por Sara Stopazzolli
Trip #204

Uma comunidade virtual com mais de 3 mil surfistas gays espalhados por 81 países

O mundo do surf é muito mais diverso do que os estereótipos nos fazem crer – como prova uma comunidade virtual com mais de 3 mil surfistas gays espalhados por 81 países. Mas os brasileiros que fazem parte desse grupo garantem que ainda é muito mais fácil sair do armário na internet do que na praia

Quando deixou Piraí, no interior do Rio de Janeiro, rumo à capital do estado, a primeira coisa que Nêgo (Marcus Vinícius Gouveia no RG) pediu para seu pai foi uma matrícula numa escola de surf. Aprendeu e nunca mais parou. Tinha então 16 anos. Um ano depois, começou a sentir atração por seus colegas da escola e achou que fosse algo natural, uma fase pela qual muitos passavam em silêncio. Até que um dia, na praia, um surfista da mesma idade de Nêgo o olhou de um jeito diferente, como se reconhecesse nele um segredo em comum. Convidou-o para assistir a um filme de terror em sua casa. Naquela noite, Nêgo deu seu primeiro beijo. “Eu me tremia todo”, conta. Depois de três meses de romance às escondidas, seu namorado não segurou a onda e propôs abrir a relação: “Pode ficar com quem você quiser e eu também posso”. Mesmo apaixonado, ou justamente por isso, Nêgo preferiu colocar um ponto-final. Conheceu outros caras e aos poucos foi assumindo sua orientação sexual para os amigos e a família. “Tenho mais amigos héteros do que gays e todos me respeitam, até me tratam com mais cuidado. E a galera do surf é tranquila, se preocupa com o que a pessoa é, não com o que faz. Só acham diferente um gay fazer a mesma coisa que eles”, conta Nêgo, que hoje tem 24 anos e estuda biologia. Quando reencontrou seu primeiro amor surfista, anos depois, Nêgo fez questão de dizer tudo isso a ele. Quis incentivá-lo a sair do armário, mas não teve êxito.

Histórias como a de Nêgo têm se tornado cada vez mais comuns no mundo do surf – como prova o site de relacionamentos gaysurfers.net. Criado no ano passado pelo australiano Thomas C. Green, a comunidade virtual já conta com mais de 3 mil usuários de 81 países; o Brasil representa cerca de 15% do total de inscritos, ou 450 membros, segundo seu fundador. Green passou anos escondendo sua identidade sexual com medo de ser rejeitado. “Mas, depois que me revelei, descobri que aquilo não era uma grande questão. Surfistas estão acostumados a viajar e conhecer diversas culturas. A homossexualidade não é, para eles, nada de outro mundo”, conta. “Nos anos 60 o surf surgiu como um estilo de vida alternativo, que ia contra a ordem estabelecida. Nos anos 90 o esporte virou uma indústria e criou o estereótipo do cara loiro, bronzeado, que pega altas ondas enquanto garotas saradas o assistem da areia. Posso te dizer que a cultura do surf é muito mais diversa do que isso”, afirma.

“Os surfistas conquistaram uma prática especial para suas vidas, que traz bem-estar e contato com a natureza. quem está experimentando a própria felicidade não se incomoda com a dos outros”

Prancha arco-íris
Com o gaysurfers.net, Green confirmou o que já suspeitava: há no mundo um número considerável de homens que gostam de homens e também de pranchas, embora muitos deles ainda prefiram se assumir apenas virtualmente e para seus iguais. A reportagem da Trip entrou em contato com cerca de 50 brasileiros inscritos no site de Green. Apenas três toparam dar entrevista e dois aceitaram ser fotografados. “Se eu não falar, ninguém fala”, diz o carioca Lucas Messeder, estudante de geologia de 18 anos. Ele conhece alguns surfistas gays não assumidos e já se relacionou afetivamente com um deles. “Fora o medo da sociedade, tem o medo de não conseguir patrocínio”, explica. Lucas confessa que se aproximou do surf, aos 12 anos, “por interesse”. Sentia atração pelos meninos fortes, molhados e com pouca roupa. Quando se deu conta, já amava mais o esporte do que os garotos. Aos 16, ganhou coragem e assumiu sua orientação sexual. “No início meus amigos não acreditaram e alguns ficaram estranhos comigo, o que eu acho natural. Depois a amizade prevaleceu e hoje eles me aceitam, conhecem os garotos com quem eu fico e até me defendem de comentários maldosos. São minha segunda família”, conta ele.

