por Diego Assis
Trip #170

Em 1968, o americano Jim Haynes foi um dos maiores porta-vozes e praticantes do sexo livre

Quarenta anos atrás, os hormônios do mundo estavam em ebulição. Jovens nos quatro cantos do planeta se uniam em torno de bandeiras antiautoritárias tentando colocar em curso suas próprias revoluções. Norte-americanos queriam acabar com a guerra no Vietnã, brasileiros protestavam contra a ditadura militar, franceses exigiam mudanças nas universidades. Uns liam Marx, outros experimentavam drogas psicodélicas, e uma terceira turma – da qual um dos protagonistas era Jim Haynes, americano radicado há três décadas na França – se entregava ao sexo e ao amor livre.

Como todo bom fanfarrão, Jim estava em todas. Nascido em 1933, em Haynesville, Louisiana, se alistou no Exército no fim da Segunda Guerra e se alocou em uma base aérea pacata em Edimburgo, na Escócia. Fez amizade com artistas, poetas e atores e, em pouco tempo, já era um participante ativo do Festival de Teatro de Edimburgo, até hoje um dos mais importantes do mundo. Durante o evento, Jim organizava saraus e debates literários que tiveram a presença de, entre outros, escritores como Henry Miller, Norman Mailer e William S. Burroughs. Com 600 libras no bolso, fundou sua própria livraria, a Paperback Bookshop, que depois virou teatro, depois galeria, depois um teatro ainda maior...

Em 1960, a cidade já havia ficado pequena para Jim. De endereço novo, em Londres, juntou-se a um grupo de amigos e ajudou a fundar a International Times (I.T.), publicação que registrou o período de efervescência contracultural que ficou conhecido como Swingin’ London. A festa de lançamento do primeiro número, em outubro de 1966, teve shows de um então ainda underground Pink Floyd e Soft Machine. Nos eventos seguintes da I.T., circulavam figuras do naipe de John Lennon e Yoko Ono, Mick Jagger e Paul McCartney.

Tudo isso para chegar ao sexo. Em 1969 ele e o amigo americano Bill Levy (autor de títulos como O esperma dançarino virgem e Sonhos molhados) resolveram lançar, em Amsterdã, um jornal em prol da liberdade sexual batizado de SUCK. Foi um escândalo na época, deu origem a um festival de cinema pornô e a um processo do qual os acusados seriam absolvidos. Até que de Paris veio o chamado: queriam Jim Haynes para professor na então recém-inaugurada Universidade Paris VIII, lecionando uma disciplina que não poderia ser mais apropriada, estudos de mídia e política sexual. Foi sobre isso que o professor discorreu na entrevista a seguir.

Para começo de conversa, onde é que sexo e política se encontram? Não sei se você conhece os textos do [psiquiatra austríaco] Wilhelm Reich. Mas, dos intelectuais que investigavam a sexualidade em Viena, só ele foi numa direção política. Reich escreveu um livro [The Mass Psychology of Fascim] sobre como uma sociedade reprimida sexualmente pode se transformar em um Estado fascista, como a Alemanha nos anos 30. Outras pessoas – incluindo eu – desenvolveram as idéias dele, falando, por exemplo, sobre como as instituições [civis] são baseadas na sexualidade: casamento, divórcio, família. Para mim, essas são todas manifestações de como regulamos nossa energia sexual, baseados no que é permitido ou não. Escrevi um livro contra os casais, contra a família e contra o romantismo. Houve um tempo em que eu dizia que o romantismo [ou a romantização] é mais perigoso que o comunismo. Significa que a garota espera sua vida toda por um príncipe, criam-se altas expectativas, e elas quase sempre levam à decepção. Ela encontra o cara, ele é perfeito, mas, de repente, descobre que ele está dando em cima de outra mulher. Então como ele pode ser o príncipe? Para mim, não há perversão. Só há contratos sociais. Se você quiser fazer amor com cinco caras, eles estão felizes e você está feliz, tudo bem. Qual é o problema? Nós deveríamos estar preocupados com a felicidade. Não em ficar dizendo: “Ei, não faça isso!”.

