por Nataly Cabanas

Batemos um papo com João Moreira, um dos criadores do humorístico lusitano Bruno Aleixo, fenômeno na internet que estreia no cinema

Há mais de dez anos, a animação Bruno Aleixo, protagonizada por um ewok (personagem clássico da saga Star Wars), virou um fenômeno na internet brasileira vindo de além-mar. O personagem com forte sotaque português lançou alguns valiosos conselhos na web — um deles alertava sobre os perigos de se dormir nu; outro revelava que o dono de um conhecido café de sua cidade natal, Coimbra, gostava de mexer as bebidas com uma parte específica do corpo. O ewok foi transformado em um cachorro para evitar crises com a produtora Lucas Inc., fundada por George Lucas, criador dos ewoks. Mas o personagem já tinha virado hit e suportou a mudança sem desgaste.

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O barulho que fez na internet o levou para a TV portuguesa, onde assumiu um talk show, amplificando a trajetória de sucesso de Bruno e de seus amigos: Busto, seu paciente amigo, vivido por um busto de Napoleão Bonaparte; Renato Alexandre, uma espécie de monstro aquático, e o quase incompreensível Homem do Bussaco. E agora essa trajetória de sucesso acaba de chegar aos cinemas, com a estreia do longa-metragem O filme do Bruno Aleixo.

Dirigido por João Moreira e Pedro Santo, na trama, Bruno é convidado a fazer uma autobiografia e embarca com os amigos em um grande brainstorm de clichês do imaginário cinematográfico ocidental —  o filme foi exibido durante a última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2019, arrancou 92 minutos de gargalhadas da plateia. Direto de Portugal, quase a caminho da “ante-estreia” em Lisboa, João Moreira — que empresta sua voz à Bruno — conversou com a Trip

Trip. Vocês fizeram alguma adaptação da linguagem das esquetes para o cinema? 

João Moreira. Sim. Sabíamos que esticar uma esquete de cinco minutos para uma hora e meia não funcionaria. E, mesmo que o filme tenha um esqueleto comum aos esquetes, ele vai buscar referências cinematográficas. Além do cuidado de variar o ponto de vista narrativo e também visual, uma das maiores diferenças foi a questão da ação, da mobilidade que ganhamos e antes não tínhamos. No roteiro para cinema cabiam movimentos, lutas, atores de verdade e até um ninja.

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Poucos “produtos” culturais de Portugal chegam ao Brasil, mas o Aleixo furou essa bolha e conquistou um público fiel. A que você atribui esse sucesso? Eu também não sei, é um mistério. Mas tenho algumas pistas. É bom contextualizar um pouco isso, a relação cultural Portugal-Brasil, que foi sempre muito unilateral, a gente recebe de vocês, mas não envia. Diferentemente, por exemplo, dos Estados Unidos e da Inglaterra, onde há de fato uma relação bilateral. Vocês emanam a sua cultura pra cá, chegam as músicas, as novelas, tem até uma cidade que está imitando o Carnaval brasileiro, mas nada volta. Agora vou jogar no campo das hipóteses, porque de fato não há essa resposta. Nós tentamos não copiar formatos americanos nem ingleses, e assim vamos na contramão do que quase toda a comédia portuguesa faz e talvez quase toda a comédia feita no mundo, que é imitar os stand ups, sitcons, programas de comentários políticos. Nós não fazemos isso e, ao mesmo tempo, não renegamos a nossa cultura influenciada por vocês. Portanto, apesar de ter muitas coisas autênticas de Portugal, também há muitas referências do Brasil, porque minha mãe é de São Paulo, a avó do Pedro [Santo, o outro roteirista e criador] é brasileira. Nós também crescemos vendo novelas, lendo gibis da Turma da Mônica, ou seja, acaba que há um bocadinho do vosso e do nosso nesse “produto” final.

A série "Aleixo no Brasil" foi criada para satisfazer uma demanda de fãs brasileiros que começaram a aparecer ou vocês já tinham isso em mente? Foi um misto disso. Foi com a série Aleixo na Escola que começamos a perceber que estávamos fazendo sucesso aí. E como na trama Bruno já tinha um passado carioca, para onde tinha ido escondido para fazer uma plástica, aproveitamos e juntamos as duas coisas. Eu fiz a voz do Seu Jaca, que é uma mistura de sotaques do Brasil. 

