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Dor e revolução

Saiba quais são os três tipos de dor que mexem com a sensibilidade humana

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Por Ricardo Guimarães*   Ilustração Abiuro

Caro Paulo,

Quero responder ao Guilherme que, a propósito de nossa conversa sobre tsunami, me escreveu perguntando se a humanidade precisa sofrer para aprender. Acredito que é possível mudar e evoluir movido por visão e fé, porém também acredito que na maioria das vezes nós precisamos sim de dor para buscar algo melhor. Alan Watts diz que ?ninguém é mais sensível ao prazer sem ser mais sensível à dor?. Parece papo de poeta propondo compensar dor com prazer, mas, pensando bem, não é não.

Me acompanhe. Consigo identificar três tipos de dor. Uma é a dor física, que dói no corpo, na conta bancária, na agenda. Ela é uma ferida, um estouro no limite de crédito, um atraso na entrega do projeto. Ela nos leva a tomar providências práticas. É uma dor fácil de administrar se a gente agir rápido, porque às vezes a dor é conseqüência de um processo que vem de longe. Quando a gente se dá conta, é tarde demais, perdemos a saúde, fecharam nossa conta, perdemos o emprego ou o cliente. É uma dor que nos ensina uma sensibilidade vital de sobrevivência.


A outra dor dói no coração. É a dor emocional: uma tristeza, uma saudade, um arrependimento, um ressentimento. Em geral, está relacionada a uma pessoa querida que perdemos, que nos rejeita, que vai embora, que nos trai, que morre. Pode parecer óbvio, mas para sentir essa dor é preciso que a pessoa esteja sensível ao outro e ao sentimento. Às vezes, temos tanto medo dessa dor que, para nos protegermos, criamos uma defesa que nos impede até de ver o outro. É o endurecimento ou o encolhimento do coração. É uma dor mais difícil de administrar porque a gente tem recursos para disfarçá-la, o que é uma pena porque é a dor que mais nos ensina a encontrar a felicidade pois apura nossa sensibilidade emocional e nos prepara para a terceira dor.


A terceira dor é a mais abstrata e a mais transformadora. É a dor de consciência. Ela começa a doer na cabeça, passa pelo coração, atinge a alma e nos leva à ação, porque é resultado da percepção da nossa importância para o outro, não importa quem seja o outro. É quando a tristeza, a fome, a doença, a dor dos outros nos incomoda. Essa dor é muito poderosa porque ela pode nos levar à rebeldia mais violenta ou à compaixão mais amorosa. Ou você toma o caminho de um Che Guevara ou de um Gandhi. De qualquer forma, é uma dor que provoca mudanças radicais no nosso comportamento porque desperta uma necessidade de ação sobre nós mesmos e sobre o mundo.


Eu não sei falar muito sobre essa dor, mas posso te dizer que as pessoas mais interessantes que conheci eram movidas pela consciência. Pode ser um jardineiro, um empresário, um operário ou um artista. Seus gestos são corajosos, surpreendentes, criativos. São pessoas que vão longe nos seus projetos de vida porque são levadas pelos outros. Elas são sensíveis e nos protegem de nossa insensibilidade. Elas se colocam como instrumento de transformação porque há uma entrega ou talvez uma coincidência entre seu propósito pessoal e o propósito da humanidade.


Enfim, Guilherme, depois dessa reflexão, concluo que sim, qualquer dor pode prestar um bom serviço à nossa sensibilidade. Depende do uso que fazemos dela. Se não for pela sensibilidade, pela evolução, que seja pelo prazer. Obrigado. Curti a provocação. Escreva sempre. Meu abraço.


 


Ricardo


 


*Ricardo Guimarães, 56, presidente da Thymus Branding, acredita que o sofrimento gera evolução. Seu e-mail é: ricardo@guimaraes.com.br

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