por Guilherme Giufrida

Ocupação participa da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo

Quando os moradores da Ocupação Emanuel Guarani Kayowá (Contagem/MG) chegaram no Museu da Casa Brasileira, havia tanta gente na entrada que me perguntaram se todos aqueles visitantes teriam vindo para o debate da Bienal de Arquitetura, escutar suas histórias, debater a especulação imobiliária e os terrenos improdutivos. Mas poucos estavam ali por esse motivo. Explico que domingo é assim mesmo, são muitas atividades, o restaurante do museu está cheio pro almoço, o terraço ocupado por espetáculos musicais e humorísticos para terceira idade e o jardim repleto de crianças.

A decepção com o baixo quórum durou pouco, talvez só eu mesmo percebi. Logo na primeira sala, à esquerda do salão de entrada daquele antigo palacete eclético, ficaram atônitos com a sua exposição. Começaram a sacar das mochilas as máquinas que trouxeram, fotografando repetidamente a si próprios ao lado das fotografias de suas vidas, suas casas, sua ocupação. Apontam para tudo aquilo, encostam o dedo na imagem, problema nenhum, afinal a exposição é deles. Analisam e riem da maquete que construíram através de fragmentos de caixas de fósforo, papéis de cigarros e outras sobras, e contam as brigas entre os moradores que participaram da montagem, processo que revela o espírito de luta política interna para consolidar a árdua tarefa de ocupar um terreno.

Não pudemos continuar a conversa na entrada da exposição, a fila que se formava para assistir ao show musical “A Era do Rádio” já se prolongava, e segundo um funcionário do Museu iriamos ficar mais à vontade no jardim. Formou-se então uma roda de mais ou menos quinze moradores, arquitetos, advogados e ativistas e outros quatro ou cinco interessados que vieram escutá-los. Sentamos na grama enquanto alguns pais brincavam com seus filhos no jardim, às vezes se aproximavam, escutavam um pouco, pareciam curiosos, logo já se distraiam com suas crianças correndo pra gangorra.

Pergunto se aguardam projetos habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida, outro tema da exposição da Bienal. Não se dizem radicalmente contra, apesar de reticentes em morar em edifícios sem quintal pra plantar e, pior, vizinhos de moradores de outras comunidades, com quem não têm boa relação. Atentam sobre a falta de entendimento e diálogo com as comunidades na elaboração desses projetos, e são os arquitetos que poderiam mediar conflitos como esse, como vem acontecendo na construção urbana da Comunidade Emanuel Guarani Kaiowá.

Ressaltaram diversas vezes a mudança de tratamento que têm recebido após a seleção para expor na Bienal. Saíram das páginas policiais dos periódicos mineiros e entraram nas páginas de cultura, ganhando expressão, força e legitimidade no embate que travam há anos com as lideranças locais. Agora são elogiados por ser uma ocupação “organizada” em que o “improviso perde espaço”. Antes “invasão”, agora “loteamento”.

De repente o show musical se inicia sob aplausos efusivos e não conseguimos mais escutar as histórias que nos contam. Logo quando começaram a perder a timidez inicial e nos tentavam explicar as razões do nome da Ocupação e nos emocionavam com o papel da Bienal neste processo. Para voltarmos a nos ouvir, nos movemos para mais ao fundo do jardim, perto do muro, quase do lado de fora, aonde o som das cantoras do rádio misturadas com “Piri, pipiri, pipiri, piri piradinha”, que aliás parece agradar muito o público idoso que ri sem parar, reduz seu volume mas não o suficiente, obrigando o grupo a gritar, agora claramente incomodado com aquela situação e ainda mais cientes da importância que foi para todos nós expor a sua luta no Museu e na Bienal.

Vai lá: http://ocupacaoguaranikaiowa.wordpress.com

*Guilherme Giufrida é antropólogo e foi assistente de curadoria da X Bienal de Arquitetura de São Paulo (2013).

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