O Bruno e seus amigos tem um tipo de animação muito característica e de aparência antiga. Fale dessa linguagem. É um dos primeiros programas de animação, apareceu em 2007. É um software automático, que só anima bocas e olhos, um pouco parecido com os filtros do Stories do Instagram. E aquilo ficava muito rudimentar. Isso sempre nos obrigou a trabalhar muito o roteiro, os diálogos em detrimento da ação, assim, todo o nosso universo foi um pouco construído abraçando essa limitação. E, mesmo que a tecnologia tenha avançado bastante, nós seguimos com ele porque gostamos muito dessa estética. 

Hoje em dia percebe-se que não há tantas esquetes novas de vocês. O que o Bruno Aleixo anda aprontando? Agora estamos na rádio três vezes por semana: na segunda, fazemos a Aleixopédia, uma enciclopédia sobre conhecimentos históricos discutidos por Aleixo, Renato Alexandre e Busto; na quarta, falamos sobre atualidades; e, na sexta, respondemos às perguntas dos ouvintes. E continuamos a fazer uma esquete por semana, um almanaque esportivo, o Betaites, para um site de futebol português.  

Qual a sua ligação com o Brasil? Minha mãe é filha de imigrantes portugueses que foram para São Paulo e ela viveu até os 20 e poucos anos aí. Ela e meu avós voltaram nos anos 70 e o curioso é que, com ela, eu uso algumas expressões do português daí e falo com sotaque de São Paulo. 

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A aparência do Bruno Aleixo de hoje em dia já não é a mesma do ewok, a tribo fictícia e peluda da saga Star Wars, que vive nas florestas e é o visual que primeiro conhecemos quando ele surgiu na internet. Por que a mudança? No início, quando ainda estávamos testando, experimentando coisas para ver funcionava, escolhemos essa imagem do ewok. Só que assim que chegamos na televisão um produtor nos alertou: “Não usem por favor uma imagem de George Lucas, isso só vai nos trazer problemas. Pode ser que não, mas é melhor, profilaticamente falando, ir arranjando outra cara.”  Seguimos o conselho e foi bom, porque hoje podemos fazer camisetas com a cara do Bruno e evitar problemas com a Lucas Inc.

Você costuma acompanhar o humor feito no Brasil? Assiste algo do que fazemos aqui? Eu gosto do Choque de Cultura.

Não temos como encerrar uma entrevista com você sem querer saber algumas coisas do próprio Bruno. Então, tenho três perguntas para ele.

O que o Sr. Bruno pensa dessa franquia de treinadores portugueses que está aterrissando no Brasil ultimamente? Acho normal. Bastou correr bem com um e vai logo todo mundo tentar imitar. Portugal também faz isso. Aqui, há muitos anos, eram só treinadores húngaros. Correu bem com um húngaro, foram todos buscar húngaros. Acho que uma vez um treinador português ganhou um campeonato qualquer na Arábia e os árabes vieram logo buscar mais 4 ou 5 treinadores portugueses. Acaba por ser uma coisa normal. Se calhar para o ano ganha um treinador mexicano e o Brasil desata a ir buscar mexicanos para treinar na Série A e Série B.

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Voltou a frequentar o café do Ayres? Nunca deixei de frequentar. É o café onde vou ver a bola e sou praticamente da casa. Às vezes, até me sirvo sozinho, quando o Aires está ocupado a fazer uma sandes a alguém. É um café com muitas coisas boas. É uma questão de saber de antemão o que é bom e o que é menos bom. Tomara muitos cafés, hã? Já vários brasileiros me disseram que o Aires deveria abrir um café no Brasil. Porque parece que agora está na moda desligar o freezer durante a noite para poupar e o Aires já faz isso há mais de 30 anos. O público brasileiro é um público que valoriza a experiência nas coisas.

O que diria aos brasileiros que estão pensando em ir morar em Portugal? Pá, para começar, diria que por cá palavras como “rapariga” ou “gozar” não são ordinarices. Mas “foda” é, hã? Não digam essa palavra sem critério, há muitas velhas que não sabem que vocês usam isso como sinônimo de “muito bom”. Também não há muito pão de queijo, venham preparados para isso. De resto, é normal. Temos praia mais perto, mas a água é fria como o raio. Mas, pronto, para compensar, temos castelos e outras coisas muito velhas e antigas.

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