por Daniel Benevides
Trip #195

Angela Ro Ro estava destinada a virar freira, mas rendeu-se ao blues, birita e mulheres

 

Angela Ro Ro estava destinada a virar freira, mas rendeu-se à santíssima trindade formada por blues, birita e mulheres. Pioneira em assumir a homossexualidade no Brasil, ela sobreviveu aos escândalos e, aos 60 anos, garante que o sexo nunca foi tão bom.

Tudo foi muito rápido. A porta do elevador se abriu e lá estavam aqueles olhos verdes, grandes e zombeteiros. Um deles ligeiramente fora do eixo, por causa de uma surra criminosa da polícia (“Sou uma moça sem recato, desacato a autoridade e me dou mal”), o que provoca um intrigante desequilíbrio no olhar. São, de qualquer forma e a todo momento, olhos intensos, cheios de uma energia meio louca, meio lúcida.

Magra e bonita aos 60 anos e 60 kg, depois de pouco mais de uma década se cuidando, Angela Ro Ro vai logo dizendo, no seu jeito eterno de moleca: “Caguei”. E explica: “Casamento gay: caguei”. É a roupa que usa, de noiva hipotética. Calça de listras rosa e laranja, camisa de cetim rosa quase shocking, três botões abertos. “Quis botar uma roupa de cardeal, mas não tinha.”

“Maldita”, a meio caminho entre Aracy de Almeida e Janis Joplin, Maysa e Nina Simone, está comemorando 30 anos de carreira. Uma carreira feita de blues, boleros e canções belas e desafiadoras, que, juntas, formam sua biografia. Depois de sobreviver a escândalos escaldantes e um tsunami de biritas, ela agora sabe que este é o momento.

Momento de cantar e gravar o máximo que puder, para aproveitar a voz enquanto boa. O último disco, Compasso, cuja música título a devolveu às paradas, é de 2006. Nesse ano gravou “It Happened”, música de Yoko Ono, para o tributo Mrs. Lennon. E está fazendo vídeos amadores em seu site, cheia de novos projetos. Um deles acontece toda terça, no Espaço Acústica, praça Tiradentes, no Rio. Show com convidados, amigos, parceiros.

Quando digo qual o tema da entrevista, ela ri aquela risada rouca, em que ecoam os tempos de “uso e abuso”: “Sexo? Vai ser uma matéria interessante, porque esse é um assunto que eu desconheço por completo. Aliás, sou uma por fora total”. E aí grita, imitando “a bicharada da assessoria no telefone”: “Você não conhece a Trip?”. Mas pede: “Não me faça falar besteira, hein?”. E, como se fosse a coisa mais natural do mundo, tira uma dessas calcinhas usadas para depilação e limpa os óculos.



Sua autobiografia parece mesmo estar nas letras. No primeiro disco, de 1979, um clássico já, você canta, em “Abre o coração”: “No início é difícil/ de se abandonar um vício”. O que te levou a dar essa volta por cima?
Eu tava com 120 kg, cheia de infiltração, não conseguia andar direito nem mesmo cantar. Minha mãe no leito de morte olhou pra mim e disse: “Minha filha, eu tô morrendo, mas você tá um lixo!”. E eu falei: “Putaqueopariu, o pior é que eu tô mesmo e não sei se é reciclável”. Isso foi em maio de 1999. Eu já tinha perdido meu pai, parecia que eu tava numa fila indiana para entrar em campo. Parei de beber e de fumar, mas tenho consciência de que ainda sou alcoólatra.

E como você conseguiu?
Se eu tivesse cacife pra jogar, eu não apostaria em mim não, não sei como saí dessa. Eu fui velha com 40, tô remoçada com 60. Não procurei AA nem NA, até porque não sou anônima, né? Não ia dar certo, acho chato. Se eu fosse a uma dessas reuniões e alguém levantasse e dissesse: “Sou alcoólatra e estou há três anos e três meses sem beber”, eu já iria logo convocando: “Legal! Então vamos comemorar com uma gelada!” [risos]. Fui mesmo em clínico geral, fisioterapia, ortopedista, nutricionista...

