por Aulus Sellmer

Aulus Sellmer pensa sobre o poder do corpo e da mente durante uma corrida de aventura

Mais uma expedição. Cinco dias de prova, 480 quilômetros, cinco modalidades esportivas (trekking, mountain bike, rafting, técnicas verticais e duck), 23 postos de controle e nove áreas de transição. Esse foi o meu desafio e dos atletas presentes que participaram em Tocantins da corrida de aventura Brasil Wild Extreme, que atravessou o Parque Estadual do Jalapão. É uma das regiões que sempre quis conhecer e não perdi esta oportunidade para explorar esse pedaço do cerrado do Brasil. Minha missão foi conviver com as 44 equipes participantes (quartetos e duplas), que logo na manhã do dia 8 de junho estavam prontas para a largada em Mumbuca, um vilarejo de quilombolas, no coração do Jalapão, onde é produzido um dos artesanatos mais belos do Brasil, conhecido como a arte do capim dourado. Além de acompanhar as equipes, queria investigar a relação entre a dor e o prazer destes atletas que têm este esporte como estilo de vida e não desistem com tanta facilidade das adversidades, enfrentando desafios que seres normais nem pensam em encarar.

Antes de ir a fundo na dor e no prazer, acho importante definir o significado deste esporte com dez anos de existência no Brasil. Corrida de aventura possui a característica de uma expedição na qual atletas devem ter autonomia, resistência física e mental, espírito de equipe. São praticadas as mais diferentes modalidades esportivas, e os atletas se orientam por bússolas e mapas durante dias e noites, em regiões inexploradas, enfrentando as dificuldades da natureza do início ao fim. O desafio de superar os limites do corpo e da mente está presente em uma prova como esta, que coloca atletas frente a frente com obstáculos da natureza e do próprio homem. O principal desafio é vencer o próprio cansaço, seus medos, sua disponibilidade em motivar os companheiros e terminar a prova com toda a equipe unida. Depois da largada, a prova passa a ser um desafio de cada equipe. A logística e a estratégia são pontos fortes neste esporte, pois as equipes estudam minuciosamente o percurso no mapa, a quantidade de alimento, líquido na mochila e os equipamentos que devem levar para passar por todos os postos de controle e áreas de transição, onde a modalidade esportiva é trocada. Nesse contexto de variáveis de difícil controle, a força de um competidor está no equilíbrio do seu ser, fazendo da corrida de aventura uma prova para poucos.

Em uma expedição como esta não há como deixar a dor de lado. Dor pode ser definida como a percepção psicológica de uma agressão física ou química. Essa percepção é considerada uma enorme proteção na evolução do homem. Foram vários momentos em que a dor passou a influenciar decisões das equipes, fazendo com que fatores psicológicos fossem responsáveis pelos milhões de pensamentos negativos e positivos na mente de todos os atletas que ficaram perdidos, na prova, atravessando pântanos, serras, muita areia, desentendimentos na equipe, dúvidas e, principalmente, o calor de 40 graus Celsius na cabeça - carregando 15 quilos nas costas de equipamentos obrigatórios, hidratação e alimentação.
Todo corredor de aventura associa a melhora do desempenho na prova com a presença da dor, isso ficou bem claro em vários depoimentos. “A dor costuma ser uma companheira constante, e você acaba se habituando a conviver com ela ao extremo, ainda que dando menos importância do que deveria”, diz Rafael Campos, da equipe Quasar Lontra, primeira colocada desta prova. Um fator muito importante que percebi é o limiar de dor que varia muito, apesar de ser alto e praticamente impossível de ser determinado. “Quanto maior a capacidade se suportar a dor, maior será a chance de sofrer lesões. A dor durante a prova é sinal de que algo está errado e sempre é necessário ficar atento a ela, o que geralmente não acontece”, aponta Karina Oliani, da equipe médica da prova. A duração, a intensidade, a localização são fatores que melhoram e pioram a dor, tudo isso deve ser avaliado, não para simplesmente combatê-la, mas para interpretá-la, traduzir o que ela esta querendo dizer e assim tomar uma atitude que pode determinar todo o destino da equipe em uma prova como esta, em que abrir o rádio solicitando resgate é o fim de um caminho muito longo.

Chegou a vez do prazer. A chave para o prazer é o autoconhecimento e a autoaceitação. Quando entramos em sintonia com nossa exclusividade, com as nossas peculiaridades e simplesmente manifestamos o que somos, sem medos, bloqueios, moralismos, limitações, vivendo o momento presente, o prazer acontece em situações de vencer uma etapa da prova, conseguir realizar uma boa navegação e achar os pontos de controle sempre relacionados a beleza, paisagens do lugar e momentos de felicidade pela vitória conquistada em direção ao pórtico de chegada em Palmas, capital do Estado.
Nossos hormônios também estão presentes em toda esta aventura. A endorfina e a serotonina, responsáveis por aquela sensação de bem-estar e prazer. A serotonina está intimamente ligada aos transtornos do humor presente do lado positivo e negativo que afeta todos os atletas em todo o percurso. Um fato é verdadeiro. Quanto maior a quantidade de esforço, maior a liberação de endorfina, chegando a um ponto em que é preciso mais exercício para atingir a mesma sensação de bem-estar. Corredor de aventura é um dependente de atividade física, pois seu corpo solicita movimento, seja com dor ou prazer. O caminho para chegar até esse estágio varia de pessoa para pessoa. O atleta Victor Teixera, da equipe Quasar Lontra Máster, por exemplo, participa de corrida de aventura desde 98 e tem mais de 80 provas nas costas. Dá para acreditar?

Um fator que muitos atletas relataram e também você acaba percebendo, e muito interessante, é que a corrida de aventura é um grande instrumento para a formação da personalidade, sendo uma modalidade esportiva complexa que exige logística, estratégia, união da equipe e força de vontade, valores de grande importância para a formação de um indivíduo independente, autoconfiante, solidário e principalmente internamente forte, que acredita na própria capacidade de conquista.
São com essas pessoas que convivi durante quase uma semana, como responsável pelo treinamento físico de alguns atletas. Com certeza aprendi mais um pouco de como ir atrás de meus objetivos para sempre crescer e estar pronto para a próxima expedição com um pôr do sol como o que tem por lá. Para terminar, uma frase que ouvi bastante: “A dor é passageira e o prazer é uma história de vida”.

Aulus Sellmer é diretor técnico da assessoria esportiva 4any1 e colaborador da rádio Eldorado

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