Além de suas experiências e leituras, essas idéias também foram influenciadas pelo local e pelo momento histórico em que você estava na época? Particularmente pelos anos 60, em Londres. Eu amo a França, é o país que escolhi para viver, mas os franceses estavam tão presos ao marxismo político e ao maoísmo que se tornaram estúpidos. E ainda romantizam as coisas. Até hoje, eles ainda tentam entender o que foi o Maio de 68. Quando aquilo basicamente começou com um protesto de estudantes em Nanterre contra salas de aula superlotadas. Mas na Inglaterra, e também na Alemanha e na Holanda, as pessoas estavam mais preocupadas com as liberdades do indivíduo e temas como sexualidade e família.

De fato, Maio de 68 está em toda parte neste ano. Diversas galerias de arte em Paris promoveram exposições com pichações e cartazes de protesto que foram espalhados nas ruas naquele período. Tem gente vendendo os cartazes por até 4 mil euros... Está aí outra coisa de que eu discordo completamente: o conceito todo de arte. Não há isso, [arte] é só vapor. Só existe mídia. Um livro é um livro. Um filme é um filme. Elevá-los a algo chamado de arte é bobagem. Arte é só algo para milionários continuarem milionários. Compram uma peça por 10 mil, guardam por anos e depois revendem por 10 milhões. Ou doam pra um museu na Filadélfia e se isentam de pagar impostos. Se eu digo que é arte, então é arte. Porque eu sou um artista. Bobagem, você é só um ser humano e sua merda.

“Escrevi um livro contra os casais, contra a família e contra o romantismo.Houve um tempo em que eu dizia que o romantismo [ou a romantização] é mais perigoso que o comunismo.”

Qual é o saldo de mudanças positivas de 1968? O que foi fantástico nos anos 60 – porque 1968 foi só um ano – foi a atitude toda, que começou nos anos 50. Havia a cena folk nos EUA desembocando na cena de protestos contra o Vietnã, estávamos nos descobrindo com o LSD e o haxixe. E eu me tornei um pervertido sexual, porque gosto de dormir com mulheres bonitas. E a minha definição de mulher bonita é uma mulher que sorri. Meu critério é baseado na mutualidade: se elas têm o bom gosto de gostar de mim, eu tenho o bom gosto de gostar delas. Não estou interessado no sentido vulgar de sexualidade, de apenas foder. Gosto do afeto.

Como você vê o desenvolvimento da sexualidade hoje? Bem, o pêndulo se move o tempo todo. Acho que um dos problemas com a liberdade sexual é que as pessoas não entendem o sentido. Pensam que significa poder trepar mais. Eu entendo que se trata de uma sociedade ou uma comunidade que é mais aberta ao afeto, em que as pessoas são menos intolerantes, aceitando-se do modo como são, e que põem abaixo o conceito de beleza. Uma mulher feia e um homem feio têm de fazer amor também! E, sendo mais aberto, não vejo razão de por que as pessoas não podem ter mais de um amante. Por que um? Antigamente – e ainda hoje – as pessoas pensavam que amor era um pedaço de torta e que, se você tinha metade, então sobrava outra metade para dar a outra pessoa. Eu sempre vi o amor como um poço artesiano, quanto mais você bebe, mais vem.

Qual foi o papel dos movimentos feminista e gay nessa mudança de mentalidade? O movimento feminista foi importante porque as mulheres precisavam se afirmar. E o verbo afirmar [no inglês, “to assert”] é o meu favorito. Significa que, se eu tenho uma idéia, de tocar o seu cabelo, por exemplo, por que não posso realizá-la? Minha única restrição é entrar no seu espaço. O problema com as mulheres e os homens é que eles nunca entenderam isso: liberdade significa que você tem o direito de fazer o que você quer fazer, limitado apenas por entrar no espaço de outra pessoa. Acho que a liberação feminina foi inteiramente valiosa e necessária, mas então as mulheres começaram a interpretá-la mal, dizendo: não precisamos de homens. Tornaram-se pés no saco. O cara se aproximava delas, cheio de afeto, e levava um soco no nariz. Acho que o movimento gay surgiu, de certa forma, como uma reação a isso. Quem quer ficar ao lado de um bando de mulheres que são uns pés no saco? É melhor estar ao lado de um bando de homens que pelo menos estão se divertindo.

De volta a Maio de 1968, quando as pessoas estavam atirando pedras contra a polícia nas ruas, o que você estava fazendo? Eu estava em Paris, mas sempre que havia uma manifestação eu evitava. Não via razão para estar lá. Eu sempre disse: nunca acerte um policial com um pau na cabeça, leve-o para casa para jantar. E convide também a sua mulher!

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