Segundo o designer gráfico Rodrigo (nome fictício), 28 anos, há um fetiche em torno do surf porque o esporte está associado a uma atmosfera romântica, radical, de gente bonita. “Se já existe a fantasia de ir com alguém para uma ilha deserta, melhor ainda que seja com um surfista”, comenta ele, que surfa desde os 16 anos. Quando começou a namorar um garoto, aos 20, Rodrigo preferiu se afastar da maioria dos amigos com quem pegava onda. “Não me sentia à vontade. Depois acabei formando uma nova galera, que inclui alguns surfistas. Mas poucos são gays e sinto bastante falta da minha galera dentro d’água”, diz ele. Hoje Rodrigo acredita que o universo do surf é mais aberto às individualidades do que a maioria dos outros esportes: “Os surfistas conquistaram uma prática muito especial para suas vidas, que traz bem-estar, contato com a natureza e um pedacinho de felicidade. Quem está experimentando a própria felicidade não se incomoda tanto com a dos outros”. Ainda assim, ele prefere manter o anonimato porque não tem vontade de lidar com a opinião pública nem com os preconceitos das pessoas que não conhece. “O que é ser homossexual assumido no surf? Ter uma prancha com um arco-íris?”, questiona.

Já o DJ carioca Sérgio Cardoso, 51 anos, faz questão de se assumir em público, mas prefere não se enquadrar em nenhum rótulo. Surfista mulherengo desde os 14, passou parte da juventude “se pegando” com um parceiro de surf, que também tinha suas namoradas. Há 18 anos, Sérgio mudou-se para Florianópolis, onde ora aparecia com um homem ao lado, ora com uma mulher. “Tenho plena consciência do desconforto que isso provoca. Mas o cara gosta de homem e não é bicha? Além de tudo pega a mulher que eu queria pegar? As pessoas não estão preparadas para aceitar um homem com atitudes de homem, que pratica esportes de homem e tem um namorado”, diz ele, que também pratica windsurf e hoje namora o lutador de muay thai , 24 anos.

Segundo Sérgio, a definição da sexualidade está associada com o quanto permitimos que o nosso meio interfira nas nossas escolhas. “Podemos até brincar de morto e fazer de conta que não há escolha alguma. Mas há, sempre há. O grande barato de uma existência plena é ter a capacidade de entender e aceitar o que escolhemos e saber que não há respostas prontas”, diz. E completa: “Minha identidade foi o surf quem me deu. É preciso ter muito conhecimento dos limites do seu corpo para se colocar em situações extremas. Eu gostava disso. No surf, em um dia cabuloso, de ressacão mesmo, não há santo que ajude. É apenas você, sua prancha, seus limites, sua paixão e capacidade de avaliação. É o retrato mais fiel que encontrei do que se costuma chamar de ‘a condição humana’.”

Contra a uniformização
Se nas praias a intolerância começa a se dissipar, no surf profissional a situação ainda é nebulosa. Até hoje, apenas dois surfistas famosos assumiram a homossexualidade: o tatuado punk Matt Branson e Peter Drouyn, que só se revelaram depois de largarem as competições. O australiano Drouyn, inclusive, chocou o mundo do surf ao aparecer como a loira Westerly Windina, há três anos, contando que se preparava para a cirurgia de mudança de sexo (tema de reportagem da Trip em 2009).

“No surf, em um dia de ressaca, não há santo que te ajude. é apenas você, sua prancha, seus limites. É o retrato mais fiel que encontrei da condição humana”

O surfista e empresário Fred d’Orey, que acompanhou a carreira desses caras nos anos 70, diz que vai achar muito interessante o dia em que um surfista gay vencer uma etapa da ASP. “Que diferença faz? Nenhuma. É só mais uma prova de que nós, como tribo, evoluímos a ponto de entender e aceitar as diferenças. Nada me irrita mais no surf do que a uniformização, todo mundo se vestindo igual, falando as mesmas coisas, indo nos mesmos lugares como robozinhos. Quem busca isso deveria deixar a prancha de lado e se alistar logo no exército”, diz ele.

Enquanto o mainstream demora a colocar os surfistas gays no radar, a comunidade se organiza. No ano passado, o gaysurfers.net promoveu sua primeira competição mundial na Austrália. O quorum não foi dos melhores. Mas o segundo campeonato, marcado para o fim deste mês de outubro, tem tudo para bombar, segundo Thomas Green. A competição acontecerá dentro de um grande festival gay de praia, na cidade australiana de Coffs Harbour. Green diz que adoraria ver uma grande marca patrocinar um surfista gay, mas sua maior ambição não está no “mercado”. A grande missão é ajudar os caras que gostam de surf e de homens a entender que não estão sozinhos, a se aceitarem como são e a recuperarem a autoestima. Segundo Green, a experiência virtual tem trazido um feedback surpreendentemente positivo, mas ele sabe que, na vida real, ainda há um longo caminho a ser percorrido.

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