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Escolha pobre: rico ou feliz

Nosso colaborador diverge da Bíblia e acredita que ricos podem, sim, ir para o reino dos céus

Escolha pobre: rico ou feliz

em 6 de setembro de 2006

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Caro Paulo,

Eu tenho uma coleção de ricos, famosos ou não, que durante a minha vida alimentaram minha imaginação e meus sonhos de felicidade e liberdade.

O primeiro não foi nada inspirador. Era o Tio Patinhas, que a moral cristã disneyana não permitiu que fosse rico e feliz. O herói era o Donald, sobrinho pobre, desempregado e atrapalhado. O segundo também não foi bom. Era o patrão do meu pai, um banqueiro avarento como o Patinhas. Na minha cabeça, ele afastava o meu pai da família durante o dia e mesmo à noite ligava para casa e ficava discutindo com ele até tarde, deixando-o preocupado e nervoso.

A galeria de personagens começou a melhorar com o Fantasma, o espírito que anda. Seu tesouro era interminável. Mas me intrigava o fato de ele ter 400 anos e seu tesouro nunca acabar – ele não trabalhava e só ficava andando atrás de bandidos. De qualquer forma tinha um heroísmo que eu curtia, apesar de achá-lo muito solitário sem a namorada naquela caverna no fim do mundo.

Os príncipes e as princesas eram ricos e bonitos mas eu nunca acreditei que eles foram felizes para sempre. Too sweet.

Nascido em uma família cristã, educado por religiosos, fui ensinado a não ver a riqueza associada à virtude e à felicidade. Pelo contrário, o rico tem dificuldade de entrar no reino dos céus, segundo a Bíblia.

Na faculdade, jovem e idealista convivendo com intelectuais, a idéia de ser rico, digno e feliz ao mesmo tempo se consolidou como inviável dentro de mim. A escolha era pobre: ou rico ou feliz. E eu, ingenuamente, aceitava a opção como heróica.

Passado o heroísmo simplório da juventude, aos poucos fui percebendo que a vida não é tão pobre assim. Passei a perceber ricos-que-faziam-o-bem e que eram razoavelmente felizes. Na verdade, eram as mulheres dos homens ricos que faziam o bem. Caridade, como se diz lá em Minas. Os homens ganhavam e as mulheres doavam dinheiro.

Com o tempo os homens apareceram como doadores. Até hoje isso é comum e necessário. Vejo o homem mais rico do mundo, Bill Gates, e sua mulher, Melinda, doarem a maior parte de sua fortuna para ajudar a resolver o problema de saúde e educação de populações pobres. Legal. Vejo o riquíssimo e sagaz George Soros, o homem que derrubou o Banco da Inglaterra, dizer na Folha de S.Paulo que seu legado é sua filantropia e seus livros. Bacana. Mas, apesar de ricos e felizes por fazer o bem, essas referências de riqueza e felicidade não me satisfaziam.

Aconteceu que depois que comecei a trabalhar caí na real do mundo dos negócios, lugar onde se busca a riqueza. E aprendi que esse lugar era muito diferente do lugar onde se busca a felicidade, por isso a necessidade de doar dinheiro depois que se ganha.

Isto é, entendi que existe uma dissociação na origem entre riqueza e felicidade porque a maneira de ganhar dinheiro, na maioria da vezes, não produz felicidade. Pelo contrário. E aí essa conta não fecha. Ganha aqui, infeliz, fazendo pacto com o diabo; e doa ali, feliz, para entrar no reino dos céus.

Dinheiro Limpo
Comecei a me interessar pela integração da produção de riqueza com a produção da felicidade. Não dos outros, minha mesmo. Descobri muita gente com busca semelhante em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil. São empresários, profissionais liberais, investidores que transformam seu trabalho, suas empresas e seu dinheiro em instrumento de realização de seus valores pessoais. Não separam valores econômicos de valores pessoais e, com isso, acabam criando empresas inovadoras diferentes das empresas tradicionais que separam a produção de riqueza da produção da felicidade. Esse jeito de ganhar dinheiro é de verdade o jeito de ganhar a vida. Porque o trabalho e o dinheiro, dois assuntos superchatos para a maioria das pessoas, passam a ser mais gratificantes e enriquecedores em todos os sentidos.

Esse jeito de ganhar a vida não gera morte, violência, pobreza nem desequilíbrio ambiental. Por isso dizem que gera um desenvolvimento sustentável.

Para muitas pessoas isso pode soar um pouco impossível.

Pena. Eu não parei um minuto para pensar se era possível ou não. Fui atrás e estou bem satisfeito com o que consegui. Não sou totalmente rico, nem feliz, mas estou bem melhor do que jamais fui.

Principalmente se considerar as péssimas referências de riqueza e felicidade que tive na minha infância e juventude.

Deixo o abraço do amigo que continua tentando escapar das opções pobres que encontramos pela vida.

Ricardo.

*Ricardo Guimarães, 56, faz o bem e faz dinheiro. É presidente da Thymus. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br

Ilustração de Stephan Doitschinoff

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