por Arthur Veríssimo
Trip #213

Eri Johnson ensina a milenar arte da boa convivência ao nosso repórter excepcional

Amigo de jogadores, parceiro de atores, rei do futevôlei, Eri Johnson deve ter algo a ensinar ao nosso repórter excepcional sobre a milenar arte da convivência. Jamais saberemos, porque o amigão da geral deu um bolo em seu aplicado aprendiz...

A equipe da Trip esperava, humilde e entusiasmada, no quiosque Sorriso Carioca, na praia do Recreio, no Rio de Janeiro. O simpático ator, o meio homem, meio avatar, Eriovaldo Johnson Araujo Oliveira (a.k.a. Eri Johnson) chegou mostrando-se ávido por compartilhar seus conhecimentos. Afinal, em mais de 30 anos de carreira, o homem da pinta é querido e festejado nas mais diversas tribos no Rio de Janeiro e, quiçá, no Brasil. Não havia nuvens aparentes no horizonte do nosso plano de receber diretamente das mão do mestre Johnson os segredos de fazer e manter amizades.

Parecia inevitável o sucesso de nossa empreitada, o auge de um processo de três semanas em que nossa produção ficou no encalço do homem. Farejou os calcanhares, a pinta e a sunga de Eri até conseguir uma janela em sua atribulada agenda e marcar de passar um dia inteiro na sua cola. Estava no script uma programação completa, de brother mesmo. Íamos dar uma banda na praia, almoçar, até dar um rolê na noite depois... Tudo combinadinho assim.

E lá estava ele, conforme os nossos sonhos. Ele, que começou dançando no programa do Carlos Imperial, nos anos 1970. Ele, o Ligeirinho em O Clone, o tresloucado Lulu em Barriga de aluguel, o Zé da Feira em Duas caras. O amigo do Zeca Pagodinho, de dezenas de atores da Globo, de cantores, de modelos, do Romário... Ele seria meu colega, jogaria futevôlei na praia ao entardecer, me apresentaria seus amigos famosos...

Mal sabíamos que o que nos aguardava era uma mísera horinha de sua sabedoria seguido de um duro “perdido”. Mas deixe-me contar primeiro os meus momentos de alegria.

O inesquecível Bebeto da Escolinha do professor Raimundo aterrissou na areia de bermudão, camiseta, sandália de dedo, dois celulares, barba feita e sorriso carioca. “Ontem joguei futebol até as duas e meia da manhã. Jogo toda quarta com minha rapaziada, para desestressar. É nosso dia sagrado pra bater bola, comer churrasco, jogar conversa fora... amigos são como plantas, tem que regar todos os dias”, ensinou. “Sempre falo, na nossa pelada, que quando eu digo ‘vá pra puta que o pariu’ não é pra ir. E quando vocês me mandarem eu também não vou, é só um desabafo!” Sábio ensinamento, mestre!

O Gigante de Fina estampa continua: “Tenho várias galeras: a do teatro, a da praia, do futebol, da TV, a da rua, do samba, a da infância,... Hoje cedinho, por exemplo, Zeca Pagodinho me ligou dizendo que na próxima terça tem uma parada no seu quintal. O Zeca é mestre da boa convivência”. Anotado!

Entre um e outro transeunte que para pra tirar uma fotinho com o astro, ele questiona: “Arthur, qual a diferença entre viver e durar?”. Peço para ele desvendar o enigma. “Tem gente que está na vida para durar. Outros, para viver”. Como uma onda, Eri domina de vez a conversa: “Se o camarada ficou doidão, muito bêbado, em nossa galera não tem aquele chato, o palhaço que cutuca dizendo: ‘Você ontem, hein?’ Isso é péssimo”. Lição assimilada!

Já me sentia seu amigo quando, de repente, o gótico Reginaldo em De corpo e alma muda de assunto e nos abandona. Jura que pintou um compromisso urgente no Projac. “Vamos nos falar depois”, despede-se. Nossa produtora passou as horas seguintes tentando novo contato, sem sucesso. Só nos atendeu à noite. “Agora não dá mais, tô cansadão.”

Será que fizemos algo que desagradou ao mestre? Jamais saberemos. Na falta de aulas presenciais, só me restou voltar a São Paulo, meditando em suas palavras: “Deus me marcou com essa pinta no rosto. Daí pra frente, não me preocupei com mais nada que pudesse me marcar”.

No vídeo, Eri Johnson dançando discothéque no programa de Carlos Imperial:  

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