Em “Meu mal é a birita”, você canta: “E se um dia eu parar, é sinal que eu aprendi a amar”. Aos 60, magra e saudável, você “aprendeu a amar”?
Tô amando, casada há três anos e pouco. É tipo a Elizabeth Taylor [atriz americana que se casou duas vezes com seu colega britânico Richard Burton]. É a segunda vez que a gente casa, depois de 20 anos de separação. Foi coisa de maluco. É a mulher da minha vida.

E o sexo?
Melhorou muito, né? Eu não conseguia nem ficar de pé direito, quanto mais fazer essas coisas. Mas não pense que quando eu parei de beber, aos 50 anos, saí procurando namorada. Aliás, minha vida sexual é bem menos intensa do que muita gente pensa. Sou mais fama que proveito. O que eu fiz foi o contrário: mandei embora minha namorada 29 anos mais nova. Disse a ela: “Sai desse inferno, menina, vai cuidar da sua vida”.

Quando você descobriu que realmente gostava de mulheres?
Quando fui fazer a minha última confissão, no colégio de freiras, pra entrar no noviciado. Eu tinha 14 anos. Eu adorava uma confissãozinha, com manteiga ou sem manteiga [imita o sotaque italiano]. Eu comia mais hóstia que chiclete, “bello”, vai gostar assim de hóstia lá na sacristia. Limpava a sacristia, ajudava o padre. Falei comigo mesma: agora não é mais de brincadeira, eu já sou crescida e vou falar que tô gostando muito daquela moça.

Eu li sobre essa história. Era aquela que forçou sua expulsão do colégio?
Essa mesma. Ela era mais velha, fui me declarar pra ela no sobe e desce da escada, no recreio. Cheguei e disse: “Você tem uns olhos muito lindos, azuis como o céu. Podiam combinar com os meus, que são verdes como as matas”. Ela olhou pra minha cara e disse: “Eu sou a sobrinha da madre superiora e vou botar você pra fora do colégio” [grita, rindo e agitando os braços]. “Desculpa, eu tava falando daquela ali, a mulher do picolé, ei, moça, vem cá!” [ri muito]. Eu tinha um azar filho da mãe.

Você já tinha sido expulsa antes, né?

Fui expulsa primeiro quando tinha 13 anos, por lesbianismo. Cheguei com o bilhete azul em casa, e você acha que eu tava com vergonha? Eu tava perplexa. Eu não sabia o que queria dizer lesbianismo. Eu pensava: seja o que essa porcaria for, eu tô roubada. Disse pra minha mãe: “Mãe, eu fui expulsa e só roubei duas calotas de carro” – eu vendia as calotas no recreio. E pro meu pai: “Pai, o que é isso? Les-bi-a-nis-mo?”. “Cala a boca, minha filha, isso não existe!” Ele dizia que não existia porque não estava no código penal. Eu era muito infantil ainda, sem experiência.

Que colégio era?
Colégio São Paulo. A Patrícia Travassos e a Joyce, essa morena maravilhosa, que sempre foi meu ídolo, estudaram lá. Eu era relativamente uma boa aluna, só fui fazer bagunça depois dessa expulsão. Levava a sério, não fazia deboche, não questionava a virgindade de Maria. Além do mais, fazia boas redações sobre a santíssima trindade, que não é ménage à trois [risos]. Então eu quis ir pro Imaculada Conceição. Minha mãe queria que eu fosse para um colégio público, em que tivesse meninos. E eu dizia: “Mas lá tem homem, mamãe, tem o padre!”. Só que eu me apaixonava mesmo era pelas meninas. Platonicamente.

Voltando à confissão...
O padre fez uma coisa que pra mim derrubou tudo no chão. Ele saiu da casinha, olhou pra minha cara e disse: “Ah, é você, só podia ser, você que anda de skate na sacristia, essa aberração só podia vir de você”. E eu respondi: “E do senhor eu não esperava a quebra do dogma da confissão!”. Porque eu sabia que um dos dogmas era a proibição de olhar o confessor. E aí eu caguei regra de tudo, disse: “Tô estudando desde os 8 pra ser freira e o senhor me sai da gaiolinha pra olhar pra minha cara e ainda me paga uma bronca? O senhor me ajudou muito na vida, pois agora eu não quero ser freira porra nenhuma”.

E por que você queria tanto ser freira?
Achava bonita a ideia de amar o próximo, aquela coisa hippie. Pensava: de repente eu posso ser enfermeira da alma de alguém.

Talvez você tenha sido, de alguma maneira.
É, através da música, pode ser.

