Quando começava a doer a barriga, eu já entrava em processo de oração, pedindo a Deus para que me protegesse e me fizesse chegar a um banheiro

“Fé” é uma palavra que se presta a muitos significados. O primeiro, e mais óbvio, é a fé religiosa. Mas existem outros tipos, por exemplo aquela que nos faz acreditar que tudo vai dar certo e, se não der, é porque não era para dar ou porque não chegou ao fim ainda. Tem gente que faz fé nos jogos de cartas, no futebol – faz prece para seu time ganhar –, nas múltiplas loterias, no jogo do bicho ou de dados... Já vi em um filme um padre abençoando e ungindo as armas dos alemães na 2ª Guerra Mundial, ao mesmo tempo que outro católico fazia o mesmo com as armas dos Aliados. E era coerente, pois todos os soldados, dos dois lados, tinham sua fé e, com isso, os religiosos conseguiam criar neles o sentimento de que era uma guerra justa e de que estavam protegidos por Deus.

“Costumo dizer que quem tem fé real não carece de igreja ou religião. Eu, caso sinta necessidade, oro aqui em cima do computador mesmo”
Luiz Alberto Mendes

Existe a inevitável associação da fé ao milagre, como se fosse a solução dos mais graves problemas que nós mesmos criamos. As pessoas fazem suas preces pelos tais milagres que acreditam que Deus pode realizar em suas vidas ou na de outrem. Fazem trocas e usam as igrejas para isso. Costumo dizer que quem tem fé real não carece de igreja ou religião. Eu, caso sinta necessidade, oro aqui em cima do computador mesmo – e de olhos abertos, pois não me escondo atrás das pálpebras.

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Tenho um problema sério de saúde e sou um transplantado. Então, preciso ir ao Hospital das Clínicas constantemente para ser examinado, também para pegar remédios que só eles têm e para fazer exame de sangue. Agora mesmo, vou passar por uma bateria de exames por conta dos dois anos passados desde o meu transplante.

É uma coisa de doido, algo psicológico: toda vez que vou ao hospital, me dá diarreia. Já aconteceu no metrô, no ônibus e até andando; voltei para casa morrendo de vergonha, todo cagado. Na última vez, eu estava com uma calça bege-clara e ficaram aquelas listras enormes e marrons nas duas pernas – tive de pegar metrô, ônibus e caminhar até em casa desse jeito. Quase morri, sou tímido e gosto de passar despercebido. E o cheirão? É horrível ver as pessoas percebendo que é você, se afastando, e a estação que não chega…

Ajuda do céu

Conto tudo isso porque esse era o meu maior momento de fé: quando começava a doer a barriga, eu já entrava em processo de oração, pedindo a Deus, ou a qualquer coisa que exista, que me protegesse e me fizesse chegar em um banheiro. Não queria mais nada da vida. Caíam lágrimas dos meus olhos. E foram muitas as vezes que desci do metrô e consegui alcançar uma privada na hora H; em outras tantas, me apertei todo e cheguei ao hospital e a um banheiro já quase me cagando. Que alívio! Eu agradecia a seja-lá-o-que-for por me dar aquela chance de encontrar um vaso sanitário.

“Eu tenho a fé como motivação, como uma força que possuímos para usarmos como último recurso, no momento em que a gente não dá mais conta”
Luiz Alberto Mendes

A situação desagradável tinha a ver com o fígado recém-transplantado, que agora já está se normalizando. A fé ajudou no começo, ainda que eu levasse toalhinha, cueca e uma bermuda na bolsa que carregava. Já passei por tanta vergonha que, hoje em dia, traumatizado, pouco saio de casa, só por obrigação mesmo.

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Admito que deve haver algo superior a nós que nossa pobre consciência ainda não é capaz de entender. Tenho fé. Mas brigaria o dia todo com um desses pastores endinheirados, que até aparecem na revista Forbes, aquela que dá conta dos poucos bilionários no planeta.

Eu tenho a fé como motivação, como uma força que possuímos para usarmos como último recurso, naquele momento em que a gente não dá mais conta.

Enquanto puder, não apelo, pois, depois de toda a minha história, sei que continuo a ser ninguém, mas dentro de uma estrutura social que foi feita para outros ninguéns na modernidade. Pelo menos nessa parte eu consegui me integrar, precisei me achatar para caber. Agora, viajo por aí, me expandindo e me desdobrando. Só fico triste pela minha idade, 68 anos: não dá mais tempo para grandes crescimentos, mas, enquanto der, vou levando o barco devagar, como o velho marinheiro.

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