penetrar suavemente ou socar brutalmente seu interior (mesmo menstruada) é de alguma forma entrar em contato com todos os big bangs possíveis. Explosão de gozo e criação.

Vagina também é uma palavra adorável, apesar de científica designação anatômica. Também nos empurra mulher adentro e nos faz pensar nos treinamentos, nos exercícios para aumentar a potência desse túnel muscular. Faz pensar nas tailandesas mestras do pompoarismo, essa modalidade de musculação bocetântrica que ensina as mulheres a aprisionar pirocas, lançar bolas de pingue-pongue à distancia ou simplesmente aumentar o orgasmo, controlando suas contrações e espasmos.

Mesmo que, no futuro, a reprodução migre para outras partes do corpo, mesmo que de alguma forma a penetração seja substituída por orgasmos teleguiados digitalmente, a boceta será sempre a protagonista, o centro do pensamento sensual, dissolvendo os egos mais vaidosos e orgulhosos. Toda boceta é de Pandora, contendo segredos terríveis, enigmas desconcertantes. Vagina. Altar de todas as penetrações e da pequena morte. Altar do flerte com a Queda, a Serpente e a Árvore do Conhecimento. Altar da Foda. Vagina-me, baby. Adoro boceta.

*Fausto Fawcett é escritor, compositor, autor do hit “Kátia Flávia” e PhD em boceta