E teve a história do tio Benjamin.
Não guardo nenhuma mágoa e rancor do Benjamin, mas depois desse episódio de-sa-gra-dá-vel eu comecei a confessar os pecados dos outros, o padre não aguentava mais me ver. Foi aí que eu decidi entrar num convento. Minha mãe ficou apavorada. Ela dizia: “Gostar de mulher ainda vai, mas isso é demais!”.

Como foi o episódio, você se sente à vontade pra contar?
Tio Benjamin me molestou sexualmente entre meu aniversário de 9 anos e o Natal. Foi no quarto de mamãe e papai, ele abaixava minha cabeça pra fazer sexo oral. Não chorei, não gritei, não pedi socorro. Ele me empurrava no travesseiro e só me lembro do cheiro do perfume da camisola de mamãe e do pijama de flanela do papai. Desagradável. Eu falei: “Abre a porta que está na hora de eu estudar piano”. Aí sentei no banquinho do piano, fez ventosa, meu filho, nunca mais levantei. Calei a boca até os 27. Um dia, numa reunião de família, começaram a me escrachar, dizendo que eu era vagabunda, maconheira. Fiquei de saco cheio e disse: “Ah, é? Benjamin, conta o que aconteceu quando eu tinha acabado de fazer 9 anos”. Meu pai se escondeu num quarto, Benjamin tremia todo. Minha mãe, que enfrentava tudo de frente, não encarou essa, foi logo perguntando pra empregada: “Essa comida não sai?”.

Você acha que esse trauma pode ter a ver com não ter prazer com homens?
Não, já pesquisei isso no meu histórico. Aos 4, 5 anos, eu já era enlouquecida de paixão – era uma tesão platônica, encolhida – pela Virginia Lane, vedete, baixinha das pernas bonitas, muito pipoquinha, amante do Getúlio Vargas, que andava com uns saltos desse tamanho. Ela deve estar viva por aí, no interior do Rio de Janeiro. De noite, ela era vedete no programa Espetáculos Tonelux; de tarde, ela era Xuxa, tinha programa infantil, do coelhinho Valentim [na verdade, Coelhinho Teco-Teco, na TV Tupi]. Eu via os dois programas. E aí pedi uma foto dela para a minha mãe. Quando chegou, eu fui para a cama e me debrucei sexualmente sobre ela. Agora eu vejo claramente: eu me esfregava na foto da Virginia Lane.

Mas você também teve pelo menos um namorado, né?
Sim, o Antonio Luis, maravilhoso, moreno, lindíssimo, 1,85 m boca linda, fiquei meio apaixonadinha. Eu tinha 13, 14 anos, e sentia tesão nele, fazia umas coisas eróticas com ele engraçadas; não chegavam a ser sádicas ou doentias, mas eram bem indecentes. Na hora do entra e sai do edifício onde eu morava, eu obrigava ele a ficar com o pênis ereto e descer com ele pra fora da braguilha seis andares sem tremer e sem ficar com o pirulito mole. Quando chegava perto do térreo, menino lívido, lindo, grande e forte com o pau duro de fora da calça jeans, eu vinha na frente dele e olhava: se ficar mole, tá tudo terminado! Ele conseguia a muito custo, volta e meia tinha de botar pra dentro. Claro, eu beijava ele, manuseava o perusão dele, que era bem grande, mas nada com a pele nua. Uma loucura isso, mas pra mim era sensacional, eu estava descobrindo coisas melhores do que a primeira comunhão. E tava achando que era bom ficar com homem. Aí um dia eu chego da praia pra sair com ele, entro em casa e vejo ele maquiando a minha mãe e a minha mãe maquiando ele, fazendo prova de blush, rouge, sombra... Ele tinha uns cílios que fariam inveja a qualquer moça, um tubo de onda mesmo. Foi aquela desilusão. Minha mãe disse: “Mas tudo pra você é Jesus, é meu Deus, seu namorado tá fazendo só um biscatezinho, ele não pode ficar pagando sua entrada no cinema e sua banana split sem fazer um dinheirinho vendendo cosméticos importados, minha filha!”. Ficamos amigos.

Depois disso, homem nunca mais?

Não, tive sim, várias vezes ao longo da vida. Obviamente chegou uma hora em que eu parei de experimentar, senão seria sem-vergonhice, pois ou gosta, ou não gosta. Mas tive paixões maravilhosas: o Glauber Rocha, que queria que eu fosse uma das mães dos filhos dele, o Cazuza... paixões de amigo. O saudoso Sérgio Bandeyra, que compunha comigo, era louco por mim, queria me comer. Eu tinha lá meu poder de atração. Tive namoradas, gente apaixonada por mim mesmo quando eu pesava 120 kg. Mas, enfim, não gosto de roçar em barba, eu gosto do cheiro da mulher, do corpo da mulher. E não é só narcisismo não, egolatria, podem dizer o quiserem, só sei que eu sou chegada, que eu sou gay, e eu não consegui de jeito nenhum bancar a bissexual. Se eu te disser que sou bi vou estar mentindo, porque eu amo mulher, adoro mulher.

E sua mãe? A julgar pela letra de “Minha mãezinha”, em que você canta “Sua voz tão difícil de calar/ Não me diz mais nada/Me deixe em paz”, ela teve uma influência forte na sua vida.
Minha mãe foi enfermeira, mas cantava muito bem, o que vinha na telha, chá-chá-chá, bolero, muito samba, Noel, Ari Barroso, Geraldo Pereira, Antonio Maria, Dolores Duran, Frank Sinatra, Al Johnson. Cresci num ambiente musical de vitrola, ninguém tocava nada, a primeira a assassinar um instrumento musical fui eu. Ela dizia que eu tinha o dom (e ai de mim se não tivesse!) e me botou numa escolinha. Minha voz é idêntica à dela, o timbre, tudo. Morreu de câncer, com uma lucidez infernal. Foi na paz dela, nem alugou a paz de Deus. Papai foi em 1997, no meio do Carnaval – lógico que tinha de morrer no meio do Carnaval, morreu de enjoado que ele era. Mamãe teve cinco abortos, fui a sexta, a única que sobreviveu. Entrei pela vagina dela e saí pela barriga, quase morremos; ela tinha útero infantil. Fui fecundada em Vila Isabel, no berço do samba, mas nasci em Copacabana e cresci em Ipanema. Mamãe queria me botar no psiquiatra por causa de maconha, essas coisas. Era só eu entrar mais alegrinha em casa que ela já dizia: “Mostra a pupila, tomou aquela coisa, o LDC [sic]. Tá numa trip?” [Olha pro alto e brinca, fazendo concha com as mãos]. “Mamãe, vou estar na Trip em breve!”

Como eles lidaram quando você apareceu com a primeira namorada?
Eu tinha uns 16 anos quando levei ela lá em casa. Realmente ela era meio feiosa. A mamãe não esperou ela passar da porta pra dizer, com a voz bem alta, a voz que eu herdei: “Ah, não, gostar de mulher tudo bem, mas vai arranjar uma bonita, isso é tribufu, olha o jaburu que você arrumou, não tinha uma mais bonitinha na escola?”. Era divertido.

E o seu pai?
Meu pai, de quem eu herdei as costas largas e a bunda pequena, não bebia, não dançava, não fumava nada, nasceu pra ser síndico, e mesmo assim pagava o condomínio. Era sério, diretor de criminalística da polícia federal. Não ficava de blá-blá-blá comigo sobre essas coisas, só dizia: “Você é maravilhosa, só traz alegria pro seu pai”. Nunca apanhei dele, nunca nem ouvi ele levantar a voz ou dizer um palavrão. Mas de repente apanhei de diversos policiais. Eu tive um polícia maravilhoso, chefe de todos eles, que foi meu pai.

Você apresentou por um tempo o programa Escândalo na TV Brasil, que também virou show e disco depois. O nome vem de uma música que o Caetano fez baseado numa história rumorosa que teria acontecido entre você e a Zizi Possi – música essa que deu nome a seu ótimo terceiro disco, de 1981. Você ainda fala com ela?
Eu só penso na cantora colega, conservo a lembrança dela com carinho e respeito. Tenho um sonho de pouco tempo pra cá, de fazer uma temporada de Zizi canta Ro Ro, Ro Ro canta Zizi. Eu faria coisas maravilhosas, como “Pedaço de mim”, ela cantaria “Só nos resta viver”. Até se ela exigisse de mim, por qualquer razão particular, eu respeitaria uma metragem de distância no palco.

matérias relacionadas